VIGÍLIA PASCAL - SÉ NOVA DE COIMBRA, 2013

“Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida é uma vida para Deus”.

A Páscoa introduz-nos no mistério central da nossa fé, e leva-nos a professar a morte de Cristo e a sua ressurreição. A celebração anual tem por objectivo fortalecer-nos nessa mesma fé e ajudar-nos a renovar a alegria de acreditar no Senhor, pois o ritmo de vida que temos e as muitas ocupações, embora não nos afastem dessa convicção, podem torná-la menos brilhante em nós.

Hoje, só quem sente uma verdadeira alegria por acreditar em Jesus Cristo, é que permanece firme na fé. Nas presentes circunstâncias culturais uma fé de tradição, não aprofundada nem assumida pessoalmente como um tesouro, não tem capacidade para orientar uma vida nem para se tornar contagiante ou para conduzir outros a acreditar.

Reconhecemos agora que somos uma Igreja pouco evangelizada nas suas estruturas e nos seus membros, pouco ousada nas suas propostas e muito preocupada com elementos assessórios à sua definição. Para grande parte dos fiéis a centralidade da fé ainda não está em Cristo morto e ressuscitado, mas na envolvente cultural proveniente de uma tradição social de cariz cristão. Nesse sentido, sentimo-nos todos muito presos à terra, tanto a instituição eclesial, como os fiéis, tanto os leigos, como os consagrados e os que foram ungidos para o ministério ordenado.

Cristo, como dizia a Epístola aos Romanos, morreu para o pecado e a sua vida é uma vida para Deus. Como que a dizer que se centrou em Deus, mais do que nos usos e costumes do seu tempo, dos quais foi inclusivamente muito crítico. A sua vida vivida para Deus fê-lo valorizar o Pai e a Sua vontade, mais do que as tradições religiosas, considerando que elas são importantes por estarem ao serviço de uma vida para Deus. Valorizou igualmente as realidades terrenas, particularmente a humanidade, por quem derramou o seu corpo e sangue, porque a sua vida para Deus foi sempre uma vida para os homens que Deus ama. Ele não podia viver uma vida para Deus sem viver uma vida para os homens.

 

“Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus”.

O caminho do cristão, que recebeu o batismo e foi sepultado com Cristo na morte, leva-o a morrer para o pecado e a viver para Deus, por meio do mesmo Cristo.

A Páscoa tem de levar-nos a assumir como primeira tarefa, esta de renunciar ao mal em todas as suas manifestações e ao pecado em todas as suas formas, como condição para permanecer em Deus. Esta forma clara de a Escritura nos apresentar as exigências da fé pode ter pouca aceitação em nós que confundimos a fé cristã com um conjunto de valores, confundimos a Igreja com uma comunidade humana, confundimos a religião com uma conjunto de atos sociais.

Viver para Deus é mais do que tudo isso, pois é, em primeiro lugar a comunhão com Cristo, a relação pessoal e íntima de confiança e amizade, estar unido a Ele pelos laços do Espírito nascidos no batismo e alimentados na eucaristia. Viver para Deus é sempre viver para os irmãos, duas realidades inseparáveis na nossa vida como o foram na vida de Jesus que vive para Deus dando a vida pelos homens.

É por meio de Cristo Jesus que temos a graça e a força de morrer para o pecado e de viver para Deus. Esse é o fruto da sua morte e ressurreição, que havemos de colher sempre que celebramos estes santos mistérios e sempre que procuramos unir-nos a Ele na comunhão da Igreja. Ele é o mediador da salvação, quando nos permite viver para Deus e para os irmãos já sobre esta terra e caminhar para a plenitude da vida eterna.

 

Nesta noite santa da Páscoa, agradeçamos a Deus este dom inestimável da fé em Seu Filho Jesus Cristo, que entregou o seu corpo à morte por nós e ressuscitou para nossa salvação.

Manifestemos a nossa alegria de acreditar n’Ele e peçamos humildemente que aumente a nossa fé, que nos faça viver para Deus e para os irmãos.

Reafirmemos a nossa decisão de, cheios de entusiasmo, O darmos a conhecer como a nossa alegria e a nossa única esperança.

Confiemo-nos à intercessão de Maria, a mulher sem pecado, que viveu toda a vida para Deus e para os irmãos, na alegria de crer e no entusiasmo de comunicar a sua fé.

 

Coimbra, 30 de março de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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