XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM B - REGRESSO DA IMAGEM DA RAINHA SANTA ISABEL A SANTA CLARA

Caríssimos irmãos!

Jesus percorria as aldeias dos arredores, ensinando e admirado com a falta de fé daquela gente. Encontra essa falta de fé onde esperava não a encontrar, na sinagoga da sua terra, na sua aldeia.

A mesma admiração podemos adivinhar em Jesus, ao passar pela nossa terra agora mais alheia à fé, ao passar por nós fechados ao seu amor, ao passar pela sua Igreja demasiado marcada pela sua humanidade, pelo mundo grande e vasto que temos para evangelizar.

Ao declarar o Ano da Fé, que terá início em Outubro, o Papa Bento XVI, em sintonia com a Palavra de Deus, afirma que a sociedade está mergulhada numa “profunda crise de fé, que atingiu muitas pessoas” (PF 2). Daí que reafirme a “necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF 2).

Acreditamos todos em muitas realidades humanas e terrenas, pomos nelas a esperança do futuro, damos muito relevo às “consequências sociais, culturais e políticas da fé” (PF 2), mas estamos carenciados da fé teologal em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, Santíssima Trindade. É esta porta da fé, que nos “introduz na comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja” (PF 1), que Jesus nos convida a ultrapassar, pois esta é a verdadeira fé que nos anunciou e que transforma a vida na sua totalidade.

Foi com esta falta de fé que Jesus ficou admirado na sua terra e é esta mesma falta de fé que O admira na nossa terra. Daí que precisemos de celebrar os grandes vultos da fé cristã, daqueles e daquelas que conheceram Deus, entraram na sua Igreja pelo baptismo, viveram a comunhão íntima com Ele e deixaram que lhes transformasse radicalmente a vida. A fé cristã foi e é um valor imenso, que não somos capazes de reconhecer plenamente nem agradecer como convém.

A Segunda Leitura, da Epístola os Coríntios dava-nos o exemplo de Paulo, um judeu convicto, rigoroso, que se converteu e se viu completamente mudado ao sentir que habitava nele o poder de Cristo. Despojado de todas as suas vaidades e soberbas, passou a gloriar-se e alegrar-se, como dizia, nas “fraquezas, nas afrontas, nas adversidades e nas angústias sofridas por amor de Cristo”.

A celebração da Rainha Santa Isabel, que tem decorrido ao longo desta semana, dava-nos outro grande exemplo: a de uma mulher que acredita no Deus revelado por Jesus Cristo, que vive na comunhão com Ele e deixa que Ele transforme a sua vida. Facilmente se lhe aplicam as palavras de Paulo, pois a força do seu exemplo de vida que continua a arrastar multidões de devotos e fiéis, vem-lhe precisamente da sua fé e da sua fraqueza livremente assumida: “quando sou fraco, então é que sou forte”.

Para nós, cristãos, a celebração da Solenidade da Rainha Santa Isabel não é simplesmente a exaltação de uma pessoa, nem de uma lista de virtudes, mas é a afirmação da fé cristã como realidade transformadora da vida, a afirmação da santidade como caminho aberto a todos, a certeza de que em todos os tempos é possível entregar-se a Cristo e, cheios d’Ele, amar a todos como irmãos.

Frequentemente se pensam as festividades deste género dentro do quadro da tradição local, de uma nação ou de uma Europa de matriz cristã. Nessa perspectiva participam nelas milhares de pessoas que, porventura desprovidas de uma fé viva e assumida, sentem que estas são as marcas da nossa cultura. Este modo de celebrar e de sentir é, com certeza, legítimo, mas fica muito aquém de um correto modo de entender o que é a matriz cristã de Europa. Para nós, a matriz cristã não é algo do passado, que deixou marcas culturais, nas tradições, na linguagem ou nos costumes, mas é uma realidade de outra ordem, que tem continuidade em nós no tempo presente. A única matriz cristã da Europa que nos interessa é a do Evangelho assumido e vivido, é a da fé em Jesus Cristo, conhecido, aceite, amado e seguido como Senhor do tempo e da eternidade, da nossa vida e da nossa morte.

Todas estas manifestações de religiosidade que estamos a realizar hão-de ajudar-nos a pôr os olhos no Deus que moveu Santa Isabel e suscitar em nós o desejo de crescer na fé e no amor em Jesus Cristo, em quem ela acreditou e que ela amou.

É a partir destas convicções acerca do lugar de Deus e da fé na vida da humanidade que nasce todo o dinamismo evangelizador ao longo dos tempos e, mais urgente ainda, no nosso tempo. “Eis que te envio”, dizia a Profecia de Ezequiel; “Jesus dirigia-se à sua terra... e percorria as aldeias dos arredores”, dizia o Evangelho, acentuando este dever de missão evangelizadora que cabe à Igreja que somos, na fidelidade à sua missão profética.

A missão da Igreja não consiste, pois, em manter alguns sinais de uma sociedade tradicionalmente cristã, nem em alimentar algumas marcas de um passado que alguns aceitam com orgulho e que outros riscam das páginas da história ou interpretam a partir de ideologias anti-cristãs e laicas. A missão da Igreja consiste em proporcionar, como referido pelo Papa, “o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF 2) e tornar presente o dinamismo da fé na sociedade atual, assumida de forma consciente e livre, como realidade da qual dimanam valores, princípios e perspetivas iluminadores do pensar e do agir humano.

Enquanto devotos da Rainha Santa Isabel, cabe-nos deixar-nos inspirar pelo testemunho da sua fé: conhecedores da nossa fraqueza, confiaremos na graça do Senhor, para que se manifeste em nós o poder de Deus, segundo a expressão do Apóstolo Paulo. Cabe-nos ainda deixar-nos inspirar pelo exemplo da sua caridade: o coração aberto aos outros, a todos, porque em cada pessoa humano há um “pobre”, uma pessoa faminta de pão e de amor, sedenta de esperança e de Deus.

Rainha Santa, intercedei por nós junto de Deus, para que, vivendo já o entusiasmo do encontro com Cristo, abracemos confiantes a missão da evangelização desta cidade, que é vossa e, vos pedimos, continueis a proteger.

Coimbra, Igreja de Santa Cruz, 8 de Julho de 2012

 

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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