XXII DOMINGO COMUM B - CELEBRAÇÃO DO JUBILEU DOS MIL E CEM ANOS DA IGREJA PAROQUIAL DE SÃO PEDRO DE LOUROSA - OLIVEIRA DO HOSPITAL

Estamos a concluir a celebração jubilar dos mil e cem anos da fundação da Igreja de S. Pedro de Lourosa. É uma data significativa, pois fala de uma longa história de fé cristã nesta região e de uma tradição ininterrupta de conhecimento de Jesus Cristo enquanto mensageiro da Boa Nova e dos fundamentais valores humanos. É um lugar igualmente significativo, porque atesta, geração após geração, a adesão do povo desta região ao cristianismo como base e matriz de uma cultura largamente difundida, maioritariamente adotada como orientadora do ser e do agir do povo português.

A cultura cristã foi, de fato, construtora do país e da Europa que somos. Enquanto portugueses, tivemos não só a graça de absorver a fé cristã, mas inclusivamente de a levar aos quatro cantos do mundo, nos cinco continentes. Fomos, nesse sentido, autênticos agentes de desenvolvimento e de progresso, pois contribuímos para que a humanidade alcançasse patamares elevados de civilização.

O valor da cultura judeo-cristã foi muitas vezes posto em causa ao longo da história, sobretudo quando novas ideologias nascentes pretendiam afirmar-se e conquistar terreno dentro do mundo ocidental. O desejo do “pseudo-progresso” levou frequentemente a sociedade a perder as bases seguras dos valores perenes que já tinha conquistado e a deixar-se seduzir pela incerteza das novidades fugazes.

O valor da mesma cultura judeo-cristã é, hoje, posto em causa sobretudo de um modo prático. O estilo de vida está agora muito distante dos princípios fundamentais que recebemos da tradição bíblica e enunciados em diversos lugares do texto sagrado, de entre os quais se destaca o Decálogo e outros mandamentos do Antigo Testamento, assumidos e aperfeiçoados por Jesus no Novo Testamento.

Numa perspetiva apologética, o texto do Deuteronómio, que escutámos, apresentava Moisés a dirigir-se ao Povo de Deus e a dizer-lhe que é possuidor de um inestimável tesouro: os mandamentos do Senhor, que são a sua sabedoria e prudência, o seu caminho de felicidade e de vida, a certeza de caminharem na via da justiça.

Ciente da dificuldade que a humanidade sempre sentiu de se manter fiel aos mandamentos de Deus, Jesus, no Evangelho, adverte os seus ouvintes: “Vós deixais de lado o mandamento de Deus para vos prenderdes à tradição dos homens”. Estas duas recomendações, de Moisés e de Jesus, adquirem uma atualidade ainda maior nos nossos dias, quando assistimos a uma autêntica catástrofe humana, que é o desmoronamento programado de um sistema de valores que, sendo plenamente divinos, são plenamente humanos.

O relativismo dos “preceitos humanos” ou da “tradição dos homens”, segundo a linguagem do Evangelho de S. Marcos, deixou a humanidade sem seguranças nem rumo; tudo tem o mesmo tipo de valor, segundo o critério de cada um, segundo a sua consciência, segundo o seu modo de ver e as suas opções; perverte-se a moral, a noção de bem e de mal depende de critérios subjetivos; em situações extremas chega-se a pensar e a afirmar que os “mandamentos de Deus” são contrários ao bem e à felicidade da humanidade ou então que limitam a sua liberdade.

O cristianismo, nascido de uma fé sobrenatural e tendo uma dimensão religiosa, inclui sempre um sistema de valores a incarnar e a viver. Hoje, caríssimos irmãos, somos chamados a estabelecer pontes entre estas diferentes dimensões, pois a nossa fé não é uma realidade separada da nossa vida, mas é uma fé que inclui toda a nossa existência e que se manifesta nela. Acerca disso nos ensinou a Epístola de S. Tiago, ao dizer: “a religião pura e sem mancha... consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações”, ou seja, em deixar-se conduzir em tudo pelo Deus em que se acredita e pela Palavra de vida e salvação que nos revelou.

Hoje, é fundamental para a Igreja, para todos nós, os cristãos, a convicção de que não há nação, nem povo, que tenha “mandamentos e decretos tão justos” como os do Senhor, nosso Deus. No meio do relativismo que se vive, havemos de estar seguros dos valores que aceitamos e defendê-los com inteligência. Ancorados na fé em Deus e na razão humana, iluminada pelo Espírito Santo, seremos capazes de dar ao mundo as razões das bases que suportam o nosso pensar e o nosso agir.

 

O lugar em que nos encontramos, esta Igreja de S. Pedro, dita moçárabe por conjugar na sua arquitetura os elementos cristãos com algumas marcas da cultura árabe, é acima de tudo um símbolo da fé. Por ser um templo único no seu estilo, em Portugal, desperta grande interesse pelos mais variados motivos.

Para nós, esta igreja atesta a força da fé cristã, enquanto dom que nos leva a acolher Deus na nossa vida, a estar em comunhão com Ele por meio de Jesus Cristo, Seu Filho, e a senti-l’O muito próximo em todas as situações.

Esta Igreja de S. Pedro, de 912 segundo a lápide existente, é um monumento de pedra rija, bem resistente à erosão dos séculos, a assinalar que Deus vem continuamente ao encontro dos homens, lhes propõe uma relação contínua de amizade, os acompanha e os protege com um amor eterno.

Foram muitos os que por aqui passaram movidos pela fé, os que aqui ajoelharam na oração confiante em momentos de louvor e de súplica, os que aqui receberam o Corpo e o Sangue do Senhor, na celebração da Eucaristia. Muitos aqui sentiram a mão de bênção e misericórdia no perdão dos pecados, aqui receberam o dom de pertencer ao Corpo de Cristo por meio das águas do batismo, uniram as suas vidas em matrimónio, imploraram o descanso eterno para os que partiram...

Esta Igreja simboliza a proximidade de Deus cantada pelo autor do Deuteronómio, ao dizer: “Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que o invocamos?”

Caríssimos irmãos, os caminhos da vivência da fé que queremos percorrer passam por esta adesão pessoal a Cristo, que habita perto de nós, que está dentro de nós e nos transforma interiormente em homens novos. A missão da nova evangelização do mundo nunca acontecerá se nós não respondermos com convicção pessoal ao Senhor, se não nos deixarmos transformar por Ele para com Ele transformarmos o mundo.

Esta Igreja simboliza a rocha firme, que é Cristo presente no meio de nós, a nossa fé esclarecida e formada, que assenta na fidelidade a um passado, que tem continuidade no presente por meio da ação do Espírito ao qual nos aliamos para chamar a Deus nosso Pai; simboliza a força da beleza de Deus, sempre antiga e sempre nova, do seu amor sempre capaz de seduzir e de vencer.

Convido-vos, caros paroquianos de Lourosa a manter a fé firme, à maneira de Pedro, o Apóstolo sobre a qual o Senhor quis edificar a sua Igreja; convido-vos a manter a fé imaculada e pura, à maneira de Nossa Senhora, Aquela que deu Cristo ao mundo e, enquanto imagem da Igreja, O continua a dar por meio do vosso testemunho.

 

 

Lourosa, 2 de Setembro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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