XXIV DOMINGO COMUM C - PEREGRINAÇÃO NACIONAL DOS CONVÍVIOS FRATERNOS AO SANTUÁRIO DE FÁTIMA - “VAI E ABRAÇA A FÉ”

Irmãos e irmãs, caros jovens

As três parábolas da misericórdia contadas por Jesus como resposta às murmurações dos escribas e fariseus constituem o cerne do grande tesouro que é o seu ensino e a sua mensagem.

Ele veio para nos falar de Deus e nos dar a conhecer o modo como age na relação com todos os seus filhos, numa especial atenção aos que andam perdidos na vida, aos desorientados, aos pobres e aos pecadores.

A alegria de Deus é muito grande quando encontra a ovelha perdida ou a pequena e insignificante moeda, símbolo das realidades úteis e necessárias à vida; a sua alegria é infinita, quando reencontra o filho perdido nas malhas do pecado, distante dos outros e de Deus, sem alegria nem amor que possam suportar a ânsia de felicidade de uma vida.

Por meio das parábolas, Jesus revela-nos a misericórdia de Deus, que encontra uma expressão visível e real na sua própria pessoa e no modo como trata todos e cada um daqueles que encontra, que chama a entrar no Reino, que cura, a quem perdoa e a quem faz conhecer de novo a verdadeira face do amor que salva.

Se descermos do mundo das parábolas ao mundo real da nossa vida e da vida do nosso mundo, encontramos uma infinidade de pessoas e de situações às quais se podem facilmente aplicar.

Num primeiro nível de leitura, podemos pensar em todos aqueles que, entre nós, perderam as condições de vida que possuíam e que, de um momento para o outro se viram sem trabalho, sem casa, sem o mínimo que entre nós se considera necessário para um justo sustento. Se alargarmos esta reflexão à escala universal, deparamo-nos com um mundo muito vasto de homens e mulheres que vivem abaixo do limiar da pobreza e, portanto, do razoável, tendo em conta a igual dignidade e direito de aceder aos bens que Deus pôs à nossa disposição.

Num segundo nível de leitura da realidade, encontramos todas as relações humanas destruídas, fraturadas, causadoras de desilusão e sofrimento. A perda do amor é ainda mais dura do que a perda dos bens, pois conduz à perda da alegria de viver, à perda da esperança e à ausência de motivações fortes para enfrentar a realidade. A perda do amor à vida humana, a perda da ética nas relações familiares, laborais, sociais, económicas ou políticas, do sentido da verdade e da fidelidade, aniquila a confiança entre as pessoas, afasta-as umas das outras e fá-las temerem-se umas às outras.

Em terceiro lugar, encontramos a perda de Deus, pela via da incredulidade, das mais variadas idolatrias, e encontramos a perda do homem, facilmente desrespeitado na sua dignidade original, desprezado e usado como objeto, por força do pecado.

Somos todos muito sensíveis às duas primeiras perdas, e com razão, porque destroem a pessoa humana, lhe roubam a sua alegria de viver, a esperança e o amor, essenciais para uma vida feliz. Geralmente somos menos sensíveis à terceira, ou seja, à perda de Deus e à perda da fé no seu amor e na sua misericórdia. No entanto, as desordens e injustiças de toda a ordem existentes no nosso mundo, têm a sua raiz primeira na perda do sentido de Deus e da dignidade humana, tão caraterísticas da nossa cultura contemporânea.

“Desce depressa porque o teu povo corrompeu-se”, disse Deus a Moisés, reconhecendo que o povo se afastara do caminho que lhe tinha traçado para o passado e para o futuro. Hoje são diferentes os contornos dessa corrução e os desvios desse caminho, porventura mais dramáticos e prejudiciais para a humanidade. A raiz é, no entanto, a mesma: a perda do sentido de Deus e do sentido do homem, duas realidades indissociáveis.

Precisamos de reencontrar um e outro. Podemos fazê-lo, mesmo nas situações mais extremas e onde humanamente parece impossível. Esse é o maior desejo de Deus, expresso na parábola do reencontro do filho perdido, que estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado, como concluía o Evangelho.

O caminho para esse reencontro passa pela fé em Deus, pelo encontro com o seu amor e a sua misericórdia, que provocam sempre o encontro com o amor e a misericórdia humana, aceite, acolhida e vivida.

Caríssimos jovens dos Convívios Fraternos, peregrinos do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, os três dias do Convívio Fraterno deu-vos a oportunidade de reconhecer tudo aquilo que a vida, porventura vos fez perder, e de um encontro amigo, profundo e pessoal com Cristo. Encontrastes ali a misericórdia de Deus, vistes ali o rosto amoroso da sua Igreja, conhecestes o seu perdão e a sua alegria por um só pecador que se arrepende e volta ao caminho da salvação.

O quarto dia, que é toda a vossa vida, tem de ser um prolongamento fiel da alegria que nunca mais vos abandonou, tem de ser vivido em Cristo, que vos abriu horizontes desconhecidos e novos, tem de fazer de vós membros ativos da Igreja, sinal do seu amor e da sua misericórdia num mundo que os perdeu.

Vai e abraça a fé, porque nela tens a chave da mudança, a possibilidade do encontro com Deus e com o homem, a força de Jesus Cristo que te chamou ao seu serviço para transformares, com Ele, o mundo em que tens a graça de viver, tal como nos referia a Primeira Epístola a Timóteo.

São duas as vertentes do caminho que te é pedido enquanto parte da solução para o nosso mundo. Em primeiro, lugar o crescimento na fé, na relação pessoal com Cristo, no conhecimento da sua misericórdia, maior do que todas as tuas debilidades e pecados. Em segundo lugar, o crescimento no amor à humanidade, sentindo-te mediador da misericórdia infinita de Deus para com ela.

Não permitas que a tua fé esteja desencarnada da tua vida, mas trabalha para que se torne compromisso em favor da dignidade humana, da construção da paz e da instauração de relações marcadas pela justiça. Está atento aos outros e torna-te instrumento do seu reencontro com as condições de vida humanas e justas, do seu reencontro com Deus, com o seu amor e a sua misericórdia.

Nossa Senhora apareceu neste lugar como mensageira da graça e da misericórdia da parte de Deus. Vai, tu também, abraça a fé, e torna-te mensageiro da graça e da misericórdia.

 

Coimbra, 15 de setembro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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