XXIX DOMINGO COMUM B - 125º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE AMÉRICO, DA OBRA DA RUA IGREJA PAROQUIAL DE SÃO JOSÉ, COIMBRA

Na celebração dos 125 anos do nascimento do Padre Américo, unimo-nos à Obra da Rua, a todos os seus responsáveis, amigos e colaboradores e, de um modo especial, a todos os rapazes que estão ou estiveram na Casa do Gaiato, numa ação de graças a Deus pelo dom da vida do seu fundador.

O P. Américo agiu marcado pela fé e no exercício da sua vocação e missão sacerdotal, porque entendeu tanto uma realidade como a outra como um serviço ao ser humano integral, porque percebeu que a fé sem obras é morta e que o sacerdócio confinado ao espaço do culto e do templo pode ser estéril.

Conseguiu realizar esta harmonia tão desejada da ação e da contemplação, da fé que é empenhamento na vida, da ação social e caritativa como dimensão fundamental da comunidade cristã, da unidade do coração no amor a Deus que é sempre amor ao próximo, como duas realidades indissociáveis – o que fizestes ao mais pequenino dos meus irmãos, a mim o fizestes.

Apesar de não ter estudado as teorias mais elaboradas nas academias acerca da pedagogia e da educação, ou que se admitam falhas no projeto desenvolvido, que precisaram ao longo dos tempos de ser corrigidas, há nele um conjunto de intuições novas e originais, que brotam da natural bondade humana, potenciada pela fé em Jesus Cristo e nas palavras do Evangelho.

Destaco em primeiro lugar a consciência de que é pelo amor que se educa, se ajuda a crescer e se constroem as pessoas como seres felizes em todas as idades; em segundo lugar, a consciência de que o ser humano é bom por natureza, pois assim foi criado por Deus, bem expressa na sua máxima eloquente: não há rapazes maus; depois, a consciência de que não há causas perdidas quando se trata de pessoas, havendo sempre um trabalho a fazer sem desistências, mesmo que os resultados imediatos pareçam negativos e desencorajantes; ainda a certeza de que não basta tratar as consequências da desestruturação familiar e social, mas é preciso agir nas causas, pela promoção dos laços familiares fortes e alicerçados no amor, pela promoção da justiça e da equitativa distribuição dos meios de trabalho e sustento.

O P. Américo e tantas outras pessoas do mesmo género são para nós um testemunho belo, por um lado, inquietante, por outro, por serem incarnação do evangelho e da fé cristã, que temos tanta dificuldade em assumir de forma vital.

 

Voltemos aos textos da Escritura, que há pouco ouvimos, para destacar três ideias, orientados pela reflexão antes feita acerca do Padre Américo.

O texto de Isaías referia-se ao justo, servo do Senhor, esmagado pelo sofrimento, que oferece a sua vida pelos outros. Dizia que ele terá uma descendência duradoira e que justificará a muitos. Frequentemente interpretamos estes textos numa perspetiva espiritualista, ficando apenas com uma parte do seu conteúdo. À luz de muitos outros textos bíblicos, entendemos que dar a vida como vítima de expiação inclui a dimensão mais realista, de quem mete as mãos nas realidades temporais onde se joga a vida, a justiça, a economia, o trabalho, a família.

A ação dos servos de Deus tem hoje contornos muitos específicos, numa sociedade abalada por tão graves problemas materiais e espirituais. Enquanto Igreja, comunidades cristãs, famílias, indivíduos, estamos já fazer muito e com poucos meios. Não poderemos estar tranquilos, enquanto houver à nossa volta homens e mulheres carregados com o peso dos seus sofrimentos, seja qual for a sua origem.

A Epístola aos Hebreus reforçava a dimensão da fé, que, como vimos, não se opõe de modo nenhum à da ação, salientada pelo texto de Isaías.

“Permaneçamos firmes na profissão da fé”, constitui o apelo que nos foi feito pela Escritura e agora, neste Ano da Fé, pelo Papa Bento XVI. Na fé, que alegremente se vive e com entusiasmo se testemunha, reside a novidade da nossa vida e a razão de ser da nossa ação, tanto a nível material como espiritual.

Hoje, olhando para o mundo em que vivemos e para os dramas nele existentes, temos uma convicção maior acerca do valor e do lugar da fé, não somente em ordem à salvação eterna, mas inclusivamente em ordem à salvação temporal. A abertura a Deus e aos outros, no respeito pelos valores éticos, estão indissociavelmente ligados como base de construção da sociedade; quando falha algum deles, pode perverter-se o mundo.

Que neste Ano da Fé, não só trabalhemos para nos mantermos firmes nela, mas programemos a ação da Igreja no sentido de ir ao encontro dos que a têm adormecida ou a perderam.

Finalmente, o Evangelho dá-nos o mandamento maior: como o Mestre, servir e dar a vida pela redenção de todos. Esta é a essência do cristianismo enquanto proposta de vida, porque radica na pessoa e vida da Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”.

Esta é igualmente a chave de toda a pastoral da fé – o serviço e a oferta da vida, como realidade que transforma e converte, porque espelho do rosto de Jesus Cristo, que serviu e se ofereceu.

 

Os problemas que hoje se vivem na nossa sociedade não são fáceis de resolver: radicam na pessoa humana e nos modelos culturais que se foram desenvolvendo ao longo dos tempos, aos quais não é alheio a perda do sentido dos outros, do sentido de Deus e da fé.

Não temos na mão soluções rápidas ou miraculosas, mas, conhecemos o caminho, que nos foi revelado pelo Senhor Jesus Cristo: a oferta da nossa vida, a firmeza na fé, o serviço no amor. É o que se espera de nós, o que se espera da Igreja, com a ajuda de Deus. Ámen.

 

Coimbra, 21 de outubro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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