XXVI DOMINGO COMUM B - PEREGRINAÇÃO NACIONAL DO ROSÁRIO E DA FAMÍLIA DOMINICANA AO SANTUÁRIO DE FÁTIMA

Caríssimos irmãos!

Estamos reunidos neste lugar sagrado de Fátima, escolhido pela Mãe de Deus para trazer à humanidade uma mensagem profética. Como Mãe dos homens, Maria não podia ficar tranquila ao ver os seus filhos percorrerem caminhos de perdição. Aquela que deu ao mundo o Salvador, continua, em todos os tempos, a ser mensageira da Palavra Eterna e testemunha de um estilo de vida orientada pela novidade do Evangelho, que salva.

O seu convite à penitência e à oração, enquanto caminhos de conversão, quer levar-nos a uma atitude de vida profética, ou seja, a vivermos de um modo tão justo e tão santo, que interpele os homens e mulheres do nosso tempo. A penitência, enquanto forma abraçar de a vida com tudo o que ela tem de agradável e de dureza, sabendo que é o lugar que temos para amar os irmãos, na renúncia e no sacrifício; a oração, enquanto forma de manter real a comunhão com Deus, conscientes de que d’Ele tudo nos vem, enquanto relação de amizade, que nos encoraja para acreditar, esperar e amar.

Viemos a Fátima para louvar o Senhor Deus que, na senda de Jesus Cristo, a Luz dos Povos, não cessa de enviar-nos os seus profetas, para que aprendamos a percorrer os seus caminhos proféticos, capazes de nos conduzirem às fontes da salvação. Aqui irrompeu uma grande profecia, que continua a ser um sinal de esperança e de salvação para a humanidade. Não se trata de um anúncio de qualquer catástrofe nem de uma solução miraculosa para todos os problemas que encontramos; trata-se de reconhecermos, à luz da Palavra de Deus, os erros e pecados em que nos encontramos, causa dos males que sofremos, e de nos deixarmos abrir à novidade de Jesus Cristo morto e ressuscitado e dos horizontes que nos aponta.

“Quereis oferecer-vos a Deus?”, é a pergunta de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na aparição de Maio de 1917. Ela vem com uma mensagem profética, transformadora, e dirige aos Pastorinhos e ao mundo uma mensagem do mesmo género. A partir da fé em Deus e da confiança em Nossa Senhora, eles sentem-se envolvidos na mesma missão profética, aceitam transformar a vida. Apesar do seu “sim” imediato e generoso, aquela não era uma questão de palavras, mas uma questão de vida e testemunho. Aceitaram transformar a vida, com todas as consequências que isso significou, aliás bem expressas nas palavras de Nossa Senhora que se seguiram: “ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto”.

 

Na senda de Jesus Cristo, o único Profeta de Deus, que vive o que ensina, todos os cristãos são chamados a viver esta missão profética, ou seja, a viver e testemunhar aquilo que creem e aquilo que anunciam. Nossa Senhora, enquanto primeira cristã e discípula, é para nós o modelo humano de quem vive aquilo que crê. Os Pastorinhos de Fátima, elevam-se desta terra como duas candeias que refletem, com o brilho da sua pessoa, da sua vontade e do seu testemunho, o “sim profético” dado a Deus por meio de Maria.

A Palavra de Deus escutada neste Domingo traz de novo à nossa reflexão a grande pergunta, que nunca nos pode deixar: somos profetas de palavras ou profetas de obras? A nossa fé é um sentimento vago que temos na mente ou é uma realidade transformadora da vida?

Segundo o Livro dos Números, Moisés fez poisar parte do Espírito que estava nele sobre setenta anciãos, que começaram a profetizar, mas rapidamente deixaram de o fazer. Outros dois, porém, que também receberam o Espírito, profetizavam com entusiasmo, apesar de não serem conhecidos como profetas. Segundo o Evangelho de São Marcos, um homem desconhecido, que não andava com os discípulos e com Jesus fazia milagres em seu nome.

Num caso como no outro, o que conta para Moisés e para Jesus é a vida, autêntica profecia. “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta!” conclui Moisés; “quem não é contra nós é por nós”, remata Jesus no Evangelho.

Tanto a Epístola de São Tiago como o Evangelho concretizam minuciosamente e de modo eloquente o que significa assumir na fé a missão profética: a renúncia a toda a avidez de riqueza, que despreza os direitos dos outros e o valor inestimável que é a justiça; o respeito absoluto pelos outros, pelos seus bens, pelos seus direitos e pela sua vida; a caridade manifestada em gestos concretos na relação com os mais débeis e mais pobres; a integridade e pureza de vida, tanto na interioridade do coração como na exterioridade das obras.

 

Nesta peregrinação nacional do Rosário e da Família Dominicana, recordamos a grande figura do seu patrono, São Domingos, que deixou as marcas da sua fé e da sua vida na Igreja, bem como o testemunho da sua integridade de discípulo de Jesus Cristo. Viveu como um verdadeiro profeta do seu tempo, tal como afirma a História da Ordem dos Pregadores: “Em toda a parte se mostrava, nas palavras e nas obras, como um homem do Evangelho”.

Todos vós, caríssimos irmãos, da Família Dominicana, sois convidados a apender com ele, a ser profetas deste tempo, por meio da palavra, do anúncio ou da pregação, bem ancoradas na integridade de vida e no Evangelho.

A oração cristã, na qual se insere a oração dos pobres, que é a oração do Rosário, será sempre o suporte da nossa caminhada profética. A meditação dos mistérios da vida de Jesus, a recitação pausada da oração que o Senhor nos ensinou e das ave marias, faz-nos entrar na intimidade da Santíssima Trindade, que aclamamos na doxologia.

Temos, por isso, sempre à mão esta forma de oração cristã, em todas as circunstâncias e ocupações. Acresce ainda o facto de Nossa Senhora ter posto nela tanto empenho e nos ter incitado tão repetidamente a rezar o Terço todos os dias pela conversão dos pecadores e pela paz.

Profetas deste tempo, ancorados na oração cristã, juntando o rosário dos nossos lábios e das nossas vidas ao rosário da vida de Jesus Cristo, dispomo-nos a transformar o mundo pelo anúncio do Evangelho e pelo fiel testemunho de vida.

Amparai-nos e protegei-nos Virgem Senhora do Rosário, “serva e mensageira da Palavra”, que “em Fátima, sois mestra, sois doutora, sois de Deus profecia, em Vosso altar”. Ámen.

 

Fátima, 30 de Setembro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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