XXVII DOMINGO COMUM B - ABERTURA DO ANO PASTORAL E DO ANO DA FÉ

Caríssimos irmãos!

Damos início ao Ano da Fé, correspondendo ao apelo feito pelo Papa Bento XVI na Carta que dirigiu a toda a Igreja, intitulada A Porta da Fé. É um tempo de graça, que Deus nos concede, e que devemos aceitar como um dom do Seu amor pela Igreja e pelo Mundo. Iniciamos igualmente o ano pastoral da nossa Diocese com o desejo de imprimir um bom ritmo às nossas comunidades, para que se tornem Igreja viva e feliz por viver do tesouro do Evangelho.

Queremos aproveitar este Ano da Fé para avivar a nossa comunhão com Deus, a nossa inserção na comunidade cristã, ou seja, na Igreja Povo de Deus, e a nossa ação evangelizadora, contrariando assim, um certo desalento sentido por muitos cristãos com a nossa alegria de crer e com o nosso entusiasmo de comunicar a fé.

 

A fé cristã consiste em aderir com a mente, com o coração e com a totalidade das nossas forças a Deus, que vem ao nosso encontro de muitas formas, mas que se nos dá a conhecer plenamente por meio de Seu Filho Jesus Cristo. Ele propõe-nos uma adesão vital, pessoal, que nos leva a uma comunhão íntima, misteriosa, com Deus, Santíssima Trindade. Deixa à nossa liberdade a decisão de aderir e responder ao amor com que nos trata e que não cessa de nos mostrar.

Todos nós, cristãos, que já entrámos na Igreja pela porta da fé, temos um longo caminho a realizar, que nos levará de uma adesão superficial a uma comunhão profunda, decisivamente marcante de toda a nossa vida.

Como nos recorda o Papa, não é pelo facto de termos recebido o batismo que podemos supor a fé como um dado adquirido, pois ela é um processo contínuo, que nos acompanhará até ao último dia. A nossa união vital a Cristo nunca estará completa e a fé como motor da nossa vida diária também nunca estará completamente realizada. O mesmo é dizer que o caminho da conversão a Deus e da transformação da vida nunca estarão completos e que a meta da santidade se encontra sempre mais distante e mais alta. O dinamismo da fé convida-nos a estar sempre na tensão de acolher o convite e atualizar a resposta, por meio das palavras e das obras.

 

Pelo batismo, estrámos na Igreja de Jesus Cristo e passámos a chamar a Deus nosso Pai; acedemos à porta da vida eterna que nos foi aberta pela morte e ressurreição do Senhor; tomámos lugar na comunidade cristã, que caminha animada pelo Espírito Santo. Houve, por isso, um momento inicial marcado pelos sacramentos da iniciação, que não podem ficar na nossa biografia como uma realidade de um tempo passado. Tanto o batismo como a confirmação e a eucaristia e os outros sacramentos são presença atuante de Jesus Cristo no nosso hoje, que precisa de ser assumida.

Todos os que abraçaram a fé, têm ainda de entrar de forma mais decidida na Igreja, assumindo a sua condição de membros corresponsáveis pela construção da comunidade cristã. Quem adere a Cristo, adere também ao Seu Corpo, que é a Igreja, empenha-se ativamente dentro dela e não permanece como um espetador ou alguém que usa os serviços disponibilizados por ela em situações pontuais de significado social.

A melhor expressão comunitária da fé encontra-se na vitalidade da comunidade cristã; a melhor expressão da fé pessoal, encontra-se na adesão à Igreja, na fidelidade ao seu ensino e no trabalho em favor da sua edificação. A verdadeira fé cristã manifesta-se na permanência na Igreja a tempo inteiro, sem hiatos nem fugas, pois a fidelidade a Cristo exprime-se na fidelidade à Sua Igreja.

Condição para estas atitudes do cristão na relação com a Igreja é a fé na sua realidade de Corpo de Cristo e sacramento universal de salvação (LG 48), atributos que a distinguem infinitamente de uma simples realidade humana ou de caráter sociológico.

 

A fé cristã pessoalmente assumida e vivida em Igreja tem na sua matriz original a missão evangelizadora. O Senhor Jesus Cristo, a Boa Nova de Deus para nós, foi o Mensageiro de Deus; Ele associou a si os Apóstolos e toda a Igreja, enquanto continuadores da missão evangelizadora do mundo.

Por meio das Suas palavras aliadas ao testemunho de vida, reuniu um Povo Santo, que se esforça para se identificar com Ele, aceita a salvação alcançada e se disponibiliza para ser evangelizador pela palavra e pelo testemunho.

Esta missão precisa, hoje, de novos métodos e de novos meios, aptos para chegar a uma humanidade culturalmente diferente, pois o conteúdo é sempre o mesmo: Jesus Cristo Salvador, que é de ontem, de hoje e de sempre. Precisa igualmente de um novo fulgor e de um novo entusiasmo, a ponto de se lhe poder chamar, de facto, nova evangelização. Percebemos que no nosso tempo não basta uma Igreja prestadora de serviços religiosos nem uma comunidade cristã que aguarde para ser procurada pelas pessoas. Como nos tempos áureos da evangelização, é preciso partir com a Palavra do Evangelho nos lábios e o testemunho do amor de Deus no coração; é preciso ir de forma organizada às ruas e cidades em que moramos, com ousadia e segurança, proclamar as maravilhas que já experimentámos a partir do nosso encontro pessoal e comunitário com Cristo.

Na situação em que nos encontramos, é essencial, como sempre foi, o testemunho de adesão ao Evangelho, mas é igualmente necessário o anúncio explícito, direto, incisivo, do mesmo Evangelho. O Papa Bento XVI incita-nos inclusivamente a “fazer publicamente profissão do Credo” (PF 8).

Convido cada uma das nossas comunidades cristãs e cada pessoa ou cada família cristã a organizar ao longo deste ano alguma ação evangelizadora nova, pessoal, direta, pública, sempre no total respeito que nos merecem todas as pessoas, quer acreditem ou não, façam ou não parte da Igreja.

O Ano da Fé deve levar-nos a reunir muitos homens e mulheres que um dia entraram pela porta da fé, mas não fizeram mais caminho ou se dispersaram na cedência à indiferença; deve levar-nos a abrir a porta da fé aos que se sentem em atitude de procura, mesmo que seja de forma muito vaga; deve ainda levar-nos a inquietar os que se encontram longe da fé numa questionamento a que podemos chamar de pré-evangelização. A uns e a outros é necessário proporcionar os meios adequados para que se dê o encontro com o Ressuscitado, único Salvador, e com a Sua Igreja, sacramento da salvação.

 

Este Ano da Fé há-de levar-nos a redescobrir a alegria de crer, a sentir que o encontro com Jesus Cristo e a inserção na Igreja nos dão a paz do coração, uma orientação e um sentido para tudo. Quanto mais nos adensamos na comunhão com o Senhor por meio da oração, da liturgia, da escuta da Palavra, da prática da caridade ou da ação evangelizadora, mais sentimos a felicidade de ser cristãos.

A dureza de coração, de que falava o Evangelho, que leva a ver dificuldades e problemas em tudo, impedia os fariseus e impede os cristãos de saborear a bondade dos dons de Deus e a beleza da vida que nos propõe, mesmo que repassadas dos sinais da cruz.

As criancinhas e os que são como elas, de coração afável e bom, dizia ainda o Evangelho, compreendem melhor as doçuras do coração de Deus, acolhem o Seu Reino e entram alegremente nele.

Confiados na atitude de Jesus, que “experimentou a morte em proveito de todos”, como afirmava a Epístola aos Hebreus, mas foi elevado à glória e elevou muitos consigo, acolhamos os dons de Deus que vão passar por nós no Ano da Fé. Não os deixemos passar em vão, mas façamos deles oportunidades privilegiadas para a realização do plano salvífico universal de Deus.

 

Convido-vos, caríssimos irmãos, a consagrar o Ano da Fé a Nossa Senhora, a Mulher feliz por ter acreditado na Palavra do Senhor. Confiemos-lhe a nossa Diocese, as nossas paróquias e todas as ações que iremos realizar, a fim de que sejam colaboração na obra de Deus, para que o mundo creia e seja salvo. Ámen.

 

Coimbra, 7 de outubro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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