XXXI DOMINGO COMUM C - ENCONTRO NACIONAL DAS EQUIPAS DE NOSSA SENHORA - IGREJA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

“Vós amais tudo o que existe”.

Depois da fé em Deus, a maior certeza do crente é a de que Ele ama tudo o que existe, e acima de que nos ama a nós, à humanidade acima de tudo. Quando se chega a esta certeza podemos de verdade considerar-nos pessoas de fé, homens e mulheres crentes e cristãos, pois tudo o resto brota desta convicção revelada por Jesus Cristo.

Como criaturas que somos, precisamos de mediações terrenas para chegar à fé. Entre elas, situa-se a mediação familiar, lugar de experiência do amor humano, que é sempre imagem e semelhança do amor divino. Vem depois a mediação do amor mútuo, vivido nos diversos tipos de relações constitutivas da nossa existência e condição essencial para que experimentemos a nossa grandeza aos olhos dos outros e aos olhos de Deus.

Sofremos hoje de uma enorme carência de amor. Falta a muitos a possibilidade de sentir o amor dos outros, por nos termos tornado uma humanidade fria, individualista e egoísta, frequentemente dominada por desejos e lutas desumanas. A própria realidade familiar, por natureza lugar de experiência de um amor como dom de si, como abertura ao bem comum, escasseia na cultura que nos envolve.

Como abrir caminho à fé num Deus bondade e amor, a tantos homens e mulheres que não têm acesso franco e quotidiano a essa experiência nas relações humanas e familiares? Como acreditar num Deus que ama tudo o que existe sem esse maravilhoso conhecimento da bondade e do amor dos outros e sem conhecer a oferta de nós mesmos em sacrifício e doação em favor dos outros?

O amor matrimonial, o amor dos esposos, vivido sob a bênção do Deus Criador e Redentor, imagem mais perfeita do amor de Deus, é caminho imprescindível para se chegar à fé.

 

O texto do Evangelho, a narração da entrada de Jesus em Jericó e do seu encontro com Zaqueu, ajuda-nos a compreender o poder do olhar amoroso de Deus como olhar que transforma o nosso coração e nos faz ver a realidade com outros olhos.

Jesus olhou para cima e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa”. A resposta foi imediata: ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Aquele olhar forte de misericórdia, aquela relação experimentada no momento foi decisiva para uma mudança radical de vida. Percebeu que precisava de descer de si mesmo para se situar ao nível de Deus e ao nível dos outros, pois Jesus, Deus e Homem foi o primeiro a descer para se encontrar com ele, a pôr-se ao seu nível, a dar passos para o encontrar como próximo e como irmão.

“Hoje entrou a salvação nesta casa”, concluiu Jesus depois o ter ouvido falar da mudança de atitude que nele aconteceu: “vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais”. De um homem pequeno, centrado em si mesmo, incapaz de ver mais longe, acabrunhado pela eu egoísmo e avidez sem escrúpulos, reencontramos um homem que se deixa tocar pela graça do Senhor, inicia um caminho de conversão e muda de vida.

Diante deste acontecimento salvífico narrado pelo Evangelho todos podemos voltar a situar-nos na nossa condição de homens muito pequenos, quando fechados a Deus e aos outros. Reconhecemos que o Senhor olha para nós nas mais variadas situações da vida, desce para vir ao nosso encontro, diz-nos que deve ficar em nossa casa e oferece-nos as possibilidades infinitas de mudança de atitude e de vida com uma simples palavra e um simples olhar de amor e misericórdia.

Se permitirmos que entre em nossa casa, ou seja, na nossa intimidade mais profunda, onde se decide o que somos e sentimos, permanecemos n’Ele e Ele em nós. Esse é a novidade do cristão: morar com Cristo e permitir que Ele more consigo num encontro pessoal e amoroso intenso como só a Deus é possível.

 

A vocação dos esposos cristãos consiste, acima de tudo, em viver esta relação de amor existente entre Cristo e cada pessoa que O acolhe no seu coração, na sua intimidade, na sua casa, na sua vida.

A vocação dos esposos consiste, ao mesmo tempo, em testemunhar por meio de uma atitude de vida aberta ao dom recebido e comunicado, a força dessa relação humana, imagem da relação divina.

A abertura à vida nascente, a relação com os filhos, a atenção aos outros são alguns dos mais evidentes sinais do acolhimento de Jesus na sua casa e na sua família como elo essencial da comunhão matrimonial.

Que a vossa vida de casais cristãos, alicerçados no sacramento do matrimónio, esteja sempre sob o olhar amoroso de Jesus, que vos pede para descerdes, pois quer ficar em vossa casa. Descei e abri-lhe as portas para que transforme o vosso coração e a vossa família, vos converta e vos salve. Como famílias cristãs, autênticas Igrejas Domésticas unidas na comunhão, tornar-vos-eis, com a única Igreja de Cristo, sacramento da salvação de Deus.

A Nossa Senhora de Fátima confiamos o vosso amor para que o guarde e as vossas famílias para que as proteja e faça delas caminho de fé e de encontro com Cristo, que veio procurar e salvar o que estava perdido.

 

Santuário de Fátima, 3 de novembro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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