Abertura do Jubileu de Santo António e dos Protomártires Franciscanos :: Homilia de Dom Virgílio

FESTA DO BATISMO DO SENHOR
ABERTURA DO JUBILEU DE SANTO ANTÓNIO E DOS PROTOMÁRTIRES FRANCISCANOS
IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA - 2020.01.12

Caríssimos irmãos e irmãs!

Eis o ano jubilar de Santo António e dos Protomártires Franciscanos, um ano que enche de alegria a nossa comunidade diocesana. Esperamos que seja um verdadeiro tempo de graça, que nos leve a entrar pela porta de uma fé descoberta e aprofundada, como contributo para uma vida pessoal e comunitária mais evangélica e cristã.

Aquele mesmo Jesus Cristo que seduziu os Primeiros Mártires Franciscanos e os levou a segui-l’O até à oferta total das suas vidas pelo anúncio do Evangelho, continua a propor-nos uma vida com sentido e a oferecer-nos a proposta de entrar por Ele, a porta da esperança e da salvação. Aquele mesmo Senhor que entrou no coração de Santo António e o conduziu à radicalidade da fé, continua a mostrar-nos que a vida só se ganha quando se perde no amor aos irmãos por quem deu a Sua vida.

Aos cristãos, este ano jubilar incentiva a porem-se no caminho da conversão, para que o batismo seja uma realidade assumida com fé e entusiasmo; aos buscadores de Deus, este ano jubilar revela a grandeza do dom de Deus, que faz dos fracos pessoas fortes e faz dos pobres testemunhas do amor eterno de Deus no meio do mundo, quando alimentados pela Palavra e pelo Espírito. A todos, este ano jubilar mostra a força transformadora do mundo, que habita em nós quando, movidos por ideais grandes e nobres, nos entregamos às causas maiores, focados no bem dos outros, na paz e na justiça, na liberdade e no respeito pela dignidade humana.

Estamos muito gratos a Santo António e aos Mártires de Marrocos por nos permitirem vislumbrar um modo de acreditar e de viver que os enredos interiores ou exteriores nos podem vedar à vista e ao coração. Que o seu testemunho de santos e de mártires não somente nos convença e seduza, mas também nos arraste na senda da afinação dos nossos caminhos, valores, opções de vida e motivações, tanto humanas como religiosas e espirituais.

Estamos a celebrar a Festa do Batismo do Senhor e a reviver o momento em que Ele nos apresenta de forma clara a sua identidade de Filho amado de Deus, mas também a sua vocação e a sua missão. Pela mão de João Batista, o Filho de Deus entra nas águas e sai delas cheio do Espírito Santo, que O conduz na fidelidade total à vontade do Pai, como escutámos no texto do Evangelho de S. Mateus.

A missão de Jesus era especificada na Segunda Leitura: passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os oprimidos. Ao dar a mão a todos os que encontra pelo seu caminho, Jesus cumpre a vontade do Pai, que quer felizes e salvos todos aqueles que criou. É a via da caridade ou do amor, da solidariedade e da comunhão, que tem em conta a pessoa integral, com as suas alegrias e esperanças, mas também com as suas debilidades e dores. Desse modo, Jesus cumpre a profecia de Isaías, na qual Deus promete o envio do Seu Servo, Aquele que, cheio do Seu espírito, levará justiça às nações, será mensageiro de luz e de esperança para todos, conduzirá os povos pela mão e aproximá-los-á para que se encontrem e estabeleçam uma aliança de paz.

Em todos os tempos e lugares da história, a humanidade sonha com um mundo diferente daquele em que vive, deseja edificar uma sociedade mais justa e mais fraterna para todos, anseia por uma paz e uma esperança que não excluam ninguém. A grande questão continua, porém, sempre de pé: quais os caminhos a percorrer para que este sonho profético inscrito no coração de todos os homens e mulheres se realize?

A pessoa de Jesus Cristo e a luz que irradia da sua mensagem e da sua atitude de vida sintetizam a resposta: os céus abriram-se, o Espírito de Deus desceu sobre Ele, e Ele passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo demónio.

Para além das ideias, projetos, negociações e manifestações de boa vontade, sempre necessários, a Pessoa e Mensagem de Jesus oferecem-nos uma luz que tem de estar antes de tudo e para além de tudo: a caridade do Deus Criador, comunicada a toda a humanidade criada, para que a acolha, a partilhe e faça dela a luz da sua vida.

A santidade, que pode ir até ao martírio, consiste precisamente em acolher a caridade do Deus Criador como fundamento de toda a existência e em partilhá-la em gestos de justiça e de paz com os irmãos.

O batismo do Senhor, que hoje evocamos, e o batismo que nós próprios celebrámos, introduz-nos neste dinamismo da caridade de Deus, que nos impele a passar pelo mundo fazendo o bem, a ser uma mão aberta e estendida a todos, a realizar o sonho da humanidade, que é o sonho de Deus.

O Jubileu que hoje iniciamos oferece-nos a graça necessária para, livremente, entrarmos pela via da  conversão pessoal, neste sonho da humanidade, que é o sonho de Deus, e darmos o nosso contributo para a renovação da comunidade que sente a urgência de se refazer na verdade e na caridade. O jubileu é uma feliz proposta de santidade de vida como o ideal e a meta do cristão, vendo à frente Jesus Cristo, o Santo de Deus, e acompanhados pelo testemunho dos santos e dos mártires de todos os tempos e, este ano, focados especialmente no testemunho de Santo António e dos Mártires de Marrocos.

Além dos desafios feitos à comunidade cristã, que alegremente celebra este jubileu, gostaria de deixar dois outros, dirigidos a toda a nossa comunidade.

Santo António, homem, português, sábio e doutor da Igreja, santo, é uma figura que, pela sua grandeza e estatura moral, tem força para unir pessoas, instituições, perspetivas, diversidade cultural, no projeto comum de construir uma sociedade onde todos se sintam membros de pleno direito, acolhidos e dignos. Face à dificuldade de encontrar ideais comuns e mobilizadores no sentido da procura do bem comum, Santo António, que faz parte das nossas raízes culturais e espirituais, tem uma mensagem a comunica uma luz que deve acender-se em nós e criar a unidade necessária como um desígnio a alcançar.

A Santo António pedimos que nos inspire a edificar uma cidade e um mundo de desenvolvimento, de progresso, fundados na santidade de vida e na conversão do coração ao amor a Deus e à humanidade.

Os Mártires de Marrocos, para além da grandeza da sua vida, da sua fé e do seu entusiasmo pelo anúncio do Evangelho, são o sinal vivo da ânsia de diálogo e de respeito pela dignidade de toda a família humana, um sinal da paz possível entre os homens.

Pedimos-lhe a graça de intercederem junto de Deus para que sejamos capazes de construir uma cidade e um mundo de paz, alicerçada nos valores humanos, na liberdade religiosa, no intercâmbio cultural e na fraternidade universal. Que eles nos inspirem a estar juntos no serviço à vida, à harmonia da natureza, à felicidade da pessoa humana, para maior bem dos homens e maior glória de Deus.

Desejo a todos, crianças, jovens e adultos, aqui presentes ou que vão passar em celebração festiva por esta Igreja de Santa Cruz, pela Igreja de Santo António dos Olivais ou pela Igreja dos Mártires de Marrocos, um feliz e santo jubileu.

Coimbra, 12 de janeiro de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra