Aniversário da Batalha do Buçaco - Homilia de Dom Virgílio

ANIVERSÁRIO DA BATALHA DO BUÇACO - 2019

MISSA DA MEMÓRIA D S. VICENTE DE PAULO

Caríssimos irmãos e irmãs!

Estamos a celebrar o aniversário da Batalha do Buçaco, um episódio triste da história da humanidade. Juntamente com tantos outros acontecimentos similares ou diferentes é sinal da desordem existente no mundo quando falta o amor e o respeito pelos outros, pessoas ou instituições, ideias ou valores, quando falta o respeito pela natureza, quando falta o respeito por Deus.

A coincidência deste dia com a memória de S. Vivente de Paulo, um homem e um cristão que deu a sua vida na prática das obras de misericórdia e na ação concreta em favor do seu próximo, concretamente, dos mais pobres, levanta a bandeira da caridade como atitude fundamental que nos define enquanto pessoas.

Na fidelidade à sua humanidade e à sua fé cristã, seguindo os apelos da sua consciência e do Evangelho de Jesus, compreendeu que a única via para construir uma sociedade em que todos tenham um lugar é avia do amor.

Saiu do círculo vicioso da preservação dos seus direitos e privilégios para se ocupar dos outros, de cada pessoa, daqueles que não tinham nada nem ninguém que os socorresse e precisavam de mãos e corações abertos para os fazer sentir-se amados e queridos por alguém.

Nas ruas da grande cidade povoadas por homens e mulheres deserdados, vítimas de si mesmos ou dos outros, levou uma centelha de luz e de esperança com a generosidade das suas mãos e o calor do seu coração.

As obras de caridade foram as suas armas e a caridade foi o seu cartão de identidade. Acolheu com realismo a grande máxima do Apóstolo, “Deus é caridade” e incarnou-a na sua vida, mostrando a todos que, afinal, a “Humanidade também é caridade” ou acaba por não ser nada.

Em vez de pregar com palavras a misericórdia como um imperativo da razão ou da consciência, optou por mostrar Deus como rico de misericórdia e a humanidade como vocacionada a ser imagem de Deus, precisamente pela misericórdia, que é a coroa da justiça.

Segundo o texto do Evangelho, Jesus, ao ver as multidões, encheu-se de compaixão por elas porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.

Não é difícil, mesmo para quem tem a tendência para o otimismo, descortinar no horizonte as fadigas e sinais de abatimento interior das pessoas bem como os efeitos da desorientação das sociedades e dos povos. Felizmente também temos a possibilidade de ler os sinais dos tempos e de descobrir as portas de esperança que sempre se nos abrem. O nosso tempo é pródigo na oferta de sintomas de uma luta entre bem e mal, justiça e exploração, continua a ser lugar de confronto entre a guerra e a paz, o amor e o ódio.

É preciso e é urgente termos a lucidez para escolher, ancorados numa consciência reta, numa sabedoria que está inscrita na nossa condição humana, vocacionada para  a liberdade. Esta não existe se não está vinculada ao respeito pela igual dignidade de todos ou, como dizia a Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, à sabedoria de Deus, que é justiça, santidade e redenção.

Este lugar de silêncio e de contemplação em que nos encontramos pode ser símbolo da paz que desejamos para todos e que estamos dispostos a construir. A sociedade que formamos precisa de sinais dessa paz e o planeta em que habitamos não tolera mais o som ruidoso da guerra entre os irmãos, nem os gritos de horror que tem ouvido ao longo dos séculos.

O convento do Buçaco, lugar de habitação dos homens, a natureza que o envolve, sinal da grandeza do Criador e a espiritualidade do amor e da fraternidade universal aqui pregadas, levantam-se sempre de novo como baluartes de um paraíso desejado, mas constantemente ameaçado pelo vírus da desorientação das mentes e dos corações.

A seara de que fala o Evangelho e que é o mundo que nós somos, precisa de trabalhadores, homens e mulheres disponíveis para darem o primeiro passo, para irem e se olharem nos olhos como irmãos, para se curvarem humildemente uns diante dos outros a fim de curarem todas as suas doenças e enfermidades. A seara que é o mundo será construção de todos, povos e nações, todos pequenos irmãos diante da grandeza de Deus que é tudo e diante do qual nenhuma criatura se pode gloriar, pois é o único a quem pertence toda a honra e toda a glória, porque é amor.

Este lugar do Buçaco encerra em toda a sua história um forte apelo àquilo a que o Papa Francisco, na Carta Encíclica Laudato Síi, chamou a ecologia integral. Já a Bula do papa Urbano VIII decretando a plantação de árvores e a proibição de as abater neste lugar, neste “monte santo”, se fazia eco do respeito pela natureza, sinal do respeito reverencial pelo Deus Criador e pela humanidade, que tem o direito a ser feliz nesta casa comum.

O papa Francisco, referindo-se a S. Francisco de Assis diz que “Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (LS 10).

Trata-se de um tema de extrema atualidade, não só porque o planeta em que habitamos corre sérios riscos de degradação, mas sobretudo porque a pessoa é esquecida e fica frequentemente refém dos interesses desmedidos, da cobiça, dos mecanismos económico-financeiros que matam e dos ferozes atropelos à sua dignidade humana. Também hoje se põe-se em causa a paz pessoal, a paz social, a paz com a natureza e a paz com Deus; também hoje se minam os fundamentos do bem estar pessoal e comunitário, material e espiritual.

Que a nossa celebração seja um hino de gratidão a Deus pelo seu amor à humanidade que criou e redimiu, um hino de gratidão por todos os que acolhem com alegria a missão de ser construtores da paz.

Buçaco, 27 de setembro de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra