Celebração da Paixão do Senhor 2020 - Homilia de Dom Virgílio

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR – 2020

Caríssimos irmãos e irmãs!

O nosso tempo nunca conheceu uma Sexta-feira santa como a que estamos agora a passar. Muitos dos que agora vivem já tiveram momentos difíceis, já passaram por muitos dramas locais ou regionais, mas sempre localizados, com uma escala maior ou menor conforme as circunstâncias, mas nunca à escala universal como agora.

A Sexta-feira santa de Jesus abraçou todas as sextas-feiras da história da humanidade. Ele situa-se no centro do tempo, abraça a humanidade que está antes e aquela que vem depois, num abraço divino que contempla toda a história, para o qual tudo é presente.

Se cada um de nós sente e vê as coisas boas e más situado no pequeno mundo de espaço, de tempo e de relações que lhe é dado conhecer, Jesus, o Verbo de Deus feito Homem, eterno como o Pai e o Espírito vê com o olhar de Deus. Na Sua paixão, assume as dores de toda a humanidade, sem que ninguém fique de fora, pois a a oferta da redenção é para todos os que se disponham a acolhê-la.

A narração da Paixão de Jesus faz-nos entrar no drama da história de toda a humanidade, a ultrapassar a questão meramente pessoal, familiar ou local. Nela todos estão contemplados e todos têm lugar, pois, por muito pródiga e boa que seja a vida, ela é sempre portadora de sinais de sofrimento e de morte, que clamam por felicidade e salvação.

A Sexta-feira Santa de Jesus congrega também em si os sinais do mal que germina no coração das pessoas e que pode transformar-se em pecado, com graves consequências para a mesma humanidade, pois, o pecado conduz à desordem, à ruína e à morte.

Jesus conhece a condição da humanidade criada para ser livre e responsável, para edificar o mundo na paz e na justiça, no respeito por Deus e no amor ao próximo. Mas conhece também a maldade que pode crescer e dominar a pessoa, o grupo ou a sociedade. As manifestações do mal incarnado nos pensamentos, palavras, decisões e ações das pessoas são uma evidência e conhecem-se os seus frutos nefastos, que dariam uma lista infindável, cujo conteúdo conhecemos.

Nas nossas afirmações de fé referimos frequentemente esta certeza de que Jesus, pela Sua paixão, nos oferece a possibilidade de nos libertar do pecado. De facto, Ele carregou com os pecados de toda a humanidade sobre os seus ombros, para que mais ninguém seja vítima das consequências do pecado dos outros e para que ninguém faça dos outros vítima do seu pecado.

O  desafio da Sexta-feira Santa continua a ser este: rejeitar o pecado que prejudica a humanidade e ofende a Deus, para acolher a graça de uma vida justa e digna que favoreça a humanidade e preste honra e louvor a Deus. Acompanhar Jesus que carrega a cruz dos nossos pecados e dos pecados do mundo, conduz-nos a desejar levar a nossa própria cruz e a dos nossos irmãos para que todos troquemos o pecado que destrói pelo amor que edifica.

O desafio de Sexta-feira Santa é também o de pararmos um pouco, o de fazermos um silêncio ativo, que nos leve a conhecer o que se passa no nosso coração, nas nossas intenções, motivações e ações. O pecado ainda existe no mundo e não é somente uma mancha na alma imaculada; ele é uma mancha na alma, no corpo, no rosto próprio e dos outros; ele é uma enorme mancha nas instituições, nos sistemas económicos e políticos; ele é uma mancha nas relações entre as pessoas e dentro das famílias...

Podemos continuar a  ignorar o pecado e a viver como se ele não existisse, com todas as consequências que daí advêm para toda a comunidade, ou podemos, olhando para Cristo na cruz, decidir encarar a realidade de frente e empreender o caminho da conversão.

A celebração da Paixão de Cristo não pretende levar-nos a ficar interiormente deprimidos, mas é sempre portadora da graça de fazer renascer em nós a esperança, mesmo no meio das maiores contrariedades e tribulações.

Cristo venceu a cruz com o amor; nós unidos a Ele venceremos a cruz com o amor. Esta é a condição para que renasça a esperança em cada um de nós e na comunidade humana.

A situação que estamos a viver tem também lugar na cruz de Cristo, não porque seja fruto do pecado de alguém, mas porque, como calamidade natural, afeta o corpo e o espírito da humanidade, causa sofrimento e morte entre aqueles que desejam felicidade e vida.

O amor é a chave única para fazer renascer a esperança em qualquer situação dramática da história da humanidade e também em tempo de pandemia. É essa a lição de Jesus crucificado. E esse amor já está no ar em tantas iniciativas e atitudes novas como são: a investigação científica, o cuidado com a proteção contra a infecção, o sacrifício dos profissionais no campo da saúde e do acompanhamento dos idosos, a consolidação das famílias para ultrapassar as dificuldades diárias, a solidariedade material, a oração pelos que sofrem, o cuidado pastoral e espiritual.

No fundo, todos sonhamos com um mundo muito diferente daquele que temos vindo a construir; sonhamos com um mundo em que nos sintamos irmãos a partilhar as mesmas alegrias e a sofrer com as mesmas dores; sonhamos com um mundo que não perde a esperança, porque se alicerça no amor.

Obrigado, Senhor, por nos mostrares que a cruz vivida no amor é fonte de esperança e caminho de salvação para a humanidade.

Coimbra, 10 de abril de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra