Dedicação Igreja Catedral - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DA DEDICAÇÃO DA CATEDRAL DE COIMBRA

SÉ VELHA – 2018.11.16

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

A Solenidade da Dedicação da Catedral convida-nos a repor o olhar de fé em Jesus Cristo, a pedra angular, o Messias e Filho de Deus, que torna feliz Simão Pedro, os Apóstolos e os discípulos de todos os tempos.

As pedras vivas que nós somos pelo batismo encontram o seu lugar harmonioso na construção quando estão em comunhão com Pedro e participam da vida inesgotável do Senhor Jesus Cristo.

“Feliz de ti, Simão, porque não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim Meu Pai que está nos Céus”. Em primeiro lugar, estamos diante da certeza de que quem conhece Jesus é uma pessoa feliz, pois tem acesso ao conhecimento do maior mistério, inacessível ao esforço humano, mas revelado pelo Pai. Em segundo lugar, convida-nos a compreender que conhecer Jesus Cristo não significa somente ser sabedor da sua identidade, mas inclui sempre viver em intimidade com Ele, pois a sua verdadeira identidade encontra-se na relação pessoal, que leva a entregar-lhe a própria vida, com base na confiança.

A ação pastoral da Igreja precisa de retirar constantemente daqui algumas ilações: ela tem como finalidade dar a conhecer Jesus Cristo como o Messias e Filho de Deus; a sua metodologia tem de incluir sempre o dinamismo do seguimento na condição de discípulos, que aceitam viver numa relação de confiança com Ele, o meio indispensável para a revelação da Sua verdadeira identidade; a comunidade cristã ou Igreja é o lugar onde esta relação se dá, o contexto em que se vive a confiança n’Ele e a escola em que Ele se conhece plenamente.

A nossa Igreja Diocesana quer aprofundar cada vez mais a sua disponibilidade para acolher e propor uma renovada ação pastoral. Para além da celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, a catequese de estilo catecumenal dirigida a todas as faixas etárias - adultos, jovens e crianças –, precisamos de lançar mãos dos métodos e meios cheios de criatividade e novidade que o Espírito Santo continua a oferecer-nos e que se manifestam adequados para o nosso tempo.

Na reflexão que fazemos nos órgãos de participação e comunhão a nível diocesano, nos arciprestados, nas unidades pastorais ou nas paróquias, havemos de ter sempre uma pergunta central: está a nossa ação pastoral orientada para o conhecimento de Jesus Cristo, que se alcança pela relação íntima e pessoal com Ele, no contexto da Igreja, Seu Corpo e Seu Povo Santo? Não haverá ainda costumes e tradições pagãs no seio das comunidades cristãs que, em vez de aproximar de Cristo e da Igreja, criam obstáculos à fé e à vida no Espírito?

“Aproximai-vos do Senhor” era a palavra forte da Segunda Leitura e é palavra de ordem do nosso Plano Pastoral Diocesano. De facto, aproxima-se quem já foi iniciado no conhecimento do Senhor ao entrar pela porta da fé, quem já confia n’Ele como o Senhor da Sua vida. Quanto mais O conhece na intimidade pessoal e na comunhão eclesial mais se aproxima e, por sua vez, quanto mais se aproxima mais O conhece e mais se deixa envolver na missão de O dar a conhecer aos outros.

Outro grande desafio desta Solenidade da Dedicação da Catedral é a renovação da vida da Igreja Diocesana.

A Primeira Leitura usava a linguagem profética das águas que saem debaixo do limiar da portas do templo e tornam vivo, fresco e verdejante todo o lugar por onde passam. Assim é a força da graça que vem de Deus e chega a nós por meio da sua Igreja, o Templo Vivo e Santo, que se deixa renovar e é força de renovação dos fiéis e de toda a humanidade.

A Igreja sofre frequentemente com muitos sintomas de velhice e de morte, que podem ter muitos nomes: infidelidade ao Evangelho, desânimo diante das dificuldades, espírito mundano nas suas opções, confiança desmedida na sua humanidade, falta de acolhimento da graça do Espírito Santo, muita ação e pouca oração, muitas palavras humanas e pouca Palavra de Deus.

A renovação que nos é proposta é a que vem de Deus, fonte da Vida, que nos transforma pessoalmente e fortalece as comunidades cristãs por meio do Evangelho. O caminho é o da conversão pessoal a Cristo, que se conhece e se ama, o da conversão à Igreja, que se edifica com muita disponibilidade e dedicação. No fundo, a renovação que se espera é a que nasce da santidade pessoal e comunitária, na certeza de que é o Espírito Santo quem nos santifica, faz Deus entrar em nós e nos permite entrar no coração e na vida de Deus.

Se queremos realizar a missão de evangelizar, havemos de deixar entrar em nós o Deus da vida para levar ao mundo os sinais da vida de Deus. Não o podemos fazer sem a alegria de viver n’Ele, sem nos deixarmos transformar por Ele, sem aceitarmos todas as consequências desta graça que foi derramada nos nossos corações. Hoje, mais do que noutras épocas da história, voltamos à situação de viver a alegria da fé no meio de muitas contrariedades, que nos fazem sentir de forma mais clara o que significa a afirmação do Apóstolo, pois, com Cristo, temos por vocação ser pedras vivas rejeitadas pelos homens, mas escolhidas e preciosas aos olhos de Deus.

Temos ainda hoje a oportunidade de agradecer a Deus o dom das vocações sacerdotais e, concretamente, a alegria de instituir no ministério dos leitores um dos nossos candidatos ao sacerdócio ministerial.

A vocação sacerdotal é um dos maiores sinais da graça de Deus concedida à sua Igreja, para que, por meio do anúncio da Palavra e da celebração da Eucaristia, se renove na santidade e seja no meio do mundo sacramento da salvação.

Continuaremos a rezar pela santificação da nossa Diocese e a conduzir a sua ação pastoral no sentido de proporcionar a muitos a possibilidade de se encontrarem com Cristo, de O conhecerem na intimidade, de confiarem n’Ele e de se tornarem pedras vivas desta construção, que é a Sua Igreja.

Confiamos a Nossa Senhora, Santa Maria de Coimbra, esta nossa Igreja Diocesana e pedimos que nos acompanhe nos caminhos da santificação pessoal e comunitária, que nos farão experimentar a novidade de Jesus Cristo, a fonte da água viva.

Coimbra, 16 de novembro de 2018
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra