Dia de Páscoa 2019 - Homilia de Dom Virgílio

MISSA DO DIA DE PÁSCOA 2019
SÉ NOVA – COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Chegamos às festas pascais desejosos de ouvir o anúncio de Jesus Ressuscitado, vencedor do pecado e da morte, pois os acontecimentos que povoam o mundo de perto e de longe trazem-nos muitos sinais de morte. Dizermos uns aos outros: Cristo ressuscitou ou feliz e santa Páscoa, é uma palavra de ânimo e de esperança no meio de muitos motivos para o desânimo.

Os discípulos de Jesus experimentaram em primeira pessoa o que é o desânimo, a perseguição e a falta de esperança. Também tiveram a graça de conhecer em primeira mão o que significa acreditar na ressurreição de Jesus. Nós, pelo facto de terem já passado dois mil anos e de termos recebido a notícia à distância temporal e por meio de muitas gerações, sentimos que ela perdeu o impacto inicial.

Além das Sagradas Escrituras que nos narram o modo como os acontecimentos da Páscoa foram vividos e sentidos pelos apóstolos e discípulos de Jesus, temos a possibilidade do encontro com esses mesmos acontecimentos por meio da celebração da liturgia, que faz memorial da morte e da ressurreição de Jesus.

Esperamos ainda poder contar com a alegria vivida e expressada pelos crentes, pois ela é sinal do impacto que, a partir da fé, sentem e torna-se um testemunho ímpar da força do acontecimento pascal ao longo de todos os tempos da história.

Esta Páscoa fica marcada por muitos acontecimentos de alcance global. Deles refiro o incêndio da Catedral de Notre-Dame e o atentado contra as igrejas cristãs no Sri Lanka, que fez dezenas de mortos.

Dois acontecimentos muito diferentes, tanto em si mesmos como nas causas que os produziram. O primeiro, provavelmente fruto de um acidente casual, destruiu um lugar profundamente significativo para a fé cristã e para a Igreja de Deus, que é, ao mesmo tempo, um património cultural de elevadíssimo valor, pois representa o que de melhor se fez no Ocidente cristão do ponto de vista arquitectónico e artístico. Causa, no entanto, alguma estranheza ouvir os que procuram erradicar os valores cristãos e a tradição religiosa do Ocidente a proclamar a Catedral como o símbolo da Europa. Será, porventura, o símbolo duma Europa rejeitada, de valores que paulatinamente se vão substituindo por ideologias de última hora.

Notre-Dame é, de facto, um grande símbolo da Europa, porque ela nasceu e cresceu alicerçada na fé cristã, nos valores humanos inscritos na matriz de cada pessoa e elevados pelo Evangelho. É o símbolo de uma arquitetura, pintura, escultura, música e muitas outras artes que nasceram num contexto muito concreto e que se assumem ao serviço da expressão da fé, do interior gozo humano de contemplar a criação e o Seu Criador.

Esperamos a sua rápida reconstrução, mas mais ainda desejamos ver ressuscitar tudo aquilo que ela significa e simboliza para uma Europa marcada por muitos sinais de morte espiritual, cultural e humana. Em tempo de Páscoa, gostamos de pensar que a notícia de reedificação do templo do corpo de Jesus ao terceiro dia, conforme referia a profecia, continua a ser sinal da profecia sempre presente na história da fé cristã: o Evangelho de Jesus pode entrar em todas as culturas e em todos os tempos, mesmo na Europa que persiste em descartar-se dele.

Os atentados contra os cristãos no Sri Lanka e em tantas outras partes do Oriente juntamente com muita vandalização de igrejas no Ocidente e outros variados incidentes com motivação religiosa, fazem-nos pensar nos primeiros tempos da vida da Igreja e de profissão da fé cristã.

É  preciso passar por muitas provações, vindas de fora e que nascem de dentro, e elas aí estão bem patentes, mas fica-nos sempre a certeza de que o amor de Deus nunca se apartará de nós. Podem morrer fisicamente cristãos em muitas partes do mundo, podem ser aniquilados psicologicamente, podem até ser alvo fácil de acusação nas lutas éticas ou quando se procuram as raízes dos males que povoam a atualidade, mas ninguém nos pode roubar a esperança que, pela morte e ressurreição de Seu Filho, Deus depositou nos nossos corações.

Ao tomarmos conhecimento destes acontecimentos trágicos que marcam a família cristã onde se mata o corpo, longe de nós, e de muitos outros acontecimentos destinados a matar o espírito, bem perto de nós, compreendemos melhor o alcance da Páscoa, pois sentimo-la na nossa própria pele, na pele da comunidade dos discípulos de Jesus.

A morte de alguém pelo simples facto de se afirmar como filho de Deus, por professar a fé cristã, por pertencer a uma religião, aproxima-nos muito de Jesus, d’Aquele que foi condenado à morte por se afirmar Filho de Deus. Também nos aproxima da sua Páscoa, pois Deus não deixará sob o poder da morte nenhum daqueles que redimiu pelo preciosos sangue de Seu Filho.

Nesta Páscoa sentimos de modo novo o que significa anunciar que Cristo ressuscitou e venceu o pecado e a morte, porque a sentimos tocar a nossa família humana e a nossa família espiritual, tanto no corpo como no espírito. Cala, por isso, mais fundo a proclamação do Evangelho: “Não está aqui: ressuscitou.” Sente-se mais ardor quando se ora: “Fica connosco, Senhor, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”.

Respondendo ao apelo da segunda leitura, celebremos a festa da Páscoa do Senhor e peçamos-lhe a graça da pureza e da verdade.

Qua luz do Ressuscitado ilumine as trevas do nosso coração e do nosso mundo e que nada nos separe do amor de Deus.

Que esta Páscoa seja ocasião para reconstruirmos as igrejas e o templo de Cristo vivo nos nossos corações, na nossa família e na nossa comunidade.

Coimbra, 21 de abril de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra