Festa de Nossa Senhora de Fátima - Homilia de Dom Virgílio na Catedral de Colonia

VII DOMINGO DA PÁSCOA

FESTA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

CATEDRAL DE COLÓNIA – COMUNIDADE PORTUGUESA

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Estamos reunidos para celebrar a festa da nossa fé, como é sempre a celebração do domingo, o dia da ressurreição do Senhor. Hoje juntamos a alegria da reunião da Igreja com Maria entre nós, por ser o dia 13 de maio, uma data especialmente assinalável entre nós, católicos de língua portuguesa, prediletos filhos de Maria e devotos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Além de recordarmos as aparições de Nossa Senhora em Fátima, que trouxe ao mundo uma mensagem de graça e misericórdia, não podemos esquecer os densos momentos de peregrinação do Papa Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco àquele lugar de tão grande significado para toda a Igreja. Com os Papas peregrinos, sentimo-nos em sintonia com a Igreja Universal, que procura acolher de forma renovada os apelos do Evangelho repropostos pela Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

Quando há um ano atrás o Papa Francisco repetiu, no Centenário das Aparições de Nossa Senhora, de forma sonora e solene: “Temos Mãe”, sentimo-nos mais amados e queridos por Deus que nos deu uma Mãe, sentimo-nos mais protegidos e abençoados, pois à força da misericórdia de Deus, ele nos assegurou a presença ímpar da Sua Mãe.

Vimos, hoje, a este lugar, para manifestar que acolhemos o Evangelho da graça e da misericórdia de Deus, que sempre se manifesta por meio da presença carinhosa de Sua Mãe. Dá-nos sempre muita paz interior ouvir as palavras de Jesus no Evangelho, quando disse aos seus discípulos: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos!” Tranquiliza-nos muito, no meio das alegrias e dores da vida, deixar ecoar aos nossos ouvidos as palavras dirigidas por Nossa Senhora aos três Pastorinhos: “Ides, pois, ter muito que sofrer, mas o meu Coração Imaculado será sempre o vosso refúgio”.

Ao longo da vida, o Senhor nunca nos deixou sós; e Maria, a quem o Senhor também nunca deixou só, ajuda-nos a conhecer e sentir essa presença por meio da sua condição de Mulher e de Mãe. A primeira, a de Jesus, é a presença salvadora e divina em nós a partir do batismo que recebemos; a segunda, a da Virgem Maria, é uma companhia humana, mas a daquela que a todos os títulos é bem-aventurada e a eleita de Deus.

O Evangelho que escutámos trouxe-nos uma palavra que gostaria de acentuar: “Pai santo, guarda-os em teu nome”. Esta é a palavra de Deus que pode ficar, hoje, no nosso ouvido e no nosso coração, porque exprime o maior desejo de Jesus: que permaneçamos no seu nome, que guardemos a fé. Mais adiante Jesus acrescenta: “para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria”. O mesmo é dizer, para que todos nós sejamos felizes na fé que recebemos e que guardamos.

Há muitas coisas que achamos importantes na vida: a família, o trabalho, a união, a amizade, a saúde... Nem sempre pensamos na fé no nome de Jesus como algo de essencial na nossa vida; por vezes até a esquecemos, quando não a desprezamos.

Quando pensamos na herança que os pais deixam aos filhos, durante a vida ou mesmo na morte, pensamos em muitas coisas, desde os cursos, as possibilidades económicas, os empregos, as boas memórias ou as saudades. Nem sempre incluímos esse bem mais precioso que dá sentido, alegria e felicidade a tudo: a fé no Filho de Deus, a fé na sua Igreja.

Todos nós, cristãos, somos herdeiros da fé no nome de Jesus, o Filho de Deus e o nosso Salvador; somos herdeiros da pertença à Igreja, comunidade cristã; somos herdeiros do Evangelho e dos seus valores eternos, capazes de alimentar uma vida feliz e com sentido, tanto nos momentos bons como nas situações duras e que nos fazem sofrer. Temos aberta a porta para tudo o que é bom e belo, pois Jesus não desejou mais nada para nós senão que tenhamos a plenitude da sua alegria, que nos vem pela fé.

O grande desafio desta celebração festiva consiste em fazermos o que estiver ao nosso alcance, com a força do Espírito Santo, para guardarmos a fé no nome de Jesus e ajudarmos os outros, particularmente a nossa família, a guardarem a fé.

Nas nossas terras de origem, mas também nas nossas terras de adoção em virtude da emigração, é muito comum deixarmos esquecida a fé que recebemos como herança ou mesmo deixá-la morrer.

Jesus bem sabia que as ocupações da vida, o desejo de ganhar o mundo, a confiança exagerada nas possibilidades humanas, as tentações materialistas, podiam ocupar o espaço da fé e de Deus nas nossas vidas. A Sua oração ao Pai não nos pode deixar indiferentes, pois pela experiência de vida vamos percebendo que não adianta ganhar o mundo inteiro se perdemos o que é essencial, se não temos no coração a força do seu amor misericordioso, a única realidade que nos pode dar a plenitude da sua alegria, aquela que vence todas as tribulações e que permite sermos pessoas de esperança em todas as situações.

Nossa Senhora, ao acompanhar Jesus na sua vida pública, mas particularmente a caminho do calvário e da morte, deu-lhe o aconchego materno que o ajudou a seguir em frente; no meio dos Apóstolos desanimados após a morte de Jesus, deu-lhes o sentido da esperança que, com Deus, nunca morre; ao longo de toda a história da fé cristã tem estado ao lado dos homens e mulheres que se perdem nas teias da vida, com uma palavra de carinho e com gestos maternos que fazem caminhar para o Deus Vivo.

Tem, por isso, sentido, que lhe demos lugar na nossa vida, enquanto Mulher e Mãe, que acompanha o nosso percurso, por vezes muito atribulado. Ela não deixará de nos apontar para Jesus Cristo, o Filho de Deus que deu a vida para que sejamos felizes e salvos.

Junto à cruz de Jesus, Nossa Senhora acolheu João como filho e foi-lhe dada como Mãe. Ali, ela incarna a verdadeira imagem da Igreja, que nos acompanha em todas as fases da nossa vida, como Mãe e como Mestra: Mãe que acolhe, conforta e encoraja; Mestra que ensina, aponta caminhos a percorrer e oferece a verdadeira sabedoria de vida, que se identifica com a sabedoria de Deus.

O segundo grande desafio desta celebração é o de permanecermos filhos da Igreja. É muito comum perdermos a ligação habitual à Igreja, deixarmos de participar na vida da comunidade cristã, afastarmo-nos da celebração da missa do domingo, dos sacramentos, da Palavra de Deus, da catequese ou da oração.

Facilmente encontramos razões para esta perda de contato regular com a Igreja de Deus: umas vezes porque não há tempo, outras porque há ocupações mais urgentes e que estão em primeiro lugar, outras porque não sentimos a obrigação que nos ensinaram na nossa infância, às vezes porque o mundo mudou ou até porque sentimos que a vida corre na mesma.

Facilmente arrefece a fé em Deus e a fé na Igreja, que trocamos por ideologias, por ocupações, por outras perspetivas de vida que não têm consistência humana nem fundamento seguro.

A Virgem Maria inserida na vida da Igreja constitui para os cristãos uma autêntica reserva de fé, um autêntico suporte para que permaneçamos bem guardados no nome de Deus. Por meio da oração mariana, felizmente tão enraizada na piedade dos cristãos, peçamos constantemente ao Senhor que nos guarde na fé e que nos mantenha filhos ativos da Igreja.

Recebemos a fé como herança dos nossos pais, da nossa comunidade, na nossa paróquia. Ela é o verdadeiro tesouro da nossa vida, porque nos põe em sintonia com Deus e com os irmãos, porque nos abre os horizontes da vida eterna. Comprometamo-nos a guardá-la e a comunicá-la aos que estão connosco e nos sucedem.

A Virgem Maria, a imagem e o modelo mais perfeito da Igreja, a verdadeira fortaleza da fé, nos acompanhará sempre, pois a Mãe não pode esquecer os filhos que alimenta e a quem dá vida.

Pai santo, guarda-nos em teu nome, guarda bem viva a nossa fé, protege-nos com o auxílio da Virgem Santa Maria, tua e nossa Mãe, a Senhora do Rosário de Fátima.

 

Colónia, 13 de maio de 2018

Virgílio do Nascimento Antunes

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