Festa de Santo Agostinho - Homilia de Dom Virgílio

FESTA DE SANTO AGOSTINHO

PADROEIRO DA DIOCESE DE COIMBRA

MISSA NA IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Esta celebração diocesana da festa de Santo Agostinho, padroeiro da nossa Diocese de Coimbra, fazia muita falta no nosso calendário anual. Não se trata de uma efeméride, nem de uma homenagem e nem sequer de um simples momento devocional ou de um estéril e saudosista regresso ao passado.
Para nós é um assumir a continuidade da história de fé e de cultura desta porção do Povo de Deus, que é a Diocese de Coimbra, e um reencontro com as nossas raízes mais profundas, que sempre nos remetem para Jesus Cristo e para o seu Evangelho, a eterna novidade que em todos os tempos nos pode recriar e saciar a sede de infinito que sempre nos habita.
Ao celebrar a festa do nosso padroeiro, Santo Agostinho, estamos a tratar do presente da Igreja que somos, no contexto da comunidade humana em que estamos inseridos e abertos aos caminhos que o Espírito Santo nos oferece para realizarmos a missão que nos foi confiada.
Enquanto comunidade cristã, precisamos de revisitar com clarividência e espírito de discernimento as figuras verdadeiramente inspiradoras do passado. Em Coimbra temos muitas, mas sobretudo as dos santos, que foram grandes luzeiros na fé e na cultura, como duas realidades que, quando convergentes, se tornam potenciadoras do desenvolvimento do que de melhor existe em cada pessoa e na própria humanidade. Não vamos repetir o seu estilo de vida nem reeditar as suas ações, mas vamos procurar colher as suas inspirações e intuições alicerçadas na fé que os moveu e que atravessam séculos e gerações. Vamos, sobretudo, procurar que, no meio da aridez dos desertos pequenos e grandes que percorremos, nos ajudem a acolher os sinais de fé e de esperança, de que o nosso tempo está ávido.

Com base nos seus escritos, a tradição atribuiu a Santo Agostinho o título de “cantor da sede de Deus”. Com uma história de vida marcada por experiências fortes, quase de extremos, tanto negativas como positivas, ele espelha o que é a realidade humana e o que, de algum modo se passa, mesmo que em tons mais moderados, no coração de cada pessoa.
A sede de Deus ou sede de amor, de acordo com a linguagem do Evangelho de S. João e com o texto da Primeira Epístola de João, que escutámos, é uma caraterística de toda a pessoa. Pode procurar-se saciar de muitas formas e recorrendo a muitas realidades materiais e espirituais, mas somente o encontro com a fonte de todo o amor sacia por dentro, preenche as cavidades da alma, alimenta o lugar da esperança.
Regressar a Santo Agostinho pode constituir para a nossa comunidade um abrir de orientações para identificarmos as sedes que possuímos, para procurarmos novos caminhos para as fontes da água viva e para rompermos com as prisões culturais que nos amarram e nos impedem de olhar para o alto. Ele não ficou refém do estilo de vida que o avassalou durante a sua juventude nem da dominante cultural do seu tempo; nada disso foi capaz de saciar a sua sede de infinito, de amor, de verdadeira humanidade. O encontro inesperado e pessoal com Cristo, a luz interior do amor sentido, foi mais avassalador do que todas as outras experiências, porque esta sacia a sede do coração.
Hoje, parece quase impossível às pessoas, à sociedade em geral e até à própria comunidade cristã, romper com os esquemas culturais marcados pelo secularismo. E, no entanto, há, hoje, uma procura cada vez maior de vias de encontro e realização pessoal que passem pelas espiritualidades mais variadas. Santo Agostinho abre-nos os horizontes para a possibilidade de construir a vida, a comunidade, os valores, o sentido da existência e a esperança alicerçados na fé em Cristo e na espiritualidade cristã coadjuvada pela inteligência, pela razão, pelo conhecimento e pela sabedoria.

No seu livro autobiográfico, “As Confissões”, Santo Agostinho conta a história da sua conversão. É admirável o caminho interior que faz e as mudanças exteriores a que dá origem, a ponto de reorientar toda a sua vida noutro sentido e chorar o tempo e a vida perdidos longe do conhecimento de Deus, a beleza sempre antiga e sempre nova.
Todos os dias há conversões a Cristo e à fé cristã em todas as partes do mundo. Também há, todos os dias, muitas pessoas que passam a uma situação de desinteresse pela fé e a uma vida focada nas preocupações e questões do dia a dia.
Nunca houve tempos favoráveis à verdadeira fé em Deus nem ao conhecimento de Jesus Cristo. Os tempos de Santo Agostinho, no Norte de África, apesar da grande implantação da Igreja também não eram favoráveis. A conversão a Cristo é sempre uma graça, é sempre uma resposta à iniciativa de Deus, mas é exigente, pois provoca sempre uma ânsia de mudança e vida.
A conversão de Santo Agostinho, tendo em conta a sua experiência pessoal de vida, o contexto social e cultural do seu tempo e as circunstâncias envolventes, é portadora de felizes intuições para o tempo e as circunstâncias em que nos encontramos.
A conversão a Cristo é possível em qualquer lugar, em qualquer tempo e em quaisquer circunstâncias, embora estas possam facilitar ou complicar os processos. Para além da graça de Deus, espera-se a ação missionária e evangelizadora do Povo de Deus, ancorada no testemunho feliz dos crentes e da comunidade cristã.
Convido-vos a acreditar que há muita gente na nossa cidade, jovens e adultos, cheios de sede no coração, que esperam ver uma luz, um pequeno sinal que seja para iniciarem um caminho.
Convido-vos a acreditar que a conversão a Cristo é possível no nosso tempo e em pessoas muitos diferentes: podem converter-se pessoas com pouca formação intelectual, mas também podem converter-se homens e mulheres de cultura, do conhecimento filosófico, histórico, técnico, científico. Podem converter-se hoje pessoas pertencentes aos estratos mais pobres e desfavorecidos da sociedade, como pessoas dos estratos mais privilegiados e cheios de abundância.
A sede que habita uns e outros e que faz parte da condição humana é a mesma. E a forma de a saciar também passa pelos mesmos caminhos. Ninguém mata a sua sede de vida, de amor, de felicidade, de esperança, somente com os conhecimentos adquiridos, com os bens que possui, com o trabalho que realiza.
O campo para o anúncio do Evangelho está aberto na nossa terra e neste momento; a sede de Deus existe, embora possa ter muitos nomes; o Povo de Deus foi enviado a levar a palavra da salvação a todas as nações da terra. Peçamos a intercessão de Santo Agostinho para que o Espírito Santo nos inspire a encontrar os meios, a linguagem, o fervor e a fé para ajudarmos muitos irmãos ao encontro pessoal com Cristo e à conversão que sacia a sede de Deus.

Coimbra, 28 de agosto de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra