Festa de Santo António - Homilia de Dom Virgílio

JUBILEU DO OITAVO CENTENÁRIO DOS MÁRTIRES DE MARROCOS
E DA VOCAÇÃO FRANCISCANA DE SANTO ANTÓNIO

IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DOS OLIVAIS DE COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Celebramos esta festa no contexto do Jubileu de Santo António e dos Mártires de Marrocos, um dom que a Igreja nos oferece pela mão e pelo ministério apostólico do Papa Francisco. Sentimo-nos ancorados no nosso júbilo por termos Santo António há oitocentos anos e o Papa Francisco na atualidade como discípulos de S. Francisco de Assis, um homem e um cristão que levou a Igreja a voltar a Jesus e ao seu Evangelho, procurando com amor torná-la mais fiel sua identidade originária.

A Igreja nunca pode deixar de se purificar, porque, sendo santa enquanto habitação do Deus Santo, é pecadora pelos seus membros, que somos nós, homens de todos os tempos sujeitos à fragilidade da nossa condição, mesmo que habitados pelo Espírito que nos santifica.

No seu percurso terreno, muitas são as figuras que Deus lhe envia para a não deixarem refém da nossa humanidade e lhe apontarem com palavras e com o testemunho da vida a vocação a que é chamada: ser santa. S. Francisco de Assis é, sem dúvida um dos bastiões mais elevados da resposta à graça de Deus, que santifica. Pelo seu amor empenhado a Deus, à humanidade e a toda a criação, ele apontou, no passado, e continua a indicar, no presente, a Pessoa de Jesus Cristo, pobre, humilde e servo, o Filho de Deus cheio da única sabedoria, que nos salva.

Santo António, tocado pelo jeito franciscano de acolher e viver o Evangelho, levantou-se do meio de nós, passou pela nossa cidade dos homens e apontou-nos de forma exímia os mesmos caminhos da sabedoria que nos salva.

Como cidadãos de Coimbra e do mundo, não podemos menosprezar o seu testemunho nem deixar passar em vão o seu modo de viver o Evangelho, tipicamente franciscano, o que é muito mais do que qualquer forma histórica de franciscanismo. A sua vida remete, acima de tudo, para o cristianismo, no sentido mais pleno deste termo, usado frequentemente de forma tão superficial e redutora do seu verdadeiro conteúdo.

Para Santo António, dizer cristianismo significou infinitamente mais do que dizer cultura ou civilização cristã, como um sistema estruturado de ideias e de valores, pois foi  acima de tudo assumir Cristo enquanto pessoa, palavras, obras, sentimentos, mas também Cristo como Igreja, Povo de Deus, homens e mulheres todos irmãos, verdade em que se acredita, horizonte de verdadeira vida no tempo e na eternidade, amor que se reparte e esperança que nos anima.

Ao ouvirmos proclamar as palavras de Ben-Sirá, assalta-nos a ideia de que nos faz a apresentação mais profunda de Santo António, sabendo nós que a sua aplicação não pode nem deve ser personalizada, uma vez que o seu alcance é mais vasto do que a realidade de qualquer indivíduo.

Aplicam-se estas palavras inspiradas à Pessoa de Jesus, o Messias, para quem se orienta todo o Antigo Testamento; secundariamente aplicam-se também aos seus discípulos a quem é dado participar do seu ensino e da sua intimidade. Neste sentido, as palavras sapienciais e proféticas de Ben-Sirá parecem encaixar admiravelmente em Santo António, homem cristão e homem santo, verdadeiro depositário da sabedoria do Alto: “ele derramará, como chuva, as suas palavras de sabedoria... adquirirá a retidão do julgamento e da ciência... fará brilhar a instrução que recebeu... as nações proclamarão a sua sabedoria.”

Pela história e pela sua biografia, sabemos que foi homem inteligente e culto, desejou ardentemente conhecer os mistérios de Deus, da humanidade, da criação, da ciência, fazendo uma síntese harmoniosa entre a fé e a razão, entre o conhecimento humano e as ciências teológicas, realidades que a muitos parecem antagónicas, mas que a ele apareceram como caminhos de procura de uma única sabedoria divina. A sua fé potenciou o crescimento do desejo de conhecer inscrito na sua condição humana, e a sua ciência adquirida pelo estudo e pela experiência de vida julgou e afinou o seu modo de acreditar, de amar e de viver.

Em Santo António vemos realizados os antigos axiomas da teologia cristã, desenvolvidos pelo pensamento do Papa João Paulo II na Encíclica “Fides et ratio”. Procurou sempre estudar, conhecer e compreender todos os mistérios para melhor acreditar; sempre se dispôs a crescer numa fé pessoal e acolhida como um dom, ou seja, a acreditar, para melhor conhecer tudo o que pela revelação e pela inteligência humana nos é dado compreender.

Ecoam ainda aos nossos ouvidos as palavras que Jesus dirigiu aos seus discípulo e que agora escutámos no Evangelho de S. Mateus: “Aquele que praticar e ensinar (um só destes mandamentos), será grande no reino do Céus”.

Também estas palavras assentam claramente em Santo António - praticar e ensinar. O testemunho dos Mártires de Marrocos, cujas palavras desconhecemos, falaram eloquentemente de uma prática de fé e de vida que ficou indelevelmente gravada na sua mente e no seu coração, a ponto de o fazer mudar radicalmente o rumo. Eles praticaram e ensinaram como somente os mártires podem fazer, pois aí está o cume da manifestação da autenticidade da fé e da vida.

Caríssimos irmãos e irmãs, basta-nos esta sabedoria do alto incarnada pelo nosso Santo Padroeiro como inspiração maior da nossa vida pessoal, familiar e comunitária. Esse desafio acaba de nos ser feito pelo papa Francisco, quando em carta dirigida aos Frades Menores Conventuais, diz: “Espero que esta significativa ocorrência (o oitavo centenário dos Mártires de Marrocos e da vocação franciscana de Santo António) desperte, nos Religiosos Franciscanos e nos devotos de Santo António espalhados pelo mundo, o desejo de experimentar a mesma santa inquietação que o levou pelos caminhos do mundo a testemunhar, com a palavra e as obras, o amor de Deus”.

Esses devotos somos nós aqui presentes, são os paroquianos de Santo António dos Olivais, são inúmeros cristãos da nossa Diocese de Coimbra, chamados a “ver o Senhor” e a fundar n’Ele a própria vida.

Coimbra, 13 de junho de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra