Homilia celebração Domingo de Pascoa 2017

DOMINGO DE PÁSCOA 2017

SÉ NOVA DE COIMBRA

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

A morte e ressurreição de Jesus marca o nascimento do Novo Povo de Deus, que vive a realidade da Sua presença salvadora e vê realizado o cumprimento da promessa feita ao Antigo Povo de Deus, expressa pela palavra dos profetas.

A primeira aliança, manifestação do amor do Deus fiel, prepara a segunda, a definitiva e eterna aliança, selada com o sangue precioso de Jesus, e a realização plena do Seu plano de salvação.

Somos agora o Povo da Nova Aliança, homens novos que, pelo batismo, morremos com Cristo e com Ele ressuscitamos para a vida. Desta certeza de fé nasce a nossa condição de membros de Cristo, que vivem o “já” da redenção realizada no seu mistério pascal e que aguardam, na esperança, o “ainda não” da sua consumação.

 

A celebração da Páscoa do Senhor ensina-nos a viver como Igreja, como Povo da Nova Aliança, conduzidos pelo Espírito Santo e alegres por termos connosco a presença perene de Jesus Ressuscitado.

O grande modelo da Igreja é Maria, a primeira crente, aquela que acreditou ser possível tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor e nos mostra na sua fé e na sua vida aquilo que somos convidados a realizar e aquilo que nos espera.

Maria acreditou na realização das palavras do Anjo da Anunciação, acreditou que seria possível a incarnação do Verbo de Deus na sua vida e na vida da Igreja. Mostrou-nos, por isso, a condição essencial para uma vida de fé, a humildade e a pobreza de coração, como sinais de acolhimento, que tornam possível a vinda de Jesus ao nosso coração. Assim como veio a Ela, a Filha de Sião, Jesus vem a nós todos, os que fomos chamados a ser filhos e filhas de Deus pelo batismo.

O privilégio de Maria estendeu-se a nós todos, os que fomos chamados por Deus a ser seus filhos e filhas, sem que o merecêssemos e sem que nada tenhamos feito por isso. O Senhor fez em nós essa mesma maravilha de nos adotar para que sejamos seus. Cabe-nos viver como filhos amados, disponíveis para interiorizar e tornar viva a Palavra de Deus em nós; o Filho de Deus pode ter lugar no nosso coração, como teve no seu.

 

Maria seguiu Jesus no percurso da sua revelação aos homens e mulheres com quem se encontrou ao longo da sua vida pública. Aprofundou o seu conhecimento de Jesus, meditou no seu mistério, fez perguntas e calou silenciosamente o que não compreendia. Quando Jesus chamava os discípulos, acolhia, perdoava, pronunciava palavras de anúncio do Reino, curava, fazia sinais miraculosos, também ela presenciou tudo e tomava a decisão interior de continuar a segui-l’O como discípula.

Desse modo nos ensinava a fazermos o nosso caminho de fé, entre perguntas e certezas, umas vezes com admiração outras com perplexidades, mas sempre confiantes na palavra d’Aquele que vinha da parte do Deus Altíssimo. Ainda hoje, o caminho de conhecimento de Jesus por meio do encontro pessoal, da catequese, dos momentos de oração e evangelização, da celebração da liturgia, nos levam a um conhecimento mais profundo, a uma consciência mais viva da Sua identidade e da certeza do seu amor por nós.

 

Maria esteve de pé junto à cruz de Jesus, onde acolheu a humanidade entre os seus filhos e onde se tornou a Mãe da Igreja. Ali é testemunha privilegiada da esperança que, alicerçada em Jesus Cristo, o Filho de Deus, nunca pode morrer, porque tem a marca do divino e do eterno.

Junto à cruz, Maria ensina a Igreja a esperar contra toda a esperança e a pôr a sua confiança em Deus e não nos homens. Junto à cruz ela consola e é consolada, abrindo à Igreja o caminho de consoladora de toda a humanidade, por meio da palavra e dos gestos de caridade e de misericórdia.

Junto à cruz, Maria ensina a Igreja a não se centrar em si mesma, mas em Jesus, que dá a sua vida, e na humanidade, que precisa de quem a ajude a encontrar-se com a vida eterna.

 

Acima de tudo, Maria alegra-se com a notícia da ressurreição de Jesus, vive na alegria e na esperança, a ponto de estar presente no Cenáculo em oração com os Apóstolos, quando o Espírito Santo desce sobre a Igreja, a fim de a tornar Igreja Santa e sem mancha, sacramento universal da salvação, que vive e testemunha a fé no Ressuscitado.

No Cenáculo ensina-nos que não podemos progredir no caminho da santidade cristã sem o auxílio e a força do Espírito Santo, Aquele que reza em nós, age em nós e nos torna dóceis à vontade do Pai, Aquele que realiza em nós e na Igreja a obra de Deus.

Com ela aprendemos os caminhos da espiritualidade cristã, que consiste em viver no Espírito e segundo o Espírito, em nos afeiçoarmos às coisas do alto e não às da terra.

Com ela aprendemos que a Igreja precisa de ser mais espiritual e que todos os nossos critérios, decisões e valores precisam de ser fruto de um processo de discernimento à luz do Espírito, para que não transformemos em vontade de Deus a nossa própria vontade.

 

Maria é ainda, segundo o livro do Apocalipse, a imagem da Nova Jerusalém, da cidade santa e bela, da Igreja triunfante junto de Deus, Aquele que vence o pecado e a morte e submete a Jesus Cristo, o vencedor, todas as coisas.

Nos momentos de falta de confiança e de esperança, precisamos de voltar a ela, tanto pessoalmente como enquanto Igreja, para que renovemos a certeza de que a vitória final cabe ao Cordeiro, àquele que tendo passado pela morte está sentado no trono celeste, vivo e triunfante.

 

Caminhemos, pois, como Igreja e com Maria, por entre alegrias e dores, mas sempre na esperança, ao encontro de Cristo Ressuscitado, o Único Salvador.

 

 

Coimbra, 16 de abril de 2017

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra


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