Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Marina

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

CAPELA DE SÃO MIGUEL – UNIVERSIDADE DE COIMBRA

 

 Irmãos e irmãs!

A Igreja reúne-nos neste dia para venerar a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Ela manifesta o grande mistério de Deus, Senhor da vida e da história, criador do universo e da humanidade, Aquele que redime e que salva no amor e por amor.

Os nossos antepassados quiseram pôr a Universidade de Coimbra sob a sua proteção materna, para que sempre e em tudo se sentisse a colaborar com o Senhor da vida e da história ao serviço da humanidade. Quiseram que o conhecimento e a sabedoria humana, inspiradas pela sabedoria divina, fossem um autêntico serviço em favor da promoção da pessoa humana integral, corpo e espírito, sujeito de direitos e de deveres, a viver em sociedade na busca da justiça, alicerçada no amor.

Ao virmos a este lugar tão significativo da nossa história de Coimbra e de Portugal, manifestamos o desejo que temos de continuar numa atitude de procura dos caminhos da sabedoria, que constituam um verdadeiro contributo para o maior bem de todos, no respeito pelo bem maior de cada um.

Ao falar-nos do fruto da árvore, o livro do Génesis, na sua linguagem poética e metafórica, transporta-nos sempre para as inúmeras procuras individualistas da vida. Também no nosso tempo são muitas as configurações da procura da vida, que, frequentemente, são caminho de morte.

Das questões ligadas à concepção e ao início da vida humana até às questões ligadas à morte e ao seu fim, continuamos tentados a colher o fruto da árvore. Movidos pelo desejo de proteger a vida, podemos acabar, quase paradoxalmente, por pô-la em risco e mesmo por destruí-la.

São ainda muitos outros os lugares e situações de gritantes contrastes no caminho da humanidade que configuram o desejo de procurar a vida por caminhos que a põem em causa: para procurar a paz, promove-se a guerra; para garantir direitos, atropelam-se direitos fundamentais; para criar a união entre os povos, constroem-se muros que separam e dividem; em nome da segurança de pessoas e bens condenam-se pessoas a permanecer nos palcos de guerras ou a sucumbir nas águas dos mares que nos separam; para garantir desenvolvimento e riqueza destrói-se um planeta bom e belo, a casa comum de todos nós.

A Virgem Santa Maria, para além dos contornos da sua história pessoal, constitui para os cristãos um ícone profético da realização de um concreto modo de sermos pessoas, de sonharmos o futuro e de nos situarmos na vida. Entre tantos aspetos que têm sido desenvolvidos pela tradição da Igreja, ressalta hoje para nós a dimensão espiritual da sua existência.

“O Espírito Santo virá sobre ti”, disse-lhe a voz do mensageiro de Deus. A partir daquele momento incarnou no seu seio o Verbo de Deus, a Vida verdadeira, o próprio Deus que é amor. Toda a sua existência, igual a todas as outras, se pautou pela busca incessante da sabedoria do amor, que é sempre oferta de si mesma em favor dos outros, como é próprio da maternidade enquanto serviço à vida.

A humanidade da Virgem Maria, habitada pelo Espírito Santo de Deus, fez dela um hino à vida. A antiga Eva, mãe de todos os viventes, marcada pelo desejo de colher o fruto da árvore, para preservar a vida, mas ainda marcada pelo egoísmo e pelo individualismo de quem pensa apenas em si mesma, deu lugar à nova Eva, àquela que está disponível para dar a vida, para repartir o que é e o que tem num total gesto de amor.

Toda a verdadeira espiritualidade humana, acolhendo a realidade de sermos corpo e espírito, é abertura ao amor e à vida; toda a espiritualidade cristã, fruto da revelação da presença do Espírito de Deus em nós, conduz a uma vida segundo o Espírito, que é sempre comunhão de pessoas, acolhimento dos outros, oferta de si mesmo para que todos tenham a vida em abundância.

A solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria põe-nos sempre diante do misterioso desafio de nos tornarmos homens e mulheres espirituais. Nascidos na carne, temos por vocação tonarmo-nos espirituais, pois quando sobre nós desce o Espírito de Deus, gera-se em nós a vida de Deus.

Convido-vos, caríssimos irmãos e irmãs, a progredir dia após dia na espiritualidade cristã, alicerçada na fé acerca da presença do Espírito de Deus em nós. Por meio da oração sincera, da meditação silenciosa, da pacificadora contemplação, da leitura crente das Sagradas Escrituras, da celebração dos mistérios da fé, da fidelidade a uma consciência reta e dando lugar aos mais nobres sentimentos que habitam no nosso coração, podemos caminhar no Espírito.

Homens e mulheres alicerçados numa espiritualidade sincera abrirão novos rumos a uma história tão marcada por problemas gritantes. É a partir da transformação do interior de todos e de cada um, habitados pelo Espírito de Deus, que encontraremos os caminhos da paz, do acolhimento de pessoas e povos, da promoção dos direitos humanos, da construção de uma sociedade justa, do desenvolvimento de uma economia solidária, da construção de relações alicerçadas na amizade, na fraternidade e no amor, do serviço à vida como o maior dom que se recebe, se preserva e se dá.

Que a Virgem Santa Maria continue a ser o grande ícone profético da vida em abundância que Deus quer para  nós e para todos. Ámen.

Coimbra, 8 de dezembro de 2017

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra