Homilia na Solenidade do Natal do Senhor de 2017

Caríssimos irmãos e irmãs!

Estamos a celebrar a solenidade do natal do Senhor, nesta noite santa em que ressoa de novo nos nossos corações o canto jubiloso dos Anjos: Glória a Deus nas alturas!

Estamos a celebrar a solenidade do natal do Senhor, nesta noite santa em que se percebe o silêncio de homens e mulheres que sentem o corpo e a alma marcados pelas mais violentas dores da perda de alguém, da ruina da sua casa ou das escuras cores do panorama envolvente.

As luzes do presépio e a alegria de uns contrasta da forma mais cruel com a escuridão que envolve a outros; por vezes, uma e outra realidade habitam no interior das mesmas pessoas, dos membros da mesma família e dentro da mesma sociedade.

As trevas e a luz de que falava a primeira leitura estão aí bem presentes nas pessoas, nas famílias, na sociedade e dentro de cada um de nós. Isaías anunciava a vitória da luz sobre as trevas, numa palavra profética que já se cumpriu no Messias, mas que está sempre por completar-se na nossa vida e nos diferentes momentos da história humana.

Nós somos filhos da luz, mas as mais variadas formas de obscuridade teimam em persistir em nós e no nosso mundo. As trevas exteriores são preocupantes e muito difíceis de vencer. Vêm ao nosso pensamento todas as pessoas que se encontram em situações de fragilidade e pobreza por motivos de idade avançada ou de doença, por estarem privadas de liberdade, por não terem trabalho, casa, uma economia pessoal e familiar saudável, por terem sido vítimas dos incêndios e por tantos outras causas que tiram o brilho às suas vidas.

Tanto ou mais preocupantes são as trevas interiores frequentemente potenciadas por estas circunstâncias externas, mas, outras vezes, fruto do desânimo, da perda da resistência da vontade, da erosão da alma, do aniquilamento da esperança e da ausência da fé. As circunstâncias externas, com muita solidariedade, partilha, cooperação pública e privada, sentido da justiça e do bem comum, podem atenuar-se. O vazio interior é muito mais difícil de preencher: exige uma fortíssima presença humana, convoca para sinais de amor muito verdadeiros, pede um sincero testemunho de fé enquanto experiência do amor de Deus que se vive, se sente e se comunica.

A fé cristã oferece-nos a possibilidade de unir a alegria e a esperança do natal à dureza e às dores bem reais em cada pessoa e em todos os povos. Quem se ficar pelo ruído da festa ou pelo brilho das luzes, fica-se pela pretensa ilusão da realidade; quem se centrar apenas nas dores e agruras da vida, omite o que de melhor e mais belo nela pode encontrar.

O mistério do natal e da cruz completados pela esperança da ressurreição constituem a resposta mais cabal a uma condição humana sempre finita e mortal, mas sempre grávida de infinito e de imortalidade.

Unindo no coração, na mente e na vontade as dores e as alegrias, o natal e a cruz com todo o seu significado, a partir da fé, encontramos a sabedoria de vida que nos fará acolher tudo com amor e sempre na esperança da feliz ressurreição.

O povo que andava nas trevas é o mesmo que viu uma grande luz; o povo que habitava nas sombrias regiões da morte, é o mesmo para o qual uma luz começou a brilhar, segundo a profecia de Isaías. Os pastores que ficaram cheios de grande medo são os mesmos que ouviram o anúncio de uma grande alegria, que viram um Menino recém nascido e saborearam a voz do exército celeste que louvava a Deus, dizendo: «glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

No natal, embatemos de forma muito suave ou, porventura, muito violenta  contra o mistério da fé que proclama o nascimento de um Salvador, que é Cristo Senhor.

Do modo como nos situamos face a Ele depende muito do que somos, do que sentimos, do que vivemos; do modo como o acolhemos, como O rejeitamos ou como procuramos ser-lhe indiferentes resulta em grande parte a qualidade do nosso amor e da nossa esperança; do modo como O integramos nas circunstâncias tão variadas da nossa vida nascem os caminhos mais luminosos ou mais sombrios que trilhamos.

Convido-vos, caríssimos irmãos e irmãs, a acolher o natal da fé, enquanto sinal da presença amorosa de Jesus Cristo, o Senhor, em todos e em cada um de nós. O arco da sua vida terrena, do presépio ao calvário, é eloquente espelho da condição humana que assumiu, da nossa própria condição. A alegria do nascimento de Jesus traz sempre unido a si o anúncio profético da sua paixão; mas ambas reclamam e permitem sempre vislumbrar a glória da ressurreição.

Convido-vos, caríssimos irmãos e irmãs a entrar confiantes pela via da espiritualidade cristã, no caminho do encontro de fé com Jesus Cristo, o Senhor e Salvador. É um caminho que inclui luzes e sombras, alegrias e dores, mas que nunca nos deixa desistir na procura incessante de solidariedade, de fraternidade, de amor e de paz. É caminho seguro de feliz integração de tudo o que a vida nos dá, mais o que nela buscamos confiantes e o que Deus amorosamente nos oferece por meio de Jesus, o Seu Filho, o Verbo feito carne.

Convido-vos a abrir as portas a este Jesus, que, hoje, contemplamos como Menino no presépio das nossas alegrias e que, também hoje, choramos como Homem pregado na cruz das nossas dores. Ele irá connosco e à nossa frente a rasgar todas as trevas e a abrir-nos todas as portas da esperança, da fraternidade, do amor e da paz, as verdadeiras portas da vida.

Coimbra, 25 de dezembro de 2017

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

 

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