Imaculada Conceição- Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA
MISSA NA CAPELA DE S. MIGUEL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
2018-12-08

Caríssimos irmãos e irmãs!

A Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria leva-nos a considerar a grande aventura da nossa vida, dentro da imensa aventura da vida do universo, fruto do amor criador de Deus. Acreditamos que tudo nasce do seu amor eterno, que se comunica em gestos criadores, e que desperta em nós o desejo de O louvar, bendizer e glorificar, a partir da fé que recebemos.

Além do louvor, a fé no Deus Criador convida-nos sempre a uma resposta que manifeste o acolhimento consciente, responsável e agradecido. A orientação que damos à nossa vida em todas as grandes ou pequenas decisões é a forma que temos de manifestar que reconhecemos o seu amor criador e o modo que temos de agradecer a partir da fé.

A narrativa bíblica do livro do Génesis, numa linguagem poética e simbólica, sintetiza a possibilidade de diferentes atitudes e caminhos que, livremente, podemos percorrer em resposta ao mesmo gesto criador de Deus. A humanidade, em cada um dos seus membros ou na sua dimensão coletiva e comunitária, goza da grandeza de uma condição livre, o que constitui marca essencial da sua identidade; goza da capacidade de amar, o que a assemelha a Deus, que é amor; sente-se também chamada à responsabilidade por si e pelos outros, o que qualifica as sua decisões.

A história da humanidade mostra à saciedade como são grandes os desafios e como são muitas e diferentes as respostas, a dizer claramente que estamos sempre em construção, pessoal e comunitariamente, pois cada um de nós como a sociedade que constituímos tem uma sublime vocação que está ainda longe de realizar. A este crescer em humanidade, de forma integral, que contemple a liberdade, a responsabilidade, um mais apurado sentido dos outros, de Deus e do cosmos em que habitamos, corresponderá sem dúvida aquilo a que chamamos progresso civilizacional.

À parte os extremismos e fundamentalismos de vária ordem que povoam o nosso tempo e que se caraterizam por uma visão parcial, redutora e desencarnada da história, é possível chegar a consensos bastante alargados sobre o que entendemos por progresso civilizacional. Tem por centro a pessoa e a vida em todas as suas fases e circunstâncias, respeita a sua liberdade, responsabilidade e a verdade da sua identidade, está aberta à dimensão espiritual e sobrenatural, promove o equilíbrio ecológico do planeta em que habitamos e o universo que nos envolve.

A tradição ocidental de matriz judeo-cristã que é a nossa casa comum deu e continuará a fornecer elementos essenciais quando se trata de progresso civilizacional e, quando perdemos essas nossas raízes perdemo-nos no meio de uma selva imensa de visões parciais acerca da humanidade, da vida, do mundo, ficamos sem referências éticas sólidas e à mercê das areias movediças de todos os relativismos ameaçadores da própria pessoa humana em sociedade.

Falar de matriz judeo-cristã da nossa civilização significa dizer algo que vai muito para além da dimensão religiosa que inclui. Nesse sentido, não é simplesmente uma questão que tenha a ver com as igrejas, com os crentes ou com as instituições confessionais. Sendo uma realidade muito mais vasta e ultrapassando as fronteiras do religioso e confessional, é uma questão civilizacional que, enquanto pessoas e instituições sentiremos a necessidade de preservar como alicerce daquilo que somos hoje e das linhas programáticas do nosso futuro.

 

A Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria reveste-se de particular importância porque nos oferece a possibilidade de vermos a história da resposta humana à iniciativa divina numa perspetiva positiva e marcada pela esperança.

Ao contrário do que frequentemente passou para a opinião comum e para a consciência geral, o cristianismo não é a religião do pecado, da condenação e da morte, mas a afirmação da possibilidade de uma resposta consciente, livre e responsável à proposta de vida.

Como a teologia e a doutrina têm destacado e como nos ensinou de modo simples e eloquente o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, a fé cristã é o anúncio da possibilidade de viver a santidade a partir da resposta que damos auxiliados pela graça de Deus.

Uma mulher, a mãe de todos os viventes, a nova Eva, Maria, pela sua resposta livre, responsável e marcada pela força do amor, responde a Deus e oferece a vida num louvor e gratidão que fazem dela modelo de humanidade e de fé para todos os crentes.

A santidade de Maria, hoje proclamada pela Igreja, é a declaração de que é possível em todos os tempos e circunstâncias da história fazer caminho de santidade, entendida de forma muito simples como a concretização da nossa vocação humana de criaturas de Deus, renascidas pelo batismo, animadas pela graça e disponíveis para realizar da forma mais completa possível aquilo que somos.

Portugal e especialmente Coimbra tiveram um relevante papel histórico no que se refere à difusão da devoção à Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Ao mesmo tempo tivemos um lugar importante no que respeita aos caminhos de civilização global ao longo dos tempos. Temos ainda, sem dúvida, no tempo presente, a possibilidade de continuar a viver essa nossa vocação, na fidelidade à nossa identidade, à história e à matriz fundamental que nos carateriza.

Enquanto cristãos, não deixaremos de oferecer à comunidade o nosso contributo, que não é mais que o anúncio do Evangelho de Jesus como verdade que nos edifica, nos abre caminhos de vida e nos salva. A Virgem Santa Maria irá sempre connosco como estímulo e como modelo, que nos aponta para onde podemos chegar.

Como escreveu o Papa Francisco, Ela “é a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos” (Gaudete et Exultate 176).

Coimbra, 8 de dezembro de 2018
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra