MISSA DA BÊNÇÃO DAS PASTAS DOS FINALISTAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, NA SÉ NOVA (Solenidade da Santíssima Trindade, Ano C)

Caríssimos irmãos e irmãs

Esta celebração da Bênção das Pastas assinala um ponto alto do projeto de vida de cada um de vós, no qual vos acompanham os vossos pais, familiares e amigos, potenciador de um presente e um futuro de esperança.

As pessoas às quais vos ligam os laços de sangue são solidárias e próximas nos momentos felizes e nos de desencanto; as pessoas que partilham simplesmente a mesma condição humana, mesmo as desconhecidas, ajudam-vos a compreender o que sois, para que existis e o fim para o qual se há-de orientar a vossa ação.

A presença de companheiros e colegas da mesma Faculdade e de outras Faculdades, representando áreas tão distintas do saber, aponta para a universalidade do conhecimento, que é caraterística do saber universitário e diz-nos que, todos juntos, cada um a prestar o seu serviço à sociedade, podemos abrir perspetivas de um futuro maior e melhor.

A celebração da bênção das pastas dá-nos a dimensão alargada da realidade, que poderemos não captar nos dias de vai e vem a caminho da Escola que frequentamos e diz-nos que é na universalidade das experiências de vida, de saberes e de contributos que a humanidade se constrói bela e feliz. Aqui, nesta celebração, a Universidade significa maior universalidade, os particularismos de cada pessoa e de cada história encontram o seu lugar no contexto do encontro com os outros e da história que nos une, na partilha do que somos e na colaboração, cada um a seu modo, para a construção do bem comum.

A grande proposta desta celebração vai precisamente no sentido da universalidade, próprio de quem une ao saber humano, científico e técnico, sinal da grandeza do ser humano, a sabedoria divina, que é dom e fruto da fé.

 

Ao falar da sabedoria de Deus, a Primeira Leitura apontava-nos para o mistério que nos envolve e que não se pode alcançar somente pelos caminhos da razão. Desvendar esse mistério da vida inclui e exige sempre o recurso à sabedoria de Deus, à sabedoria da fé, pois somente o Criador conhece plenamente o significado da Criação. Para que nos construamos pessoal e socialmente precisamos sempre de entrar dentro de nós mesmos e de nos abrir a Deus no qual compreendemos o que somos, o sentido da nossa existência e da obra que realizamos.

Quando o Livro da Sabedoria afirma que as delícias da sabedoria de Deus que nos foi comunicada consiste em “estar com os filhos dos homens”, pretende dizer que é na aproximação aos outros que encontramos a razão de ser daquilo que somos, que somente nos compreendemos e realizamos na orientação para os outros. Quem idolatra o seu saber e se fecha nas suas certezas, não pode aceder ao conhecimento da verdade sobre si, sobre os outros, sobre o mundo e sobre Deus, perde a dimensão da universalidade, torna-se egoísta e limita as suas potencialidades.

Assistimos, hoje, na nossa sociedade ocidental a esse fenómeno da valorização de um outro aspeto da vida, que é fonte de tanto mal estar. A sobrevalorização da economia ou da finança, a exaltação da independência, da vontade pessoal ou das opções individuais, a tirania dos gostos e preferências, a ditadura do bem pessoal que não tem em conta a vocação humana para o dom de si mesmo, geram injustiças, explorações, fraudes, violências de todo o género.

O Espírito da verdade prometido por Jesus, como ouvimos no Evangelho, inscrito na matriz de todo o homem enquanto criatura de Deus, conduz-nos à verdadeira sabedoria que rejeita tudo o que seja contra o homem e coopera com tudo o que o promove, enaltece e conduz à alegria de viver.

As circunstâncias em que concluís o vosso curso são portadoras de acrescidas dificuldades, pois sois enviados para um mundo marcado por uma luta feroz pela conquista do trabalho e das condições de vida, no qual, frequentemente, se jogam as vidas das pessoas, a sua sobrevivência e sempre a sua realização e felicidade. Nunca vos esqueçais que somos dom uns para os outros e não ferozes concorrentes, pois nesse dia ficará diminuída a vossa essencial condição de pessoa.

As presentes circunstâncias constituem, ao mesmo tempo, um enorme desafio para a vossa humanidade e para a vossa fé. É num mundo difícil e numa sociedade dominada por contravalores que podeis marcar a diferença, se quereis deixar o mundo melhor do que o encontrastes. Enquanto futuros obreiros e condutores da sociedade portuguesa, não vos resigneis a prolongar aquilo que agora criticais e que, objetivamente, não serve o bem e a felicidade de todos. Apostai na diferença no que diz respeito à prática da justiça, à honestidade, ao serviço na atividade política; apostai no amor a todos indiscriminadamente, mas, sobretudo aos mais pobres e mais débeis.

À formação específica que recebestes na Universidade e que procurareis qualificar cada vez mais, juntai sempre uma verdadeira sabedoria de vida, pois, se é elementar exercer de forma competente as tarefas assumidas para as quais vos preparastes ao longo deste anos, não é menos importante o fim a que toda a vossa ação se dirige: o bem integral da pessoa.

Este dia da bênção das pastas, da bênção de cada um de vós, finalistas da Universidade de Coimbra, é um dia de muitas recordações do passado, mas é sobretudo um dia de muita esperança para o futuro, bem espelhada em cada um dos vossos rostos e em toda esta grande assembleia. É precisamente essa palavra de esperança fundada na fé, que haveis de levar daqui.

Não vos faltará, assim o esperamos e pedimos, a presença solidária da família e dos amigos tanto nos dias sombrios como nos momentos de sucesso. Não vos faltará nunca a presença do amor de Deus, que vos criou e vos fortalece com o dom do seu Espírito. Tal como dizia a Segunda Leitura, há uma “esperança que não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

Acolhei com a humildade das crianças esse amor eterno de Deus, procurai conhecê-lo pelo aprofundamento da fé, desenvolvei essa relação de confiança com o Senhor Jesus Cristo, e nunca as dificuldades serão superiores às vossas forças. Nunca vos sintais diminuídos por viver e celebrar o amor de Deus, pois a fé professada, celebrada e vivida eleva-nos aos patamares mais altos do amor fraterno e abre-nos ao conhecimento e conduz-nos à verdadeira Sabedoria. Agradecei a Deus o que sois e a vida que tendes, pedi-Lhe a paz interior, a esperança e o amor que só Ele pode dar.

De todo o coração vos entrego à proteção de Nossa Senhora, a Sede da Sabedoria que, como Mãe da Ternura, cuidará bem de vós. Ámen.

 

Coimbra, 26 de maio de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra