Missa do Crisma 2019 - Homilia de Dom Virgílio

MISSA DO CRISMA 2019
SÉ NOVA - COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

A Igreja não cessa de cantar os louvores do Senhor por todos os seus dons. Nesta celebração da Missa do Crisma, ela canta de modo especial a sua gratidão a Deus pelo dom do sacerdócio e por aqueles que lhe foram enviados para tornar presente no hoje da nossa história a palavra profética de Jesus proclamada na sinagoga de Nazaré. A mesma Igreja implora a graça da fidelidade e o ardor da fé, da esperança e da caridade para os seus sacerdotes. 

O início do ministério público de Jesus, na Sinagoga de Nazaré, e a leitura do texto do profeta Isaías oferecem-nos as linhas fundamentais do percurso do novo Povo de Deus, que foi estabelecido no mundo para tornar atual o acontecimento salvífico realizado pela Sua paixão, morte e ressurreição.

Jesus vai a Nazaré onde se tinha criado e, segundo o seu costume, entra na sinagoga e faz a leitura. Essa ação manifesta a sua disponibilidade para acolher o chamamento do Pai, em quem confia plenamente e ao qual adere de todo o coração. Toda a vida de Jesus tem uma referência única: o amor do Pai, a quem chama Abbá, e que O mobiliza totalmente em ordem à realização da missão que dele recebera.

Ao ler o texto da Escritura mostra que não tem outra segurança senão a do amor do Pai. Só isso lhe dá a força para oferecer a Sua vida pela humanidade e o leva a dizer: Pai, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres! Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito!

A unção do Espírito para o anúncio da boa nova manifesta que a missão tem origem no Pai. A missão de Jesus é obra de Deus e, por ela, realiza-se a obra de Deus: a salvação por meio do Evangelho. Não é obra humana, mas é ação divina, que toca a totalidade da pessoa humana. Por meio da unção do espírito manifesta-se a graça de Deus, que redime e salva a humanidade perdida.

A missão concretiza-se quando Jesus aceita ser enviado pelo Pai e submete a sua vontade livre à vontade do Pai. Não veio para Si mesmo, mas oferece-se livremente em favor dos outros e, no seu gesto, realiza-se o ano da graça do Senhor.

O sacerdócio nasce do coração misericordioso de Deus e encontra no Seu Povo homens cheios de fé e de amor, que respondem com a entrega total da sua vida para que a salvação chegue a toda a humanidade. Jesus Cristo, o Bom Pastor é o Eterno Sacerdote e quis associar a Si alguns homens que deem continuidade ao anúncio do mistério pascal, o mistério que nos salva.

Não podemos entender o mistério que nos envolve, se não entramos no mistério de Jesus, o Filho de Deus, pois fomos associados à Sua Pessoa para realizar a Sua missão. Na humildade da nossa condição de membros do Povo de Deus, movidos por uma fé, que é dom, fomos crescendo na relação de confiança no Pai que nos amou e nos chamou pelo nome. Não sabemos explicar tudo, mas recordamos uma experiência de vida que nos levou ao conhecimento do Deus amor e misericórdia. Um dia, fomos tocados pela Palavra da Escritura, sentimos o desejo já semeado pelo Senhor no nosso coração, de o seguir de perto, de pormos a nossa vida ao seu serviço, de nos deixarmos levar até onde Ele quisesse.

Aberta a porta do coração, o Espírito do Senhor foi-nos concedido, para que não nos apoiássemos em coisas humanas, mas no dom da Sua graça. Acreditamos, agora, que nada se deve às nossas capacidades humanas nem à nossa força pessoal, pois o que em nós se gerou é dom de Deus, que supera infinitamente aquilo que podemos por nós.

A missão de anunciar a boa nova aos pobres e proclamar o ano da graça do Senhor confiada ao Povo de Deus é a missão de Jesus. A Igreja não tem uma missão diferente da de Jesus e o sacerdócio é um serviço ou ministério orientado para a realização dessa mesma missão. Nada nos pertence, nem a missão nem o Evangelho, apenas a possibilidade de acolher a graça que nos foi confiada por meio da fé e da disponibilidade para amar e servir Aquele que nos amou e nos serviu primeiro.

Caríssimos irmãos, somos chamados a ser sacerdotes nesta Igreja e neste tempo, em que os desafios são os de sempre. Também no nosso tempo é possível deixar-se tocar pela fé no amor de Deus que oferece ao mundo a salvação de Cristo por meio da Igreja. Hoje, sentimos de forma mais clara que não podemos apoiar-nos senão na graça que recebemos.

O ministério sacerdotal tem hoje melhores condições para ser um sinal mais perfeito da Pessoa de Jesus, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas; o mistério da vocação tem agora um significado mais denso, uma vez que as seguranças humanas perderam a sua força passada.

Ser padre, hoje, só pode ser o fruto de um dom, que é ao mesmo tempo, participação na paixão e na morte de Cristo para o anúncio do Evangelho. Esta é a única motivação que pode levar alguém a aceitar viver a fé na Igreja como um serviço, como um modo de dar a vida, perdendo-a.

A Igreja Diocesana precisa muito dos padres. Sem eles, a missão fica por realizar e o testemunho vivo da fé está comprometido. A pastoral das vocações sacerdotais precisa de um novo rumo, de novas metodologias e de um novo ardor. Somente a paixão por Cristo que perde a Sua vida e a paixão pela humanidade que precisa da salvação podem orientar esses novos caminhos, que havemos de percorrer.

Sendo a pastoral das vocações transversal a toda a ação pastoral da Igreja, ela precisa de comunidades cristãs que sejam protagonistas, pondo em tudo aquilo que se faz com as crianças, os adolescentes, os jovens e as famílias uma intencionalidade vocacional. Há, no entanto, necessidade de uma pastoral especificamente vocacional, que conta especialmente com os sacerdotes felizes e entusiasmados com a sua vida e vocação, disponíveis para dar testemunho das razões da sua alegria e da sua esperança. Ao contrário do que, por vezes, pensamos, isso não depende tanto das circunstâncias em que somos chamados a exercer o ministério, como do fogo da fé e do amor que ardem dentro de nós. Os jovens precisam que lhes apresentemos o rosto de Jesus Cristo como Aquele que vive e dá resposta a todas as suas ânsias de verdade, como Aquele que nos dá esperança contra toda a esperança, como Aquele que confia totalmente no Pai e aceita perder a Sua vida por causa da multidão.

A pastoral das vocações sacerdotais é, em primeiro lugar, tarefa dos sacerdotes. Convido-vos a acolhê-la como questão central na vossa ação junto das comunidades cristãs e, particularmente na atenção privilegiada aos jovens. Não podemos estar diretamente em todas as ações pastorais da nossa comunidade, mas faremos todo o possível para incluir nas nossas prioridades o trabalho com os grupos juvenis e para fazer um acompanhamento personalizado dos jovens, que os ajude a crescer na fé, no amor a Deus e à Sua Igreja, no discernimento da sua vocação, como nos pediu o Papa na sua última Exortação Apostólica Pós Sinodal, Christus vivit.

O Povo de Deus que servimos tem muita estima por nós, reza por nós e deposita no nosso ministério uma imensa confiança. Sentimo-nos muito pequenos quando vemos que põem em nós e no ministério que nos foi dado uma esperança demasiado elevada e de que não somos dignos.  

Que este dia nos leve a meditar profundamente na graça que recebemos, a dar graças a Deus por ela e a saborear com fé a unção do Espírito Santo para a missão de anunciar a boa nova aos pobres.

Que Nossa Senhora, Mãe de Cristo Sacerdote e Mãe de todos os sacerdotes, nos acompanhe e nos dê a alegria de levar ao mundo a Boa Nova que salva.

Coimbra, 8 de abril de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra