Missa do Dia de Páscoa 2020 - Homilia de Dom Virgílio

MISSA DO DIA DE PÁSCOA – 2020

Caríssimos irmãos e irmãs!

Destroçados e confundidos, Pedro e o outro discípulo entraram no sepulcro de Jesus na manhã do primeiro dia da semana. Viram as ligaduras no chão, mas a Ele, porém, não o viram. O outro discípulo viu e acreditou. Ainda não tinham entendido as Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Naquela manhã única começou algo de tão surpreendente e novo, que mudou o rumo da história. As aparições do Ressuscitado completarão o percurso de fé, que mudou as suas vidas e encheu de alegria todos aqueles que, com eles, tiveram a graça de acreditar. A vida manifestou-se e destruiu o poder do medo e da morte; abriu a possibilidade da esperança que não se funda nas forças humanas, mas no poder infinito do Deus Criador e Senhor, que é a verdadeira Vida.

Toda a humanidade entrou com Pedro e o outro discípulo no sepulcro de Jesus, pois toda ela conheceu ao longo da história e, particularmente nestas últimas semanas, o desalento de se ver a caminhar para a morte. O medo apoderou-se de nós e desejamos ardentemente encontrar uma luz libertadora, uma porta que se abra e dê confiança e segurança. Todas as respostas procuradas são importantes e necessárias, mas nenhuma delas é a resposta total, senão a do túmulo vazio e a do anúncio proclamado: não está aqui, ressuscitou.

O que esperamos e desejamos é que toda a humanidade, que entrou no túmulo de Jesus, possa sair dele revigorada pela certeza de que a morte não tem a última palavra. Ela é uma passagem, mas não a realidade última e definitiva. Para além dela há a Vida, como dizemos no credo da nossa fé, quando proclamamos: “creio no mundo que há de vir”, quando se Cristo se manifestar na sua glória”. O que esperamos nesta Páscoa é que a humanidade veja e acredite.

É impossível para nós celebrar esta Páscoa desligando da realidade pela qual o mundo está a passar. De facto, nunca deveríamos celebrá-la alheados da situação do mundo, porque Cristo veio para o mundo e a Igreja não pode viver a sua fé fechada sobre si mesma ou alheando-se do mundo.

Noutras ocasiões, damo-nos conta de situações de sofrimento e morte que atinge algumas pessoas, que tocam povos e regiões distantes e facilmente passamos ao lado. Desta vez, toca-nos de perto, a dor está à nossa porta, em nossa casa, nas nossas aldeias e cidades, paralisou o ritmo da sociedade. Não há indiferença que seja possível, nem idealismo que resista diante da realidade, pois a carne humana é tocada na sua debilidade, os corações estão apertados e até os mais fortes vivem atemorizados pelo que aconteceu ou pode acontecer no presente e no futuro.

Muitos de nós têm a possibilidade de experimentar pela primeira vez o que é a insegurança diante de tudo e de todos. Muitos de nós sentem pela primeira vez necessidade de palavras e de gestos libertadores, tanto das ameaças que vêm de fora, do ambiente social, como das que vêm de dentro, das convulsões e solidões do coração. Muitos de nós têm pela primeira vez a possibilidade de perceber a diferença entre uma vida tranquila e calma e uma vida atribulada e povoada de sentimentos amargos.

Muitos de nós conhecem pela primeira vez o significado da palavra salvação e o alcance da Boa Nova de Deus dada aos homens, o significado da mensagem pascal sempre proclamada. Aquilo que era letra morta ou pouco relevante, aquilo que era chavão facilmente repetido e mecanicamente citado, aquilo que se dizia de forma irrefletida, ganha inesperadamente um significado claro. Este ano, acreditamos com mais fé que, “Boa Nova” significa: quando estamos confundidos podemos clamar: salva-nos Senhor! “Salvação” significa: quando estamos perdidos, podemos rezar confiantes: Senhor, diz uma palavra e serei salvo! E ainda acreditar que Deus nos escuta e nos responde com a dádiva de Jesus Cristo Ressuscitado: também Ele clamou e foi ouvido.

O silêncio destas semanas de isolamento social e, particularmente, o silêncio deste tríduo pascal traz-nos algumas lições que jamais podemos esquecer.

Em primeiro lugar, uma lição sobre o sentido da vida, frágil, ameaçada e sempre periclitante, mas de um valor infinito. A vida própria e a dos outros é um dom precioso, que não queremos perder. Tudo o que se faz para salvar a vida seja de quem for, novo ou velho, rico ou pobre, são ou doente, tem um valor infinito e define claramente a linha de fronteira entre o que são sentimentos humanos e o que é simplesmente instinto de sobrevivência ou de conservação da espécie. Fomos criados para viver e proporcionar razões de viver uns aos outros. Ninguém quer a morte, mesmo que tenha dias maus e, felizmente, nestes dias tem-se sabido, com muita coragem, risco e determinação, ajudar a viver e não desistir nem permitir que se desista da vida de alguém.

Em segundo lugar, uma lição sobre a importância das relações fraternas e humans, familiares ou universais. Quanto desejamos estar perto dos que amamos, quanto suspiramos por reencontrar o aconchego do lar do qual estamos afastados para celebrar, festejar ou simplesmente estamos juntos! Não mais poderemos desvalorizar a amizade, a familiaridade, o sentido de pertença a uma mesma humanidade com a qual partilhamos a igual e radical dignidade de sermos pessoas umas para as outras e umas com as outras. Percebemos o sentido dos pequenos gestos tantas vezes negligenciados, das palavras consoladoras que deixámos por dizer, do amor que não teve as necessárias manifestações para ser e parecer autêntico.

Em terceiro lugar, aprendemos uma lição sobre o lugar de Deus na construção do nosso bem estar pessoal e comunitário. Aprendemos que, mesmo quando faltam todas as esperanças depositadas em coisas perecíveis, continua de pé a esperança alicerçada no amor de Deus infundido em nossos corações. É inevitável a pergunta sobre o sentido da fé e sobre o seu lugar na construção de nós mesmos e na construção de uma humanidade justa, solidária e fraterna. “Afeiçoai-vos às coisas do alto”, dizia o Apóstolo, na certeza de que o nosso coração não se sacia com as coisas da terra.

Irmãos e irmãs!

Nesta Missa da Páscoa da Ressurreição e em nome da Igreja Diocesana de Coimbra, deixo uma palavra de conforto, de consolação e de esperança cristã a todos os que estão animados e solidários na ação junto dos que mais sentem os efeitos desta pandemia; deixo também uma palavra de ânimo a todos os que são vítimas ou não conseguem ver e acreditar.

Quero ainda deixar um grande “obrigado” aos profissionais de saúde que cuidam dos doentes, obrigado aos colaboradores das IPSSs e dos lares onde se encontram os idosos, obrigado aos membros das associações humanitárias de bombeiros e outros servidores dos aflitos, obrigado às famílias que cuidam dos seus membros, obrigado a todos os que estão próximos dos outros e os ajudam a superar o medo e a manter viva a esperança, obrigado a todos os que têm de tomar decisões adequadas no meio de todas as incertezas.

Que Cristo Ressuscitado seja a nossa força e a Boa Nova que nos salva.

Coimbra, 12 de abril de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes, Bispo de Coimbra