Rainha Santa Isabel - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DE SANTA ISABEL DE PORTUGAL – 2020
SANTA CLARA A NOVA

Leituras: Is 58, 6-11; 1Jo 3, 14-18; Mt 25, 31-46

Caríssimos irmãos e irmãs!

Fomos contemplados com a graça de ter em Coimbra das figuras mais insígnes de Portugal, que são ao mesmo tempo das mais queridas da Igreja de Deus presente na Diocese de Coimbra. Santa Isabel e Santo António são, sem dúvida duas delas, que foram elevadas à honra dos altares e que se distinguiram pela adesão incondicional ao Evangelho. Continuarão para sempre a ser modelo de vida e das virtudes humanas e espirituais, que defendemos, procuramos assimilar e testemunhar no meio de um mundo tão carecido de verdadeiros líderes, capazes de mobilizar a comunidade em geral e os cristãos, em particular, para o sentido de Deus e da autêntica cidadania.

Trata-se de verdadeira santidade, que conjuga a fé em Deus com o amor ao próximo, completando, assim o leque de caraterísticas capazes de ajudar verdadeiramente a mudar a face da terra. Quando se vivem tempos tão difíceis e situações de tão grande falta de valores humanos, e numa sociedade tão pobre de vozes que se façam ouvir com amor e verdade, precisamos de olhar atentamente para os maiores expoentes que, afinal são da nossa terra, e continuam a testemunhar a força inscrita no mais profundo de cada pessoa que se deixa seduzir e alicerçar no poder de Deus.

A sociedade que agora somos corre o risco de entronizar e cumular de glória pessoas e realidades que nada têm a dizer de perene, deixando na sombra outras que manifestaram com a oferta da sua vida a profundidade e a grandeza da humanidade, que crê, que adora, que espera e que ama. De modo especial, os jovens precisam de modelos de vida, que não os centrem exclusivamente na busca de respostas momentâneas e frágeis para o seu dia a dia, mas que lhes ofereçam a possibilidade de considerar com consciência e responsabilidade o sentido cabal da sua existência.

Quando não temos mais para oferecer aos jovens senão modelos centrados no desejo incontido de sucesso, na luta pelo bem pessoal ou na conquista do poder por meio do conhecimento, da economia, do trabalho, estamos a edificar uma sociedade que se corrói por dentro.

Porque acreditamos que é possível edificar um mundo melhor e conhecemos o caminho a partir do Evangelho e dos seus mais autênticos seguidores, estamos aqui a celebrar a Solenidade de Santa Isabel de Portugal, com o coração agradecido, por um lado, e disponível para acolher o seu testemunho, por outro.

O Evangelho de Jesus foi sempre uma força arrebatadora e capaz de transformar o mais íntimo de cada pessoa que se deixou tocar por ele. Quando se conhece e se assimila de verdade, oferece uma alegria diferente e um sentido radicalmente completo à vida de uma pessoa, mesmo que com toda a clareza contrarie aquilo que são alguns dos sonhos mais fúteis da mente humana. O Evangelho faz passar dos sonhos pequenos, fechados e até mesquinhos, às realidades mais nobres que se aninham na alma dos seduzidos por Deus.

Em Coimbra, temos a graça de ter rostos vivos do Evangelho, que continuam a mostrar-nos por onde ir e que ainda não valorizámos suficientemente. Santo António, figura ímpar da nossa história, cujo jubileu estamos a celebrar, sendo já homem culto e inflamado pelo Evangelho de Deus quando chegou à nossa cidade, não se resignou diante do caminho já feito. Ao ter conhecimento do modo como os Mártires de Marrocos tinham dado a vida, compreendeu melhor o que significa amar a Deus e amar o próximo – significa dar a própria vida. “Nós sabemos que passámos da morte para a vida porque amamos os nossos irmãos”, dizia a Epístola de S. João. O seu desejo de partir para anunciar o Evangelho não tinha outra motivação senão a de manifestar o seu amor pelos irmãos para os quais conhecer o Senhor e amar como Ele os seus irmãos significa passar da morte para a vida.

As circunstâncias em que se fez uma luz mais brilhante na sua alma não deixam de ser admiráveis e esclarecedoras da sua incondicional afeição por Jesus e pela Sua mensagem única.

Em primeiro lugar a contemplação das relíquias dos mártires, numa aparente contradição, mas uma ocasião de graça que lhe fez abrir os olhos para outras realidades. Quis amar a Deus até à morte, não por desejar a morte, mas por querer dar tudo à semelhança de Jesus, o Mestre.

Em segundo lugar, e igualmente um aparente contrassenso, deixa-se impressionar pelos Frades da Ordem dos Menores Franciscanos que, vivendo junto à ermida de Santo Antão – Santo António dos Olivais – chegam ao Mosteiro de Santa Cruz a pedir esmola. Numa clara iluminação acerca do sentido da fé e da vida, deseja identificar-se com eles, não lhe bastando as seguranças espirituais, humanas e materiais que o Mosteiro lhe oferecia. Quer amar os irmãos sem reservas, de tal modo que a pobreza o seduz, não por querer a pobreza para ninguém, mas por desejar estar sempre ao lado dos pobres, com o pão para a boca e a esperança para o coração. Na sua vida fazem-se eco claro as palavras da Epístola de S. João: “Se alguém possui bens deste mundo, e, ao ver o seu irmão passar necessidade, lhe fecha o coração, como pode estar nele o amor de Deus?”

Sempre que lemos o texto do Evangelho segundo S. Mateus, que hoje foi proclamado, pensamos em muitas pessoas anónimas que se identificam com as palavras de Jesus: “Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes”. Conhecendo a biografia de Santa Isabel de Portugal, não podemos deixar de pensar nela como alguém que tomou como paixão da sua vida o cumprimento desse projeto: “tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber...”

Também ela sentia o coração arder de amor a Deus, a ponto de deixar as seguranças da corte, do poder e da riqueza, para se dedicar a uma vida de oração e contemplação, à maneira do seu tempo.

Não podia, no entanto, separar na sua vida o que não se pode separar no coração e na fé: os pobres, os doentes, os frágeis da sociedade, as pessoas, constituem igualmente a sua paixão, porque a fé leva às obras, Deus leva sempre a olhar para os homens e mulheres, próximos e semelhantes. Santa Isabel responde com a sua vida aos gritos interrogativos do profeta Isaías: “Não será este porventura o jejum que me agrada: repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?”

Ela não foge do mundo para se dedicar a Deus, mas ao dedicar-se mais de Deus aproxima-se ainda mais do mundo, realizando assim admiravelmente a unidade de vida que é vocação de toda a pessoa e que o Evangelho preconiza.

A nossa devoção a Santa Isabel constitui um forte auxílio para que a nossa vida se funde em Deus como a sua, para que acolhamos o Evangelho de Jesus como o nosso caminho e para que partilhemos com a humanidade o mesmo sonho de amar com a oferta da própria vida.

Havemos de aprofundar constantemente as respostas às perguntas fundamentais que põe cada pessoa e não nos podemos contentar com as banalidades a que a nossa comodidade egoísta facilmente nos habitua.

Que a nossa luz brilhe na escuridão unida à luz de Deus, como referia a leitura de Isaías. Que a santidade e a unidade de vida com todas as suas consequências pessoais e sociais seja a nossa marca distintiva como foi a de Santo António e de Santa Isabel, a iluminar as noites da nossa cidade.

Coimbra, 04 de julho de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra