Santa Isabel de Portugal - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DE SANTA ISABEL DE PORTUGAL
MISSA EM SANTA CLARA A NOVA - 2019.07.04

Caríssimos irmãos e irmãs!

Coimbra guarda na sua memória uma das figuras mais inspiradoras da história de Portugal, a Rainha Santa Isabel. Como mulher, como cristã, como política e como modelo de caridade, ela continua a apontar caminhos a cada um de nós, à cidade, à nação e à Igreja. Enquanto exaltamos o seu nome nesta solenidade, havemos de procurar trazer para a atualidade o seu testemunho de vida como fonte de inspiração para os nossos ideais e como chave para a edificação de um futuro de paz.

Santa Isabel de Portugal entrou na galeria das pessoas verdadeiramente grandes quando incarnou de forma feliz a radicalidade do Evangelho de Mateus, agora escutado, e que alia o amor a Deus à caridade para com o próximo: “Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes”.

Ela mostrou ao mundo que a união do sentido de Deus com o sentido dos homens produz sempre um futuro justo e bom para todos, pois vai ao encontro daquilo que somos enquanto criaturas e do que construímos a partir da nossa vontade livre e alicerçada no mais profundo respeito pela dignidade humana.

Todos se curvaram diante dela, não por causa da sua estirpe nem do poder do seu dinheiro ou da sua influência política, mas graças ao testemunho fiel da sua vida assente na prática da retidão, na edificação da justiça, na procura da verdade e em assumir admiravelmente a maior de todas as virtudes, que tem por nome caridade.

Santa Isabel de Portugal é para nós um dos grandes exemplos de que as palavras podem convencer mas, acima de tudo, de que somente as testemunhas arrastam. Dela não ficaram muitas palavras, nem discursos nos grandes areópagos da sua época, mas ficou impresso na memória e no coração das pessoas a limpidez de uma vida dedicada a Deus e dedicada aos homens.

O Evangelho de Jesus Cristo que ela conheceu, que ela amou e que ela viveu até ao extremo e, para muitos, até ao escândalo, tendo em conta a sua nobre condição, não deixou indiferentes os pobres, os políticos, os homens e Igreja, os letrados e os excluídos. A força do seu amor concreto ao serviço da paz, da promoção das pessoas e da caridade foram o seu estandarte e a marca da sua identidade.

Santa Isabel de Portugal incarnou o Evangelho e, por isso, tornou-se uma testemunha que arrastou no seu tempo e arrasta ainda hoje, influenciou no seu tempo e construiu uma capacidade intemporal de influenciar, que se projeta nos diferentes tempos da história.

Hoje os cristãos têm menos capacidade de influenciar o mundo em que vivem porque não manifestam um amor tão forte pelo Evangelho de Jesus. Estamos afastados dele porque não o conhecemos, não o amamos e não o vivemos com a paixão própria dos santos, ele é para nós um texto longínquo ou palavra desconhecida. Deixamo-nos conduzir pelas ideias e modas de cada tempo e facilmente passamos ao lado da Palavra salvadora de Jesus.

Somos inspirados por ela a retomar a Palavra viva na leitura, na meditação, na oração e na contemplação diária. A lectio divina que a Igreja sempre nos propôs e a escuta atenta na liturgia dos sacramentos ou na liturgia das horas são meios indispensáveis para uma vida conduzida por Jesus e animada pelo Espírito Santo.

A Eucaristia celebrada, amada e vivida constitui outra das suas paixões indelevelmente impregnada no seu espírito e na sua caminhada diária.

A nossa catolicidade corre sérios riscos quando a Eucaristia deixa de ter a centralidade absoluta na nossa vida cristã e quando a nossa fé não radica no mistério pascal de Jesus Cristo que, domingo após domingo ali se celebra.

A comunidade cristã perde a sua força de testemunho quando a celebração da paixão, da morte e da ressurreição do Senhor se tornam um adorno da Igreja e não a sua essência, a sua fonte e o seu cume. Nessa altura a capacidade de dar a vida quotidianamente fica reduzida a um ideal para os santos, mas deixa de ser a marca identitária dos cristãos comuns.

Ao recolher-se num convento de clarissas, Isabel de Portugal traz consigo a certeza de que a adoração eucarística constitui o lugar cimeiro do encontro com Deus por meio de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Nesse recolhimento silencioso e contemplativo encontra a possibilidade do conhecimento da sua pequenez diante da santidade do Altíssimo e a graça para dar a sua vida em favor dos pobres.

Somos inspirados por Santa Isabel a retomar o amor a Jesus na Eucaristia celebrada com fé e a gastar longo tempo na adoração eucarística, o lugar do encontro que transforma e converte os corações.

O Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, teve um lugar especial no coração e na vida de Santa Isabel. Quando de coração amargurado quis ajudar a restabelecer a paz entre os seus familiares, entregou-os ao Espírito de Conselho e de Sabedoria, na esperança de que chegassem ao discernimento adequado das suas vontades, intenções e ações.

Deu um grande impulso à devoção ao Espírito Santo e teve forte influência nas festividades que se lhe fizeram. Mais importante foi o seu exemplo de fidelidade pessoal à verdadeira inspiração de que precisamos no momento de discernirmos os caminhos de vida a percorrer. Ensinou-nos que não basta agir por motivações humanas ou por impulsos terrenos, mas é preciso escutar a voz do Espírito que guia nos há de guiar bem como à Igreja rumo à verdade na caridade.

Em 1320, na Sé Velha, e com a presença da Rainha Santa Isabel, celebrou-se pela primeira vez em Portugal a festa litúrgica da Imaculada Conceição. Este facto enquadra-se bem na sua devoção à Virgem Maria, como caraterística da fé católica e excelente auxílio da vida dos cristãos.

Queremos não só assinalar essa efeméride de tão grande alcance para a nossa história de Portugal mas, acima de tudo, renovar o nosso amor à Virgem Maria como Estrela da Evangelização a abrir caminhos para a renovação da nossa Igreja diocesana.

Coimbra bem pode intitular-se “cidade da Imaculada Conceição”, um nome que a honra a ela e mais nos honra a nós se nos levar a acolher Cristo em corações convertidos e santos como o Seu.

Que a nossa Igreja Diocesana de Coimbra acolha com amor a inspiração perene de Santa Isabel de Portugal e encontre nela os novos caminhos da unidade e da paz que com fé nos abriu.

Coimbra, 04 de julho de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra