Santa Maria, Mãe de Deus - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS - 2020
SÉ NOVA, COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Um  dos mais belos títulos que a Igreja deu à Virgem Maria foi o de Rainha da Paz. Os cristãos sempre têm recorrido à sua intercessão em favor da paz e a história está recheada de momentos em que se sentiu presente o seu coração de Mãe a dirigir uma palavra ou um gesto que faz tirar o olhar das mãos sujas das guerras para se fixar em Jesus, o Príncipe da Paz, e assim mudar o coração dos seus filhos.

No primeiro dia deste novo ano, queremos pôr-nos filialmente nas suas mãos de Mãe, acolher as suas palavras, os seus gestos e o seu silêncio, para que nos ajude e ensine a alimentar a esperança da paz pessoal, familiar, social, universal.

“Não se obtém a paz, se não a esperamos”. Esta é uma frase retirada da Mensagem do Papa Francisco para este Dia Mundial da Paz, que estabelece uma ligação muito próxima entre a paz e a esperança.

É quase impossível não a ligar a tudo o que se passa no mundo, especialmente aos seus grandes problemas na convivência humana, nas relações entre os povos, na partilha dos recursos disponíveis, na preservação do ambiente. É quase impossível não a ligar à necessidade de paz, pois, como diz também, ela “é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda a humanidade”.

A Virgem Maria, fazendo-se receptáculo de todos os problemas da família humana e, ao mesmo tempo, incarnando as aspirações de paz de toda a humanidade, acolheu o Príncipe da Paz, deu-O ao mundo e não cessa de apontar para Ele e para o Seu Evangelho como caminho seguro para alcançarmos a paz.

O pior que pode acontecer é desistirmos de ter esperança na construção da paz. Esse é o grande drama do fracasso da humanidade diante das realidades difíceis de alcançar. Nessa altura a paz e a justiça tornam-se impossíveis, pois são sempre fruto do conjugar das vontades dos homens e mulheres de boa vontade, ou seja, daqueles que alimentam um sonho para a humanidade, sonho que coincide com o sonho de Deus, Aquele que nunca desiste de nós nem quer que desistamos uns dos outros.

Como Mãe, a Virgem Maria interpreta o sonho de Deus e o sonho da humanidade que anseia pela paz; como Mãe, Ela nunca desiste dos seus filhos e continua sempre a apontar para Jesus, o Seu Filho, o grande construtor da paz.

O Evangelho, há pouco proclamado, oferecia-nos um caminho de esperança e de paz, do qual andamos, porventura, todos muito afastados, e que tem de estar nos fundamentos da vida e das opções de todos os que querem ser construtores de paz. Trata-se do silêncio e da contemplação. “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração”, dizia o Evangelho a propósito do contexto misterioso que envolve o nascimento de Jesus.

Nós fazemos parte da sociedade do ruído, da ação, da vida agitada pelo tumulto das sensações, que se pode tornar a sociedade que não reflete sobre as coisas, que não pondera, que quer resultados imediatos, que não se interroga sobre a razoabilidade e a dimensão ética das suas decisões. Mesmo dentro do contexto religioso e cristão, somos mais dados à ação do que à contemplação, mais abertos à pastoral como técnica do que à oração como encontro com a graça de Deus, fundamento de tudo o que somos e fazemos.

Maria guardava, ponderava, meditava, rezava, fazia um silêncio ativo, que produzia nela a abertura à graça, fundava a sua esperança, dava sentido à ação e à vida em todas as suas dimensões. O seu silêncio levava-a viver mais do interior do que das sensações exteriores, mais dos impulsos da Palavra e do Coração de Deus do que das suas ideias ou das propostas oferecidas pelo mundo. Esta foi a sua via para encontrar a esperança e a paz que caraterizaram a sua vida, mesmo nos momentos difíceis de compreender ou extremamente dolorosos.

Neste Dia Mundial da Paz, a Virgem Maria repropõe-nos o caminho do silêncio, da contemplação e da oração como possibilidade de edificarmos um coração disponível para Deus e para os outros, disponível para esperar a paz pessoal e comunitária. Trata-se da proposta da valorização da espiritualidade, enquanto dimensão inscrita na identidade mais profunda de cada ser humano, mas frequentemente descurada, em virtude do estilo materialista de viver, tão caraterístico das sociedades atuais e que aos poucos mata essa parte de nós. As coisas boas e belas geram-se no silêncio da inteligência e do coração que se deixa iluminar pela sabedoria do Espírito de Deus, dom oferecido a todo o Homem que veio a este mundo.

Falar de silêncio e contemplação na nossa tradição cristã é muito mais do que falar do encontro solitário consigo mesmo, como se em nós residissem somente as sementes do bem, da verdade e do amor e não houvesse também a inclinação para o mal. Trata-se de criar um ambiente propício para dar lugar a Deus e aos apelos da Sua Palavra libertadora de todas as raízes de mal, para dar lugar aos outros e à sua ânsia de comunhão na justiça e na paz, para dar lugar a uma relação harmoniosa com toda a Criação.

Quando se fica por um encontro solitário consigo mesmo, com os seus impulsos e sensações, facilmente se cai no relativismo ético, no egoísmo assumido como preservação do bem estar pessoal, no monólogo que pode vir a fortalecer um modo de pensar e viver fechado à fraternidade. Quando o silêncio e a meditação se focam exclusivamente numa forma de pacificação individual, pode acontecer que se esqueçam os outros ou até que o seu bem e a sua liberdade pareçam colidir com o bem pessoal.

É imprescindível que a paz habite no coração de cada pessoa, mas isso nunca acontece se ela não constrói a paz com Deus, a paz com os outros e a paz com toda a Criação. A meditação, a contemplação, o silêncio e a oração, que podem fundir-se numa única experiência de vida, é sempre uma atitude ativa, que conduz à construção de um coração e de uma vontade disponíveis para se expandirem em gestos de comunhão e de amor com o próximo.

Este Dia Mundial da Paz convida cada um de nós a uma profunda mudança de vida: mais silêncio e menos ruído, mais espiritualidade e menos materialismo, mais escuta do que palavra, mais diálogo do que monólogo, mais comunhão do que solidão.

Este Dia Mundial da Paz convida a Igreja ao silêncio e à contemplação orante que a levem a dar o contributo que lhe cabe em ordem à “busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperança da paz, através da transmissão dos valores cristãos, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais”, como nos recorda o Papa Francisco na sua Mensagem.

Este Dia Mundial da Paz convida-nos a dar lugar no coração e na vida aos homens e mulheres nossos irmãos, como a Virgem Maria que, enquanto Mãe de Deus e Mãe dos Homens, nos acolhe como um povo de filhos e filhas, que não desistem de esperar, de desejar e de construir a paz.

Coimbra, 1 de janeiro de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra