Solenidade da Santíssima Trindade - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE 2020
DIA DA IGREJA DIOCESANA – IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Celebramos o Dia da Igreja Diocesana de Coimbra no contexto do Jubileu de Santo António e dos Mártires de Marrocos. É ocasião privilegiada para sentirmos o peso feliz de uma história que nos precede e que queremos honrar, na fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo e à Tradição doutrinal, eclesial e cultural que nos moldou ao longo dos séculos. Não para ficarmos presos a um passado cristalizado, mas para darmos continuidade ao  projeto salvífico de Deus cheio do dinamismo da renovação, que o torna válido também para o nosso tempo.

Somos, hoje, a mesma Igreja de Deus, nascida do lado aberto de Jesus de onde correu o sangue do martírio e a água do batismo, alimentado pela Eucaristia, o Pão Vivo descido do Céu, animado pelo Espírito Santo, Aquele que nos conduz pelos caminhos da fé, da esperança e do amor. Estes longos séculos que nos separam da chegada do Evangelho às nossas terras de Conímbriga, de Aeminium e de Coimbra, são, ao mesmo tempo os longos séculos que nos unem a todos os que acolheram a fé e no-la transmitiram com a eloquência da sua palavra e o testemunho da sua vida.

Este é para nós o tempo da graça, o verdadeiro kairós de Deus, que nos faz sentir felizes e agradecidos por tão grande dom. Acreditamos que a páscoa de Jesus, a sua paixão, morte e ressurreição foi por nós e continua a ser o sinal de que Deus amou o mundo, também o nosso mundo, e lhe entregou o seu Filho Unigénito, para que, acreditando n’Ele não pereçamos, mas tenhamos a vida eterna.

A Igreja Diocesana de Coimbra, verdadeira Igreja de Deus e porção do Seu Povo, é a nossa casa de irmãos, o nosso porto de abrigo nas horas difíceis, o lugar em que acolhemos o Espírito Santo, a comunidade em que acolhemos a Palavra da Salvação e em que partimos o Pão da Eucaristia. Ela é o púlpito do anúncio do Evangelho por palavras e por obras, o hospital de campanha em que se regeneram os doentes no corpo e no espírito, a mão estendida para acolher os necessitados e a mão aberta para distribuir os dons em gestos de caridade. Ela é a ainda a Mãe que congrega todos os filhos na comunhão e no amor de Deus, que acompanha todas as suas pessoas e instituições, velando para que tenham acesso aos bens do alto e para que se mantenham fiéis à fé apostólica de que é a garantia.

Convido-vos, caríssimos irmãos e irmãs, a purificarmos o nosso olhar sobre a Igreja de Deus presente em Coimbra e a ver para além do visível, isto é, a uma visão teologal; convido-vos a procurarmos adentrar-nos no mistério da Igreja Diocesana nascida do coração de Deus por meio de Jesus Cristo; convido-vos a descobrir nela a presença do Espírito Santo, que a conduz sempre à sua identidade mais profunda, com a Sua sabedoria divina e com a nossa colaboração humana, mas elevada pela graça do batismo.

A palavra de Deus escutada trouxe-nos uma Boa Nova, que queremos acolher neste dia como verdadeira voz do Espírito que nos orienta na fidelidade à nossa vocação pessoal e comunitária de Igreja em caminho.

Moisés, segundo o livro do Êxodo, caiu de joelhos e prostrou-se em adoração diante da santidade e grandeza de Deus, que se lhe manifestou como um Deus clemente e compassivo, cheio de misericórdia e fidelidade, no monte Sinai.

É um forte apelo à nossa fé como acolhimento e resposta Àquele que se revelou como Senhor, Criador sempre presente, que se digna caminhar no meio de nós. Ele é Deus e nós somos criaturas feitas à Sua imagem e semelhança, repletos da dignidade que nos concedeu, colaboradores privilegiados na história da salvação, cuja realização se deu na páscoa de Cristo.

A humildade das criaturas na relação com o Criador expressa no gesto de prostração do coração é o distintivo da fé. Não adoramos a nada nem a ninguém senão a Deus e tudo estamos dispostos a submeter aos pés de Cristo, o Filho. Quanto maior é a nossa comunhão com Ele, no amor, mais nos sentimos a colher os sinais da Sua bondade e a abrir a vida ao seus dons.

Como Diocese, como paróquias, como famílias e como pessoas, encontramos na adoração a Deus, uma das faces das tábuas da Lei, a nossa vocação primeira. Amá-lo sobre todas as coisas com um coração espiritual e santo, a outra face das tábuas de pedra, completa em cada um de nós e nas nossas comunidades a resposta humana à Trindade Divina.

O Apóstolo Paulo na Segunda Epístola aos Coríntios leva-nos a considerar a outra dimensão essencial da nossa fé: a dimensão eclesial e comunitária, marcada por uma intensa ligação aos irmãos em humanidade e na filiação divina.

Entre as muitas exortações, pede-nos que nos animamos uns aos outros, tenhamos sentimentos comuns, vivamos em paz e nos saudemos com o ósculo santo. Estes e muitos outros são sinais palpáveis de que acolhemos a Deus, Trindade Santíssima, nos nossos corações e na nossa vida. São sinais visíveis de que nos sentimos Igreja unida na comunhão e no amor que vem de Deus, Aquele que amou tanto o mundo a ponto de entregar por Ele o Seu Filho Unigénito.

A nossa Diocese de Coimbra, em todo o seu presbitério, com os seus diáconos, consagrados e leigos, em todas e cada uma das suas comunidades, famílias e instituições, nega a sua identidade e põe em causa o seu testemunho se não vive esta comunhão fraterna. Animados pelo Espírito, somos construtores da Igreja comunhão, que deve resplandecer diante do mundo como luz, apesar de todas as nossas fragilidades humanas.

Se olhamos para a história encontramos muitos testemunhos de docilidade ao Espírito de comunhão e de edificação de comunidades unidas e fraternas, mas também conhecemos muitos litígios e divisões. O mesmo poderíamos dizer da Igreja do tempo presente, o que constitui uma chaga no Corpo de Cristo e um pecado contra o mandamento do amor aos irmãos.

“Animai-vos uns aos outros... vivei em paz... saudai-vos com o ósculo santo”. Precisamos de um novo entusiasmo enquanto cristãos e que esse estado de espírito se repercuta por todas as comunidades, algumas delas muito debilitadas pelo envelhecimento humano, pela diminuição de população ou, pior ainda, pelo empobrecimento da fé e do sentido comunitário das suas vivências em Igreja.

O apelo à evangelização presente nas últimas recomendações de Jesus antes de subir ao Céu e sempre presente nos nossos planos diocesanos de pastoral ganha novo sentido na celebração do Dia da Igreja Diocesana. Não temos outro caminho para o fortalecimento da vida da Diocese senão o do anúncio do Evangelho com o ardor e a alegria que temos inscritos em nós e sem os métodos propostos pelo magistério diocesano e universal da Igreja.

O grito presente na Evangelii gaudium do papa Francisco, que nos pede desinstalação e cooperação ativa de todos no anúncio do Evangelho, é o nosso grito. Ele há de inspirar-nos a confiança e a disponibilidade necessárias para uma ação evangelizadora organizada em todas as comunidades. Não mais à tentativa de manutenção de um passado que já não existe, mas sim à ousadia da novidade do Espírito que renova todas as coisas e faz da Igreja Diocesana de Coimbra sinal do amor de Deus para todos nós.

O testemunho de Santo António, apaixonado pelo anúncio do Evangelho, sobretudo nos lugares onde ele tem mais dificuldade de penetrar, nos inspire e conduza a percorrer caminhos difíceis, mas possíveis, quando alegres, procuramos a santidade e nos animamos uns aos outros.

Que este ano jubilar nos dê a graça do entusiasmo que animou os mártires de Marrocos a dar a vida pelo nome de Cristo e Santo António a ir confiante e sem medir os perigos onde o Espírito o levava.

Coimbra, 07 de junho de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra