Vigília Pascal 2020 - Homilia de Dom Virgílio

VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA – 2020

Caríssimos irmãos e irmãs!

Esta é a mais significativa celebração litúrgica de todo o ano cristão. Habitualmente, nela têm lugar os sacramentos da iniciação cristã – o batismo, a confirmação e a eucaristia – dentro do memorial da Páscoa de Jesus que passa pela paixão, pela morte e pela ressurreição.

Ela contempla a reunião da assembleia santa, convocada para dar graças a Deus e se edificar no amor; contempla ainda a escuta da Palavra da Escritura, texto inspirado para narrar as maravilhas e Deus ao longo da história e apta para nos inspirar, corrigir e apontar caminhos de vida.

Quem celebrou a quaresma litúrgica como tempo santo de conversão e quem celebra a quaresma das tribulações da vida, este ano tão duramente marcada pelo sofrimento, anseia por descobrir por meio da fé aquele vigoroso raio de luz inaugurado pela ressurreição de Jesus de entre os mortos, depois de padecer e morrer na cruz, anseia por deixar que ele inunde a totalidade da sua pessoa e da sua vida, a totalidade do mundo em que habita.

A Epístola aos Romanos apontava-nos nesta noite santa o lugar da Páscoa de Cristo na nossa vida de cristãos e os caminhos que nos impele a seguir.

O nosso percurso de cristãos teve a sua origem na fé que recebemos no batismo e que perdura pela ação do Espírito Santo e com a nossa cooperação ativa, a decisão da nossa vontade e o assentimento da nossa inteligência e do nosso coração. Por meio daquele sacramento memorável tivemos a graça de ser sepultados com Cristo na morte e de com Ele ressurgirmos para uma vida nova.

Ao longo do percurso temos a força da Eucaristia, verdadeiro alimento, e a força do Espírito Santo, presença de Deus a inspirar-nos, a acompanhar-nos e a oferecer-nos o discernimento e a sabedoria necessários em cada momento. A participação no ritmo e na comunhão da comunidade cristã oferece-nos a certeza de que somos corpo já enquanto criaturas, mas mais ainda, enquanto filhos e filhas de Deus, que partilham uma vocação comum.

Nesta noite santa da Páscoa, cada um no lugar em que se encontra a acompanhar a Vigília Pascal, é convidado a tomar consciência do mistério que o  envolve, a sentir que não é simplesmente membro de uma organização universal, mas é pedra viva do templo de Deus, inaugurado pela morte e ressurreição de Cristo. Cada um de nós é convidado a revisitar o seu batismo, essa porta da fé, que nos abriu aos dons do Espírito, à Eucaristia, à graça de uma vida nova já iniciada, à participação na vida da Igreja, qual casa de Deus na qual podemos tomar lugar e que nos dá alimento, aconchego e segurança.

Para além do anúncio teológico dos fundamentos da nossa fé pascal, o Apóstolo Paulo, na mesma Epístola aos Romanos, fala-nos das consequências que a nossa nova condição tem na nossa peregrinação sobre a terra, já numa abertura de esperança à realidade do Céu.

De uma forma concisa, o Apóstolo diz-nos: “totalmente unidos a Cristo, vivamos uma vida nova”.  

Todo o ser humano traz inscrito na sua condição de criatura as sementes de uma vida nova, que se manifesta na sede de ir mais além, no desejo de superar as fragilidades, na ânsia de realização pessoal, de felicidade e salvação e na aspiração a abrir-se aos outros numa atitude de comunicação, solidariedade e amor.

Quando, por qualquer razão, este olhar para o futuro com confiança se perde, corre-se sério risco de perda de sentido, de paralisação, de desespero e de morte. Quando faltam as razões para trabalhar, para amar, para estar com os outros, ou seja, quando falta um projeto de vida que contemple as grandes decisões ou as pequenas motivações quotidianas, começa uma escalada de desânimo ou um deixar correr as coisas segundo os ditames de cada momento impõem.

Os cristãos participam dessa universal condição humana e estão sujeitos a todas as suas contingências; mas participam também da grandeza da sua condição de pessoas, que trazem inscrita no coração uma vocação única e grande. São chamados, por isso, com todos os outros homens a uma vida nova, no sentido de nunca se resignarem diante de nada e de não desistirem de procurar os anseios mais nobres inscritos na sua consciência e no seu coração.

Há, no entanto, nessa condição e nesse percurso comum, uma vocação específica que nos anima, nascida do novo nascimento pelo batismo na morte e ressurreição de Cristo, pela efusão do Espírito Santo e pela comunhão com Deus celebrada na Eucaristia, que se perpetua na vida toda.

Quando Paulo nos pede que vivamos totalmente unidos a Cristo, refere-se a esse distintivo único, que recebemos gratuitamente de Deus por meio da fé, pois não se deve a qualquer iniciativa humana nem a qualquer capacidade especial que tenhamos.

“Estar unido a Cristo” é um novo modo de estar na vida, que se constrói dia após dia, é uma possibilidade que temos pelo facto de termos passado pela porta da fé, é um dom por termos sido inseridos no Corpo de Cristo, é uma graça que por meio da Igreja se renova continuamente em nós.

A Páscoa de Cristo constitui sempre, mas de forma mais visível e sentida nas circunstâncias especiais em que este ano a vivemos, um grande sinal para todos nós e um forte apelo para entrarmos em profundidade no significado da Sua paixão, morte e ressurreição, para compreendermos à sua luz a paixão da humanidade e, sobretudo, para vislumbrarmos as possibilidades de vida nova que aí vêm.

Se o mundo precisa de solidariedade humana, de amor, de união e de fraternidade para se refazer e encontrar os caminhos de superação dos seus dramas, precisa mais ainda de ver levantar-se a esperança de vida nova que irradia do sepulcro aberto de Cristo. Precisamos de conhecer os sinais de renovação humana e precisamos mais ainda do grande sinal de Deus, que é a Páscoa de Seu Filho.

Na Sua ressurreição gloriosa, Jesus reúne todas as esperanças da humanidade para lhes dar a garantia da esperança que tem o selo divino.

Nós somos testemunhas de tudo isso, pois já o vislumbrámos por meio da fé.

Alegremo-nos e exultemos, porque o Senhor ressuscitou. Aleluia!

Coimbra, 11 de abril de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra