Jubileu de Santo António e dos Mártires de Marrocos - Nota Pastoral

NOTA PASTORAL

JUBILEU DE SANTO ANTÓNIO E DOS MÁRTIRES DE MARROCOS
12.01.2020 – 17.01.2021

INTRODUÇÃO

Entre 12 de janeiro de 2020 e 17 de janeiro de 2021 celebramos, em Coimbra, o Ano Santo de Santo António de Lisboa e dos Mártires de Marrocos. Assinalamos festivamente a chegada das relíquias dos cinco frades franciscanos, enviados por S. Francisco de Assis para o Norte de África; a ordenação de Santo António e a sua passagem do Mosteiro de Santa Cruz para o Convento de Santo António dos Olivais.

Coimbra não podia ficar indiferente a esta efeméride nem a esta figura, que se orgulha de contar entre os seus vultos do passado.

O Papa Francisco concede-nos a graça de celebrar este Jubileu. Esperamos que o Ano Santo constitua uma forte motivação para revigorarmos a fé em que Santo António acreditou; entusiasmarmo-nos para o anúncio do Evangelho que ele proclamou; agirmos para edificar a Igreja que ele amou e trabalharmos para fundamentar, em alicerces firmes, a sociedade que influenciou, com a sua vida e a sua doutrina.

BREVES DADOS BIOGRÁFICOS

Nascido em Lisboa, entre 1191 e 1195, foi batizado com o nome de Fernando Martins de Bulhões e naquela cidade iniciou os seus estudos. Ainda muito jovem, partiu para Coimbra e ali, seguindo a Regra de Santo Agostinho, no Mosteiro de Santa Cruz, formou-se ao mais alto nível nas ciências sagradas.

Já franciscano, partiu com destino a África com a ânsia de anunciar o Evangelho, à semelhança dos cinco franciscanos que conhecera em Coimbra com o mesmo destino e que acabaram por passar novamente pela mesma cidade, na condição de mártires da fé.

Acabou por chegar a Itália, tendo desenvolvido grande atividade de pregador e professor de teologia, também no Sul de França. Morreu em Pádua em 1231, com generalizada fama de santidade e a canonização, pelo Papa Gregório IX, teve lugar no dia 30 de maio de 1232, fixando-se a festa litúrgica anual no dia 13 de junho. Dali a sua fama, devoção e culto foi crescendo e chegou a todo o mundo, onde é venerado como homem e como santo, sendo uma das personalidades mais marcantes da história de Portugal e da Igreja.

Foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII, em 1946, num justo reconhecimento da sua condição de grande intelectual do seu tempo e da importância dos seus escritos para a formação cristã do Povo de Deus.

SANTO ANTÓNIO, DE PORTUGAL, DA IGREJA E DO MUNDO

Santo António é uma figura incontornável da história da Igreja, da história de Portugal e da história de Coimbra. Em Lisboa nasceu para a vida e para a fé; em Coimbra tornou-se franciscano e sacerdote; em Pádua fez-se a figura universal que conquistou o mundo pelas suas palavras e obras, a ponto de ser declarado Santo e Doutor da Igreja.

Ele não precisa do nosso reconhecimento, pois já o teve ao mais alto nível; também não precisa dos nossos louvores, porque se dedicou totalmente a glorificar a Deus e a encaminhá-los para Cristo. Nós, sim, precisamos de reencontrar na sua pessoa, nas suas palavras e no seu testemunho de vida a inspiração para o tempo presente da Igreja e da sociedade, sempre à procura de novas vias de realização, ancoradas em fundamentos sólidos e perenes.

A nossa cidade e a nossa Diocese de Coimbra tem na sua história plurissecular personagens de altíssimo vulto, em grande parte esquecidas ou, pelo menos, pouco valorizadas, que podem conduzir-nos aos caminhos da renovação humana e cristã de que precisamos para encarar o futuro.

Há um rico património histórico, que inclui pessoas e acontecimentos, e que podemos descobrir e propor com entusiasmo, pois são parte das raízes da nossa identidade e dão forma à nossa matriz judeo-cristã e humanista. Um povo que esquece ou nega a sua história fica à deriva ou então agarra-se à primeira ideologia imposta pela moda do momento, que agora parece firme e duradoura e logo a seguir é substituída por outra, aparentemente mais sedutora.

De entre as figuras proeminentes que estão diretamente relacionadas com Coimbra, Santo António é, sem sombra de dúvida, a mais conhecida e amada no mundo, fazendo dele o Santo universal. O próprio facto de as suas representações pictóricas e escultóricas assimilarem as fisionomias próprias dos povos dos vários continentes mostra a identificação generalizada com o Santo e o desejo incontido de os diversos lugares do globo quererem apoderar-se dele para o considerar seu.

ICONOGRAFIA ANTONIANA

São muitos os modos como Santo António entrou nos modelos de preservação da memória pessoal e coletiva: as imagens na escultura ou na pintura; as instituições religiosas, culturais, cívicas e recreativas que ostentam o seu nome e inspiração; as suas obras escritas, resultado do seu estudo teológico e da sua pregação; as tradições festivas e a piedade popular à volta da sua figura; a devoção popular ancorada nas histórias e lendas referentes aos seus poderes taumatúrgicos; a sua santidade, própria de um seguidor de Jesus e do Evangelho, que anseia anunciar a todos os povos da terra.

A iconografia de Santo António sofre alguma evolução ao longo dos séculos e representa as diferentes fases da sua vida: aparece com as vestes de menino de coro, de cónego regrante de Santa Cruz, de doutor de Coimbra e de frade franciscano.

Há alguns significativos atributos que perpassam praticamente toda a história das suas representações e falam dos elementos mais marcantes da sua vida e vocação: a cruz, a imagem do Menino Jesus com o globo na mão e o livro.

A cruz, insígnia do cristão, é de significado óbvio, por ser ele mesmo um insigne seguidor de Cristo crucificado; a imagem do Menino Jesus com o mundo na mão, por Ele ser o Evangelho para toda a humanidade, que quis levar a todos os povos e, porventura, ligado a um dos milagres que lhe são atribuídos; o livro, por ser custódio da Palavra de Deus, assimilada e anunciada, por se contar entre os cultores da sagrada teologia e entre os doutores e sábios da Igreja.

Há ainda outros atributos secundários que aparecem ocasionalmente ligados à iconografia antoniana: a açucena, que segura na mão, em sinal da pureza e candura da sua pregação; e o rosário sobre o hábito franciscano, como testemunho da sua devoção à Virgem Maria.

Em algumas representações surgem outros distintivos, por ter sido escolhido como patrono de instituições ou grupos particulares, tanto de caráter religioso, como profano. Entre elas, encontram-se as insígnias militares, o manjerico ou o cesto do pão para os pobres.

ALGUNS DESAFIOS DO JUBILEU

Um ano jubilar é sempre um ano de graça para os cristãos que se dispõem a fazer caminho, no seguimento das inspirações próprias das figuras ou circunstâncias que o motivam. Além do júbilo e da ação de graças de toda a comunidade diocesana pela figura de Santo António, que foi cristão entre nós, foi discípulo de Cristo na nossa terra e deixou atrás de si um rasto de santidade que nos entusiasma, queremos ajudar cada pessoa a fazer o seu caminho único de encontro pessoal com Cristo, Único Salvador, e com a Sua Igreja.

Ano jubilar é tempo de recomeçar para os que, porventura, andam afastados de Deus; de fortalecimento no caminho da conversão para os que se sentem desalentados na fé; de renovação da alegria de acolher o Evangelho para quem se sente a viver do espírito do mundo; de enraizamento em Cristo para os que ficaram sem fundamentos sólidos para a sua vida e ação, nos vários campos da atividade humana ou social em que se movem.

De acordo com a tradição bíblica, bem expressa no Livro do Levítico e desenvolvida pela Igreja, o Jubileu é sempre uma oportunidade de recomeçar que o Senhor oferece a cada membro do Seu Povo e a toda a Assembleia dos convocados.

O nosso tempo, que foi perdendo de forma acentuada o sentido da fé em Deus, que se tornou muito indiferente à centralidade de Jesus Cristo e em que o sentido de pertença à Igreja está muito diluído, precisa de recomeçar.

Tendo em conta o passado, com tudo o que fez parte dele, coisas boas e más, precisamos de um tempo novo, de ideais mobilizadores da comunidade cristã, de radicalidade na resposta ao Deus que se nos oferece continuamente como fonte de esperança e possibilidade de futuro.

O Jubileu de Santo António e dos Mártires de Marrocos insere-se plenamente nos dinamismos propostos à Diocese de Coimbra pelos Planos Pastorais trienais que têm conduzido a nossa ação pastoral.

Por sua vez, também parece constituir um elemento novo a confirmar a visão que demos à Diocese: “Alicerçados em Cristo, formamos uma comunidade de discípulos para o anúncio do Evangelho”.

Alegramo-nos por ver espelhada nas linhas fundamentais do Ano Santo a missão que definimos para esta porção do Povo de Deus: “Comunidade que vive a fé e anuncia o Evangelho como caminho do encontro pessoal com Cristo, único salvador, e com a sua Igreja”.

Sentimos ainda confortados por ver uma fortíssima afinidade entre os objetivos deste Jubileu e o programa oferecido à Igreja pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, que nos convida a sermos discípulos-missionários, numa Igreja que deve urgentemente sair para ir ao encontro de todos os que esperam uma palavra e um testemunho tocantes para se porem a caminho de Cristo.

O DESAFIO DA EVANGELIZAÇÃO

Santo António distinguiu-se por ser um apaixonado pela evangelização, num tempo em que os desafios ao cristianismo eram muito grandes: Portugal e a Europa enfrentavam agora uma alternativa religiosa e cultural que punha em causa a fé cristã e o Evangelho. Imbuído pela mensagem de Jesus, que tomara o seu coração e a sua vida, sentiu que não podia ficar tranquilo no silêncio do mosteiro, mas tinha de dar tudo, expondo-se inclusivamente à possibilidade de perder a vida por causa do Evangelho e da humanidade a quem ele havia de chegar.

A chegada a Coimbra das relíquias dos Mártires de Marrocos, em vez de provocarem nele o medo de dar a vida, incentivaram-no a fazer dessa oferta o seu ideal mais alto. Queria, assim, responder ao mandato de Jesus dirigido aos Apóstolos e Discípulos: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

A ação evangelizadora de Santo António não consistiu em lutar contra ninguém, mas em propor com energia a mensagem de Cristo que já o havia conquistado a si mesmo e se tornara a fonte primeira da sua alegria, a esperança fundada da salvação de toda a humanidade.

Tempos diferentes, circunstâncias diversas, mas o mesmo mandato de Jesus a cruzar os séculos e a manter-se atual nos dias de hoje. O Evangelho que não morre continua a ser proposta para a humanidade de hoje; a ânsia de uma palavra salvadora faz parte das muitas sedes que é preciso saciar; as ofertas de caminhos de salvação são, hoje, muitas, mas continuam a não ter uma resposta cabal. O Evangelho, porque é palavra intemporal e expressão de Jesus Cristo, a Palavra feita Carne para dar a vida ao mundo, não tem substituto em nada que seja simplesmente humano e terreno.

Numa sociedade religiosa do passado ou numa sociedade secularizada do presente, persiste a urgência de evangelizar. Acresce a dificuldade de estarmos num mundo fechado ao transcendente e aparentemente satisfeito com a idolatria de si mesmo, mas que se vê submergido por toda a espécie de sinais de morte, que põem em causa a vida humana e os equilíbrios da natureza, ou as razões para crer, esperar e amar. Mais do que nunca, sente-se a necessidade de evangelizar o interior do ser humano, as suas conquistas científicas e técnicas, as relações sociais, económicas e políticas, e até a própria religiosidade cristã vivida no espaço eclesial.

Não seremos capazes de evangelizar se não nos deixarmos encontrar por Cristo, nesse encontro pessoal que está na origem da fé e que nos introduz no dinamismo de uma vida conduzida por Ele. Também não evangelizamos, se não conhecemos a humanidade nas suas grandezas e misérias, nas suas aspirações e fracassos, que anseiam por novos caminhos de salvação. Não evangelizaremos, ainda, se não nos abrirmos aos dinamismos do Espírito Santo, que oferece à comunidade cristã a linguagem, os carismas e os métodos adequados ao nosso tempo e que dão continuidade à tradição viva da Igreja.

O Jubileu de Santo António leva-nos a começar de novo e a iniciarmos o tempo de graça proclamado pelo Papa Francisco quando convidou os fiéis cristãos a “uma nova etapa evangelizadora” (Evangelii gaudium, 1) ou o Papa João Paulo II quando nos disse que o anúncio “é a tarefa primária da Igreja” (Redemptoris Missio, 280).

Santo António que, não podendo ir para as terras de África, como desejou, percorreu os longos caminhos do Sul da Europa a anunciar o que viu e ouviu no encontro com Cristo, convoca a Diocese de Coimbra para uma nova etapa evangelizadora e acompanha, com a sua intercessão, a nossa alegria e entusiasmo de seguir o seu exemplo.

O DESAFIO DA ESPIRITUALIDADE

A espiritualidade alicerçada na Regra de Santo Agostinho e depois nas fontes franciscanas caldearam o interior de Santo António, o homem e o cristão, que veneramos oito séculos depois. Cultivou o conhecimento, a sabedoria e os demais dons do Espírito Santo com todo o interesse, pois precisava deles para a sua vida cristã e para ajudar os outros, no caminho da fidelidade ao mesmo Espírito que a ele mesmo conduzia.

Mais uma vez, as relíquias dos Mártires de Marrocos tê-lo-ão ensinado a enraizar a vida no Espírito e a conhecer o que significa a radicalidade evangélica. Diante daqueles que deram a vida por Cristo e pelo seu Evangelho, as palavras da Escritura soaram muito alto dentro de si: “«Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Aquele que conservar a vida para si, há de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há de salvá-la» (Mt 10, 39).

A passagem para a Ordem Franciscana, ainda nos seus alvores, é sinal deste apelo à vivência da radicalidade evangélica de Jesus, o Mestre, tão bem interpretada e literalmente acolhida por S. Francisco de Assis.

A admirável disponibilidade de Santo António para rumar às terras do Norte de África só pode compreender-se a partir do seu encontro com a tradição espiritual cristã, que conhece o martírio como a forma mais perfeita de seguir Cristo na fidelidade, pois leva à união com Cristo, selada com a própria morte. Os mártires são as testemunhas de Cristo por excelência e imitam, na sua vida, o amor com que Ele se ofereceu pela humanidade, de tal modo que o culto dos santos na Igreja começou precisamente pelo culto dos mártires.

Ao longo de toda a história da espiritualidade cristã sempre se entendeu que o verdadeiro testemunho de Cristo e do seu Evangelho inclui a disponibilidade para dar a vida ou para o martírio. As perseguições aos cristãos ainda não acabaram e vão renascendo em lugares concretos, tornando-se o maior dos desafios e a prova de fogo para a fortaleza da fé.

O Concílio Vaticano II fazendo-se eco desta doutrina e desta espiritualidade, num tempo muito diferente do das grandes perseguições do passado, recorda-nos: “o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor” (Lumen Gentium, 42).

Na esperança de que entre nós não reapareçam as perseguições que levam ao derramamento de sangue, não deixamos de estar, hoje, sujeitos a muitas provações: as que nascem dentro de nós e são fruto dos nossos egoísmos; as que crescem dentro da própria Igreja e são consequência da sua infidelidade e pecado; as que nos chegam a patir de uma sociedade e uma cultura secularista.

Estamos diante do desafio de dar testemunho da nossa fé e da nossa esperança, perante a possibilidade de uma rejeição civilizada ou de uma perseguição cultural e ideológica bárbara. Há realidades que podem não ferir o corpo, mas ferem a alma e calam bem fundo no coração e na consciência onde se decide os caminhos a seguir, mas também onde habitam os medos de ser diferente e agir de modo diferente. Apesar de as sociedades modernas terem um discurso forte contra todas as descriminações, não raro dão lugar a outras, entre as quais se pode contar a descriminação social e cultural dos cristãos.

Será grande a graça do Jubileu se nos levar a um maior enraizamento no Espírito Santo, capaz de nos ajudar a progredir na santidade, o caminho do cristão, e a dar início a um tempo novo, marcado por uma atitude mais evangélica diante da vida e dos desafios quotidianos. A vivência do espírito das bem-aventuranças, carta magna do ensino de Jesus, que nos mostra como podemos ser livres diante de tudo e de todos, por amor, constituirá uma novidade assinalável em todos os que peregrinarem de coração aberto ao santuário jubilar.

Santo António ajudar-nos-á a um crescimento espiritual pessoal e comunitário que tornará novo e belo o rosto da Igreja que, na fidelidade à sua identidade, quer ser sal, fermento e luz.

O DESAFIO DA RENOVAÇÃO CULTURAL

O percurso formativo inicial de Santo António, ainda em Lisboa, tanto na Catedral como no Mosteiro de S. Vicente de Fora, e a formação complementar na Sagrada Escritura, na Teologia e nas Ciências Sagradas que obteve no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foram-lhe dando os fundamentos necessários para um enraizamento cristão, cultural e espiritual, que perduraram harmoniosamente por toda a vida.

Ao declarar-se Santo António como Doutor da Igreja não se pretendeu simplesmente elogiar uma pessoa que se dedicou ao estudo, ao conhecimento e à investigação num período distante da história da Igreja. Esse acontecimento valorizou também os caminhos da cultura como caminhos da humanidade, dotada de inteligência, liberdade, vontade e capacidade de penetrar nos mistérios da condição humana.

Como recordou a Encíclica A Fé e a Razão do Papa João Paulo II, “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (nº 1).

Coimbra é testemunha de uma longa história de interesse por tudo o que são os caminhos da busca da verdade sobre Deus, sobre a humanidade e sobre o mundo. A Escola da Catedral, o Mosteiro de Santa Cruz, e depois a Universidade e outras instituições votadas à causa da cultura e da ciência são o húmus em que puderam desabrochar grandes vultos da sabedoria, entre os quais se conta Santo António.

Esta vocação histórica de Coimbra precisa de continuar a cumprir-se, pois é um tributo de justiça à identidade desta nossa cidade. As vicissitudes históricas e as vagas religiosas, ideológicas e políticas nem sempre souberam dar lugar a este desígnio da forma mais adequada, sobretudo quando, em vez do diálogo instigaram à divisão; em vez da abertura aos outros pretenderam a dominação.

Santo António, discípulo fiel de S. Francisco de Assis, terá aprendido do seu mestre a arte da busca da verdade alicerçada no encontro entre a fé e a razão, no diálogo com os que pensam de modo diferente e no respeito por todos e cada um. A peregrinação de S. Francisco à Terra Santa e ao Oriente, onde teve a possibilidade de contactar com o Sultão do Egito e outras autoridades religiosas, manifestou a sua abertura de espírito e os seus sentimentos de respeito pelos outros. Aquele diálogo querido e realizado com mundividências diferentes da sua, teve como finalidade encontrar alternativas de paz, no meio de uma lógica de terror e guerra instaurada no mundo do seu tempo.

A paz está dependente de muitos fatores, e entre eles conta-se certamente o diálogo cultural e religioso, que assenta no respeito pelo princípio da dignidade da pessoa humana, com os consequentes direitos e deveres, e nos valores fundamentais, como são a vida, a paz, a verdade, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a caridade.

De entre os muitos pontos que hão de ser considerados neste caminho de encontro e diálogo, encontram-se as questões ligadas à ética, muito frequentemente lugar de fraturas profundas. De igual modo, as relações ecuménicas e o diálogo inter-religioso precisam de estar na ordem do dia, para que sejam elemento decisivo na construção de um mundo mais coeso e fator decisivo na construção da paz.

Desejamos que o Jubileu seja ponto de partida para uma nova atitude, de caráter mais proactivo, na condução das relações entre todos os intervenientes no processo de renovação cultural de Coimbra. Santo António, intelectual e santo, homem de cultura e de fé, nos inspire no desbravar de novos caminhos de crescimento cultural numa perspetiva integral.

O DESAFIO DA VOCAÇÃO CRISTÃ E DAS VOCAÇÕES NA IGREJA

Santo António abraçou a sua vocação cristã desde muito cedo, de tal modo que já enquanto jovem tinha o desejo de servir a Deus e a Sua Igreja. A vida consagrada apareceu-lhe como a forma específica de viver a sua condição de cristão, de modo que fez o percurso de consagrado, que o levou à ordenação sacerdotal, por volta de 1220. O jubileu assinala também o oitavo centenário da ordenação, acontecimento que marcou toda a sua vida daí em diante.

A vocação cristã e as vocações específicas foram sempre um tema muito importante na vida da Igreja, pois apesar de todos os batizados constituírem um só corpo em Cristo, cada um recebe os dons específicos e o chamamento próprio para seguir o Senhor. Além do chamamento à vida e à santidade, que é vocação comum a todos, o Concílio Vaticano II recordou-nos que há uma vocação específica de cada um: “todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho» (Lumen gentium, 11).

Estamos num período difícil da vida da Igreja no que se refere à integração dos jovens, à sua formação na fé e ao discernimento vocacional, tanto no que diz respeito à vocação cristã em geral, como concerne à vocação específica de cada um. Por esse motivo, o Papa Francisco convocou um Sínodo dos Bispos sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, no fim do qual ofereceu à Igreja a Exortação Apostólica Cristo Vive.

Celebramos o Jubileu da ordenação sacerdotal de Santo António, num contexto muito concreto que deverá ajudar-nos a relançar, de forma nova e interpelante, a missão da evangelização dos jovens. Estamos no período pós-sínodo sobre os jovens e na recepção da Exortação Apostólica Cristo Vive; começamos a preparar a Jornada Mundial da Juventude 2022, de Lisboa; e como Igreja Diocesana, com base no dinamismo da sinodalidade, vamos definir o Plano Pastoral para o triénio de 2021-2024. Em tudo isto estaremos centrados nos jovens, na sua formação na fé e no seu discernimento vocacional.

A idade da juventude corresponde àquele período da vida humana em que as pessoas se abrem para a vida, para Deus, para os outros e para o futuro. Queremos, por isso, que as crianças, os adolescentes e os jovens sejam destinatários e protagonistas privilegiados das propostas pastorais, espirituais e culturais do Jubileu. O conhecimento mais completo da vocação, da vida e da ação de Santo António, únicas e irrepetíveis, são, com certeza, inspiradoras e motivantes para os mais novos.

Convido as escolas, as catequeses, os grupos de pastoral juvenil, os agrupamentos de escuteiros, os alunos de educação moral e religiosa católica e outros organismos que cooperam na educação da fé dos jovens e são auxílio para o seu discernimento vocacional, a acolher as propostas do Ano Jubilar. Tudo isso pode contribuir para uma nova era no que respeita à educação da fé dos jovens e a criarmos na Diocese uma cultura vocacional mais vincada.

Santo António, cristão, consagrado e sacerdote, intercede pelos jovens e inspira a Igreja diocesana a encontrar o fervor e os meios necessários para este renascimento vocacional de que tanto carecemos.

DESAFIO DA RENOVAÇÃO DA PIEDADE POPULAR ANTONIANA

Todos os anos são inúmeras as festas religiosas celebradas em honra de Santo António, não havendo quase igreja ou capela que não assinale a 13 de junho ou noutra data próxima a sua figura.

Acontece que também a devoção e a piedade popular antonianas precisam de forte renovação, para que não se reduzam a rituais ou festas vazias de sentido espiritual e pastoral, mas sejam momentos aptos para gerar o crescimento da fé, do amor a Deus e de santificação dos fiéis.

Entre nós essas festividades estão marcadas por uma feliz motivação religiosa, mas frequentemente muito diluída, no meio de outras motivações de caráter bairrista ou, simplesmente, voltadas para o já em si mesmo salutar convívio humano, solidário e lúdico.

Se tudo o que se faz em Igreja deve ter um marcado significado evangelizador, também as manifestações de piedade popular antonianas devem revestir-se desse caráter. A festa deve levar à evangelização; a liturgia deve levar à comunhão com Deus e com a Igreja; o convívio deve ajudar a aprofundar os valores testemunhados pelo patrono; a alegria do encontro deve proporcionar a experiência espiritual própria dos crentes; e as manifestações culturais devem estar ao serviço da difusão dos valores humanos e cristãos que deram forma à sua pessoa e à sua vida.

De grande alcance pode ser o aproveitamento da tradição ligada à sua caridade e à solidariedade para com os pobres, expressas na distribuição do pão e nos gestos de partilha fraterna com o próximo ou com as necessidades da comunidade.

A elaboração dos programas das festas de devoção e demais manifestações de piedade popular antoniana procurarão respeitar a sua identidade cristã e promover os valores do diálogo, do encontro, da fraternidade e da paz.

Não há melhor forma de honrar os que nos precederam na fé do que dar continuidade ao projeto de vida que os animou, no seguimento de Cristo, no caminho de santidade e no amor aos irmãos.

CONCLUSÃO

Agradecemos à paróquia de Santa Cruz de Coimbra, à paróquia de Santo António dos Olivais, à Família Franciscana, às entidades autárquicas e outras instituições públicas e privadas a união de esforços para que o Ano Jubilar de Santo António e dos Mártires de Marrocos constitua um forte incentivo para a renovação da Igreja, para o fortalecimento da fé das comunidades da Diocese de Coimbra e seja semente de novos cristãos.

Ao Santo Padre, o Papa Francisco, que nos concede o dom deste Jubileu, manifestamos a nossa filial comunhão em Cristo, e agradecemos a estima que por nós manifestou com este gesto de pai e sinal visível da unidade do Povo de Deus a que pertencemos, também nós, a Diocese de Coimbra.

Asseguramos ao Papa Francisco a nossa oração pela sua pessoa, pelas suas intenções e pelas intenções da Igreja Universal.

Como pastor desta Igreja Diocesana de Coimbra e em união com o Sucessor de Pedro, invoco para todos as bênçãos e graças de Deus neste Ano Jubilar.

Que Santo António interceda por nós!

Coimbra, 14 de dezembro de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

 

ORAÇÃO DO JUBILEU DE SANTO ANTÓNIO
E DOS MÁRTIRES DE MARROCOS

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,
nós vos louvamos pelos vossos mártires e santos.
Nós vos bendizemos por Santo António, presbítero e doutor da Igreja,
modelo de entrega ao serviço da evangelização,
cristão enraizado na fé, na esperança e no amor,
sempre dócil ao Espírito Santo,
arauto da fecundidade da cruz de Cristo,
alimentado pela Palavra da Escritura
e pelo Pão da Eucaristia.

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,
nós vos pedimos pela Igreja de Vosso Filho Jesus Cristo,
para que cresça em santidade
e dê a sua vida em favor dos irmãos.
Nós vos pedimos pelos cristãos,
para que sejam testemunhas fiéis da fé
e sigam o exemplo dos primeiros mártires franciscanos,
que, com o sangue do seu martírio
geraram sementes de novos cristãos.

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,
por intercessão de Santo António,
concedei-nos a graça de um Ano Santo,
que seja um verdadeiro caminho de conversão,
e nos leve ao encontro pessoal com Cristo,
para que sejamos renovados no Vosso Espírito.

Ámen.

Santo António! Rogai por nós!


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