COMUNIDADES DE DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS - Nota Pastoral para o ano 2014-2015

NOTA PASTORAL DO BISPO DE COIMBRA

ANO PASTORAL DE 2014-2015

 

COMUNIDADES DE DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS

 

INTRODUÇÃO

 

A Diocese de Coimbra entra no segundo ano de execução do Plano Pastoral elaborado para o triénio de 2013 a 2016, e que decorre da visão que definimos: “Alicerçados em Cristo, formamos uma comunidade de discípulos para o anúncio do Evangelho”.

O modo como progredimos de acordo com os quatro objetivos definidos e as estratégias e atividades programadas no referido Plano foram objeto de avaliação em diversas instâncias locais e diocesanas.

Concluiu-se que houve muito trabalho realizado mas, sobretudo, que se caminhou no sentido da sensibilização para a necessidade de novos métodos, novos meios e novas experiências pastorais, para que entre nós se realize a missão evangelizadora da Igreja.

Foi um ano em que se sentiu e partilhou a urgência da mudança de atitude e da conversão pastoral, para que sejamos uma «Igreja em estado de missão» como o caminho da Igreja do tempo presente, de acordo com os apelos feitos pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

Embora os quatro objetivos definidos no Plano Pastoral sejam entendidos como um todo a implementar na vida da Igreja diocesana, o ano passado intensificou-se a reflexão e a ação em torno do primeiro, centrado no encontro pessoal com Cristo através do primeiro anúncio.

Para este ano, o Secretariado da Coordenação Pastoral propôs como ponto forte o segundo objetivo, que se refere à implementação de dinamismos conducentes à criação de comunidades de discípulos missionários.

O ano passado, na Carta Pastoral que dirigi à Diocese, e intitulada Comunidade de Discípulos para o Anúncio do Evangelho, referia já o lugar do discipulado missionário na vida da Igreja, dizendo: “As comunidades cristãs têm de desenvolver em todos os seus membros este dinamismo do seguimento de Cristo ou do discipulado como condição para que se tornem missionários” (nº 2).

Depois de ouvidos os organismos diocesanos de participação e corresponsabilidade, ou seja, o Conselho Pastoral e o Conselho Presbiteral, determinou-se que iremos investir na estratégia de «constituição de grupos de catequese de adultos que sigam uma metodologia catecumenal».

Além disso, continuaremos a desenvolver o trabalho de «constituição de grupos de cristãos que através do estudo semanal da Bíblia, da oração e da partilha fraterna, saibam ler a realidade à luz da fé», como já fizemos o ano passado.

Espera-se, deste modo, que muitas pessoas nas paróquias e unidades pastorais venham a integrar os grupos de catequese de adultos e a progredir no caminho do discipulado missionário.

As paróquias devem, nesse sentido, mandar preparar alguns catequistas e definir as estratégias adequadas para a criação dos grupos, para convidar pessoalmente as pessoas que hão-de participar e para encontrar os meios logísticos apropriados à realização da catequese, tão seriamente desejada pela Diocese, como se pode ler nos documentos aprovados no Congresso de Leigos de 1992 e no XII Sínodo Diocesano, encerrado em 1999.

Espera-se igualmente que as comunidades cristãs, sobretudo os seus membros mais ativos e comprometidos, desenvolvam fortemente a sua consciência de que a Igreja é, por natureza, comunidade de discípulos de Jesus Cristo.

Para que a catequese de adultos possa ocupar o lugar importante que a Igreja lhe confere, instituiu-se, na nossa Diocese de Coimbra , o Serviço Diocesano de Catequese de Adultos, pertencente ao Secretariado Diocesano da Evangelização e Catequese, incumbida de publicar os catecismos adequados, de dinamizar as paróquias para darem início a esta ação e de formar devidamente os leigos catequistas que, juntamente com os sacerdotes e diáconos, assumirão a condução destas catequeses.

A referida equipa esteve já a funcionar durante o último ano pastoral e o primeiro volume do Catecismo, já disponível, intitula-se: A Busca do Deus Vivo – Catequese de Adultos de Inspiração Catecumenal.

Para possibilitar a formação teológica adequada aos que vão ser catequistas de adultos, ministério muito exigente, as comunidades paroquiais farão o possível para enviar alguns dos seus animadores a frequentar o Curso Básico de Teologia, na Escola de Teologia e Ministérios da Diocese de Coimbra.

 

 

 

  1. VINDE APÓS MIM

 

Após o anúncio de João Batista, Jesus começou a sua vida pública com o convite à conversão e o chamamento dos primeiros discípulos. “Vinde comigo” (Mt 4, 19) é a palavra que tem ao mesmo tempo o valor de convite e de mandamento, à qual se segue a escuta, a decisão e a atitude: “e eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-n’O” (Mt 4, 20).

Logo a seguir, já com alguns discípulos à sua volta, Jesus “começou a percorrer toda a Galileia” (Mt 4, 23) e “seguiram-n’O grandes multidões” (Mt4, 25). Jesus manifestou, deste modo, que veio para constituir um grupo de discípulos que andassem consigo, aprendessem consigo e conhecessem o Evangelho do Reino que pregava por meio das suas palavras e dos seus gestos.

Desde o primeiro momento, Jesus mostra que a vida do cristão consiste em seguir o Mestre, o Enviado de Deus, Aquele que tem “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68), Aquele que vem para dar testemunho do Pai e gerar para Ele um povo de filhos, de irmãos e de amigos.

Desde o primeiro momento, os discípulos compreenderam que o seguimento de Jesus é diferente do seguimento de qualquer outra pessoa, é inclusivamente diferente do seguimento das grandes personagens bíblicas, de qualquer filósofo ou sábio, por muito importantes que sejam os seus ensinamentos e doutrinas. Seguir Jesus não significa aderir a um sistema de pensamento ou de valores, nem a um código de ação, mas a uma Pessoa; significa identificar-se com Ele e permanecer no Seu amor.

A novidade do seguimento de Jesus, por parte dos seus discípulos, exprime-se em duas direções: “Por um lado, não foram eles que escolheram seu mestre, foi Cristo quem os escolheu. Por outro lado, eles não foram convocados para algo (purificar-se, aprender a Lei...), mas para Alguém, escolhidos para se vincularem intimamente à Pessoa d’Ele (cf Mc 1,17; 2,14).  Jesus escolheu-os para «que estivessem com Ele e para os enviar a pregar» (Mc 3,14), para que O seguissem com a finalidade de «ser d’Ele» e fazer parte «dos seus» e participar de sua missão. O discípulo experimenta que a vinculação íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da Vida saída das entranhas do Pai, é formar-se para assumir o seu estilo de vida e as suas motivações (cf Lc 6,40b), correr a sua mesma sorte e assumir a sua missão de fazer novas todas as coisas” (CELAM, Documento de Aparecida,  131).

A condição do discípulo é a de filho de Deus, uma vez que a união a Cristo, o Filho, o faz chamar também a Deus seu Pai: o discípulo é filho no Filho (cf Gl 4, 1-7). O discípulo é irmão de Jesus Cristo e partilha com Ele a vida que vem do Pai, pois, “a quantos O receberam, aos que n’Ele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12). O discípulo é ainda amigo de Jesus Cristo, pois participa do seu amor, como Ele mesmo disse: “a vós, chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai” (Jo 15, 15).

Seguir Cristo pela fé, com o coração e com a vida, é a vocação do cristão. Cristo tem a iniciativa de chamar, é o Caminho a percorrer, o modelo inspirador e a meta a alcançar. Trata-se da primazia da graça, segundo a qual tudo nasce d’Ele, cabendo-nos a nós o acolhimento, a resposta e o seguimento, fruto do reconhecimento do seu amor manifestado e correspondido.

 

 

  1. FAZEI DISCÍPULOS DE TODOS OS POVOS

 

O último mandato de Jesus centra-se no mesmo tema do primeiro. Após a ressurreição e antes de subir ao Céu, aparece aos seus discípulos e diz-lhes: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” (Mt 28, 19-20).

O projeto de Jesus consiste em fazer de nós seus discípulos e congregar todos os povos da terra num só povo que O ouça, O siga, viva com Ele na amizade e na comunhão e seja salvo por Ele.

Já o chamamento dos primeiros apóstolos junto ao Lago da Galileia e noutros lugares onde se encontravam, apesar de ter um caráter marcadamente pessoal, foi um chamamento a serem discípulos com os outros, com o grupo dos doze. Eles formaram um colégio, uma comunidade animada pelo Espírito Santo e seguiram Jesus como uma pequena comunidade aberta à evangelização e ao crescimento.

O último mandato de Jesus tem uma dimensão ainda mais visivelmente comunitária, é um convite à construção da Igreja, novo Povo de Deus congregado pelo Espírito Santo, fora do qual não é possível seguir o Mestre ou salvar-se, como recordou o Papa Francisco: “a fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do Corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens” (FRANCISCO, Lumen Fidei, 22).

Em todos os tempos da história e em todas as culturas, a Igreja é chamada a convocar um povo de discípulos de Jesus Cristo por meio da proclamação do Evangelho. Deus pretende que o anúncio chegue a todas as nações e seja verdadeiramente universal, para que formem um só povo, unido, apesar das diferentes expressões culturais e das “diversas expressões da vida cristã” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 115).

O cristão é, de verdade, discípulo de Jesus Cristo, mas nunca entendido como um ser isolado, pois “ninguém se salva sozinho, isto é, nem como indivíduo isolado, nem por suas próprias forças” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 113). O cristão é discípulo de Cristo enquanto membro de um Corpo, imagem muito sublinhada pelas Escrituras quando falam da Igreja e reafirmada de forma clara pelo Papa Francisco:  “E dado que Cristo abraça em si mesmo todos os crentes que formam o Seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e com os irmão na fé” (FRANCISCO, Lumen Fidei, 22).

Ao enviar os Apóstolos com a missão de fazer discípulos de todos os povos, Jesus pretende que o anúncio do Evangelho possa chegar efetivamente a todos, em todas as latitudes geográficas, mas também em todas as situações existenciais: “o Ressuscitado envia os seus a pregar o evangelho em todos os tempos e lugares” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 19), “mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 20). Trata-se da afirmação do desejo de Deus de não deixar ninguém excluído do anúncio, uma vez que todos são chamados a participar do banquete do Reino dos Céus (cf Mt 22, 2-14).

 

 

  1. PERFIL DA COMUNIDADE DE DISCÍPULOS

 

A Igreja enfrenta hoje uma grande dificuldade, que consiste em ser constituída por uma multidão de homens e mulheres batizados e, portanto, oficialmente cristãos, mas que, em parte, não se sentem discípulos de Jesus Cristo, nem na mente, nem no coração, nem na vida.

A comunidade de discípulos tem como primeira vocação seguir Cristo pelo caminho da santidade, pois como ensinou o Concílio, “todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4)” (CONCÍLIO VATICANO II, Lumen Gentium 39). No entanto, muitos são aqueles para quem esse desafio ainda não se tornou um desejo assumido.

O caminho da santidade é o caminho do seguimento de Cristo, por meio da fé, na Igreja. Inclui algumas atitudes fundamentais, que a Igreja deve ajudar a tornar conscientes nos seus fiéis, dentre as quais se destacam algumas que a seguir proponho à consideração.

-      O reconhecimento do amor de Deus, revelado em Jesus Cristo, e a disponibilidade para permanecer n’Ele, como nos pediu: “permanecei no Meu amor” (Jo 15, 9). Pelo amor permanecemos unidos a Cristo, permitimos que Ele entre na nossa vida e partilhamos da sua riqueza e do mistério da sua santidade.

-      Aceitar e viver o mandamento do amor até às últimas consequências é caraterística essencial do seguimento de Cristo, pois esse foi o sinal que nos deixou de que Deus nos ama e a razão que nos deu para nos amarmos uns aos outros. A fidelidade ao mandamento do amor constitui o sinal maior da adesão a Cristo por meio da fé e é o distintivo do cristão.

-      A cruz, enquanto disponibilidade para escolher em tudo a vontade de Deus, tem um lugar central na imitação de Cristo por parte dos seus discípulos. Ele escolheu salvar a humanidade carregando com a cruz dos seus pecados, oferecendo a Sua vida por todos os que estavam perdidos, e disse-nos: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24).

-      O estilo de vida traçado por Jesus para os que quiserem segui-l’O é o das Bem-aventuranças, carta magna da condição cristã. O amor preferencial pelos pobres, a misericórdia para com todos os aflitos, o serviço aos mais pequenos, a construção da paz e da justiça, a caridade para com os que andam dispersos, perdidos e abandonados, são algumas das atitudes que definem o agir cristão segundo o estilo e o programa de Jesus.

-      O discípulo de Cristo elege como sua marca o serviço a Deus e aos irmãos, tal como o Mestre que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida (cf Mt 20, 28). Ao lavar os pés aos Apóstolos durante a Última Ceia, Jesus quis evidenciar, no momento derradeiro que antecede a Sua morte e ressurreição, o que significa ser discípulo no meio do mundo: “dei-vos o exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também” (Jo 13, 15).

-      A comunidade cristã, que se realiza na família, na pequena comunidade, na paróquia, no arciprestado, na unidade pastoral e na diocese, é o lugar onde se é discípulo de Cristo. Daí que seja essencial para o discípulo o sentido de pertença à Igreja, o amor à Igreja e a colaboração generosa com a missão da Igreja, concretamente com a missão evangelizadora da Igreja. Só se é discípulo pela mediação da Igreja, a Mãe que acolhe todos os filhos e que partilha com eles a alegria de os congregar na assembleia dos que seguem os passos do Cordeiro para onde quer que vá (cf Ap 14, 4).

-      Ser discípulo é ser missionário, tal como decorre do testemunho do grupo dos doze, dos setenta e dois ou da multidão dos crentes que abraçaram a fé, de acordo com os relatos do Novo Testamento. No entanto, o Papa Francisco quis acentuar esta certeza e apresentá-la de novo à Igreja da atualidade na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho: “Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários»” (120).

-      Não se pode, portanto, ser discípulo de Cristo sem ser missionário, isto é, sem se assumir a tarefa de dar a conhecer a alegria do Evangelho aos irmãos, por meio do anúncio explícito e por meio do testemunho de amor à Verdade. Do mesmo modo, não se pode ser missionário do Evangelho sem ter aderido a ele com a inteligência, com o coração e com a vida, pois as palavras soariam ocas e a tentativa de testemunho seria hipocrisia.

-      A condição de discípulo missionário tem a sua origem em Cristo e na igual dignidade de todos os batizados, que nasceram pela água e pelo Espírito Santo, foram incorporados na Igreja e participam dos diferentes ministérios e carismas para a edificação do único corpo.

-      Na variedade das vocações, laicais, de consagração ou sacerdotais, cada cristão é discípulo missionário e participa da solicitude da Igreja, toda ela discípula missionária, na fidelidade a Deus e no serviço à comunidade humana.

 

 

  1. URGÊNCIA  DA FORMAÇÃO DE COMUNIDADES DE DISCÍPULOS

 

A Igreja tem como uma das suas primeiras missões, formar discípulos de Jesus Cristo em todos os tempos e lugares da história. Esta é uma responsabilidade de todo o Povo de Deus, tanto na singularidade dos seus membros, como constituídos em comunidades nas diversas formas institucionais de pertença à Igreja.

A grande dificuldade que enfrentamos no nosso contexto eclesial é a de ainda não estarmos suficientemente persuadidos da necessidade de evangelizar este nosso mundo, nem de trabalhar para criar discípulos de Jesus Cristo. Em grande medida, ainda estamos persuadidos da ideia de que ser discípulo é um dom que recebemos para consumo próprio e não para o serviço da comunidade crente; ainda desligamos facilmente a condição de discípulo da condição de missionário ou evangelizador. Provimos, de facto, de uma cultura cristã em que se supunha que todos éramos discípulos de Jesus Cristo; em que se dava como adquirida a certeza de que a adesão institucional à Igreja significava também a adesão pessoal e vital ao Senhor.

A Igreja que hoje somos no Ocidente não foi educada para evangelizar, nem para proporcionar o encontro pessoal com Cristo; não foi preparada para fazer discípulos, mas sim para gerir instituições onde as pessoas se incluíam naturalmente. A formação para a abertura a Deus, para a adesão a Jesus Cristo, para a progressão no caminho da fé era em grande parte protagonizada pela família e, frequentemente, pela escola e pela sociedade. A paróquia tinha um papel complementar, uma vez que recebia crianças já iniciadas no sentido da fé e na experiência de Deus, na oração e na vida cristã.

Em grande parte, estamos ainda hoje a fazer uma catequese da infância que supõe a adesão das crianças a Jesus Cristo e à sua Igreja, e que, por isso, não produz os frutos esperados. De facto, no mundo da cristandade que já não somos, bastava propor a doutrina cristã na paróquia, uma vez que o restante trabalho era feito no seio da família e da sociedade.

Agora, toda a iniciação cristã, que inclui o caminho de fé, a adesão e compromisso com Cristo, o sentido da pertença à Igreja e a inserção viva e ativa nela, são, para a maioria dos casos, tarefa do processo catequético protagonizado pela comunidade cristã, normalmente pela paróquia, mas também por outras instituições como a escola católica, o movimento de espiritualidade ou outras formas de realização da comunidade cristã.

Embora saibamos que família é a primeira responsável pela educação cristã dos seus membros, e procuremos que ela assuma o seu lugar, não podemos, enquanto comunidade cristã, supor que ela realiza adequadamente esse trabalho. Aquilo que na anterior civilização de cristandade era um trabalho supletivo da paróquia ou da instituição eclesial, é, hoje, na civilização pós-cristã, tarefa prioritária da comunidade cristã, que tem de organizar-se devidamente para cumprir a sua missão. Felizmente estão a surgir entre nós meios e formas de ultrapassar este problema, nomeadamente propondo aos pais um caminho de catequese e de fé que acompanhe o dos seus filhos.

Em nenhuma fase etária da vida do cristão e em nenhum estádio do seu caminho já percorrido basta uma apresentação teórica e racional da doutrina cristã, como se se tratasse de um ensinamento a propor e de uma ciência a adquirir.

O processo de iniciação cristã, ou seja, de construção de discípulos de Jesus Cristo, tem de prever alguns aspetos imprescindíveis:

-      inclui um primeiro anúncio enquanto possibilidade de confronto com a novidade do Evangelho e de Jesus Cristo, o mensageiro do amor de Deus;

-      contempla uma séria catequese de forte componente existencial, pela qual se compreende e assimila o lugar de Cristo na vida e se entra numa relação de amor com Ele dentro do espaço da comunidade eclesial;

-      leva sempre a um compromisso vital, que tem expressão nos valores evangélicos que se incarnam e na alegria e esperança cristãs que conduzem a totalidade da existência.

Uma das mais importantes prioridades da Igreja consiste em formar autênticas comunidades de discípulos, utilizando para isso os meios hoje considerados mais adequados, numa perspetiva inovadora e verdadeiramente atualizada do ponto de vista doutrinal e pedagógico. Significa que é necessário, por um lado refletir sobre a situação que se vive na Igreja e no mundo de hoje, conhecer a cultura e o modo de ser das pessoas, das famílias e da sociedade, para que se definam as ações, os métodos e os meios a usar no momento de propor a Boa Nova de Jesus Cristo.

Consciente dos novos desafios que a Igreja encontra no momento de formar comunidades de discípulos, verdadeiramente evangelizados e evangelizadores, o Papa Francisco pede-nos uma autêntica mudança de atitude, a que chama uma pastoral em conversão: “Espero que todas as comunidades se esforcem por usar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma «simples administração». Constituamo-nos em «estado permanente de missão», em todas as regiões da Terra” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 25).

Este apelo não pode ficar esquecido, para que não sejamos infiéis à nossa condição de discípulos missionários nem à identidade da Igreja que, segundo o Concílio Vaticano II, há de estar num contínuo processo de renovação, que “consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação” (CONCÍLIO VATICANO II, Unitatis Redintegratio, 6).

Ser Igreja em estado de missão é, em primeiro lugar, uma atitude, um modo de estar, próprio de quem tem o coração cheio do amor de Deus e da alegria da sua Palavra, a ponto de se sentir irresistivelmente impelido a partilhar com os outros o dom que recebeu.

Todos somos chamados a sentirmo-nos Igreja em estado de missão, sacerdotes, diáconos, consagrados, leigos - a comunidade cristã em todos os seus membros e vocações - todos os discípulos de Jesus Cristo somos convocados para darmos o nosso contributo na geração de novos discípulos por meio do testemunho e do anúncio do Evangelho. Qualquer outro modo de ser Igreja – diocese, unidade pastoral, paróquia - não corresponde aos desafios que o Espírito Santo nos faz no tempo presente e nas atuais circunstâncias do peregrinar do Povo de Deus sobre esta Terra.

 

 

  1. CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO DE COMUNIDADES DE DISCÍPULOS

 

A Tradição da Igreja na sua sabedoria milenar e alicerçada no Evangelho sempre nos ofereceu os meios necessários para que nos formemos na escola dos discípulos de Jesus e sejamos apóstolos do discipulado junto dos nossos irmãos.

Não cabe neste texto uma explanação exaustiva desses meios, da sua importância e do seu lugar. Podem encontrar-se essas referências desenvolvidas em textos do Magistério da Igreja atuais e de grande importância para o nosso tempo, como são a Evangelii Nuntiandi de Paulo VI; a Evangelii Gaudium, de Francisco; e o Documento de Aparecida, da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe.

Permito-me destacar alguns caminhos fundamentais a percorrer em ordem à formação de comunidades de discípulos, que oferecem uma maior relação com os dinamismos que procuramos a partir dos objetivos do Plano Pastoral Diocesano.

 

                                I.            O desejo de conhecer Jesus Cristo

A primeira condição para o discipulado cristão é o encontro com o Mestre, que pode dar-se de muitas formas, em muitos lugares e por muitos meios. Vivemos numa sociedade cujas ânsias espirituais são muito difusas, muito variadas nas suas formas e frequentemente com escassa dimensão sobrenatural.

Por outro lado, as envolventes preocupações quotidianas não deixam margem para os questionamentos fundamentais acerca do sentido da vida e da morte, da felicidade e do desespero, da família, do trabalho ou da realização pessoal.

O individualismo impede as pessoas de abrirem o coração para partilhar o que sentem acerca de realidades que se consideram do foro íntimo, o que torna cada indivíduo uma fortaleza impenetrável e o impede de acolher as provocações acerca da fé ou do lugar de Deus na sua vida.

Para formar comunidades de discípulos é necessário estar disponível, abrir o próprio mundo interior aos outros e entrar no mundo dos outros, ter a paciência e o tempo necessários para estar com eles, aceitar partilhar com toda a simplicidade as questões fundamentais da vida e a própria experiência de fé.

“Todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida” (FRANCISCO, Evangelii Gaudium, 121).

É pelo testemunho límpido de uma vida marcada por Deus e pela alegria do Evangelho que despertaremos nos outros o desejo de O conhecer e lhe abriremos as portas do discipulado.

 

                             II.            A leitura e o anúncio da Palavra de Deus

A Palavra de Deus é lugar onde a Sua voz continua a fazer-se ouvir e, porque está repleta do Espírito Santo, é viva e eficaz, a ponto de provocar a experiência de encontro com Cristo em qualquer tempo da história.

O Evangelho tem um lugar insubstituível enquanto alimento espiritual da vida dos discípulos. Por meio dele, se tem acesso à experiência fundante da Igreja; por meio dele, Cristo Palavra do Pai se torna presente; e, por meio dele, temos acesso à revelação do amor de Deus realizada nos mistérios da vida de Jesus.

A Igreja tem como missão levar o Evangelho a todos os povos e realiza-a por meio de todos os seus membros que o escutam, o leem, o meditam, o rezam e o anunciam de forma explícita, tanto no âmbito familiar, como no meio eclesial, onde tem lugar especial a catequese e a liturgia, e ainda na vida social.

O discípulo deve estar persuadido que “ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”, segundo a célebre frase de S. Jerónimo, e que é preciso dar lugar à Bíblia na Igreja, pois, como disse João Paulo II: “dando a Bíblia aos homens e mulheres, vós dais o próprio Cristo, que enche os que têm fome e sede da Palavra de Deus, que sacia os que têm fome e sede de liberdade” (AA. VV. Guia para ler a Bíblia, São Paulo, Apelação, 1997, p. 12) .

O contato habitual com a Sagrada Escritura é imprescindível para a formação de comunidades de discípulos. Para além da leitura litúrgica ou catequética, da leitura pessoa e familiar, a Tradição da Igreja legou-nos como meio privilegiado de encontro com Deus a leitura orante da Bíblia, ou lectio divina, que continua a revelar-se um poderoso instrumento no caminho da fé e da espiritualidade cristãs e um autêntico milagre no processo de construção das comunidades de discípulos.

 

                           III.            A celebração da liturgia e dos sacramentos

“Encontramos Jesus Cristo, de modo admirável, na Sagrada Liturgia. Ao vivê-la, celebrando o mistério pascal, os discípulos de Cristo penetram mais nos mistérios do Reino e expressam de modo sacramental a sua vocação de discípulos missionários” (CELAM, Documento de Aparecida, 250).

A celebração da Eucaristia constitui o cume da ação da Igreja, para o qual toda a vida cristã se encaminha e do qual tudo deriva. A Eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Cristo, gera e alimenta continuamente a vida de Cristo no coração do discípulo, leva a comunidade cristã a sentir que não nasce de si mesma nem caminha por si mesma, mas tem a sua origem em Deus e segue os passos do Mestre.

Na Eucaristia, “o Espírito Santo fortalece a identidade do discípulo e desperta nele a decidida vontade de anunciar com audácia aos demais o que tem escutado e vivido” (CELAM, Documento de Aparecida 251).

Importa relembrar o lugar e a importância da celebração do domingo na constituição de comunidades de discípulos missionários. A centralidade da Eucaristia percebe-se sobretudo ao domingo, quando a comunidade de discípulos se reúne para escutar a voz do Mestre, entrar na comunhão sacramental com a sua pessoa e sair alegre para viver e anunciar por meio da palavra e do testemunho da caridade.

Grande trabalho temos a realizar em favor da qualidade e da profundidade da celebração da liturgia e, especialmente, da celebração da Eucaristia. Nela, tudo deve concorrer para que seja o lugar privilegiado do encontro da comunidade de discípulos com Cristo.

Todos os elementos devem ser seriamente cuidados para que a comunidade de discípulos cresça: os lugares da celebração, a preparação dos que exercem os diferentes ministérios ordenados ou laicais, a pregação, o ambiente de silêncio, o acolhimento, o canto.

Uma vez que a Missa é o rosto mais visível da Igreja e o lugar em que maioritariamente se dá o contato com a Igreja, ela deve ser sumamente expressiva da realidade da fé que a comunidade vive e do espírito com que celebra, para que constitua para os que chegam de fora ou têm um contato esporádico com ela um verdadeiro lugar de evangelização.

 

                           IV.            A catequese de adultos ou formação contínua

A catequese está ao serviço da formação de discípulos que tenham Jesus Cristo, o Salvador, como o centro das suas vidas; favorece a progressão na vida humana e cristã baseada na oração, no amor à Palavra de Deus, na vivência dos sacramentos e na participação na Eucaristia; conduz à inserção na comunidade eclesial e à prática da caridade cristã.

Entre nós, o percurso catequético conducente à iniciação cristã das crianças está planeado e a funcionar regularmente. O mesmo não se pode dizer relativamente às propostas a fazer aos adultos que não fizeram a iniciação cristã ou precisam de avivar a fé, o sentido de pertença à Igreja e o dinamismo cristão da existência.

A catequese de adultos ou formação contínua dos cristãos constitui um meio privilegiado de levar o cristão a crescer como discípulo de Cristo, a conhecê-l’O melhor, a aderir interiormente a Ele e a segui-l’O de forma mais esclarecida, decidida e entusiasta. Leva o cristão a retomar a prática da leitura orante da Palavra de Deus; a voltar à celebração dos sacramentos, tantas vezes abandonada, e a regressar à participação na Eucaristia, compreendida e amada; a penetrar nos mistérios da vida de Cristo e da fé transformadora da totalidade da vida; a percorrer o caminho de uma conversão mais profunda e a lançar-se na aventura da missão.

A catequese de adultos deve obedecer a um programa de inspiração catecumenal, que integre as diversas dimensões da formação integral do cristão e o leve a percorrer um caminho de encontro com Cristo porventura nunca realizado, ou realizado de modo de tal maneira incompleto e parcial que não teve a capacidade de sustentar a sua opção.

Tendo em conta que grande percentagem dos cristãos não tem uma consciência bem viva e operante da sua fé, a catequese de adultos ou formação permanente é uma necessidade e uma urgência, que não podemos continuar a adiar.

No novo contexto em que a Igreja vive, não pode haver comunidade cristã, paróquia ou unidade pastoral, que não proponha um itinerário catequético aos adultos já batizados ou que já completaram a iniciação cristã, mas querem ir mais longe e estão disponíveis para aceitar o desafio de continuar a fazer caminho como discípulos de Jesus Cristo, de viver a sua fé em Igreja e de darem o seu contributo para que o Reino de Deus cresça e se torne presente no mundo.

O investimento sério neste domínio coincide com uma das linhas de força do XII Sínodo Diocesano, quando disse: A catequese de adultos deve merecer uma atenção privilegiada. Embora pondo grande esforço na formação cristã das crianças e jovens, a formação cristã de adultos deve ser assumida como prioridade pastoral” (XII Sínodo Diocesano, Coimbra, 1999, p. 49)

 

 

CONCLUSÃO

 

Amados irmãos e irmãs, na conclusão desta reflexão e destas orientações dirigidas a toda a Diocese, quero manifestar a alegria que sinto por ver esta “porção do Povo de Deus”, que é a nossa Igreja Particular de Coimbra, a fazer um caminho consistente de aprofundamento da fé e a crescer no dinamismo do discipulado missionário.

Deve deixar-nos felizes perceber que as opções pastorais que estamos a fazer e que estão verbalizadas no Plano Pastoral Diocesano, vão claramente ao encontro das linhas de orientação que a Igreja Universal nos tem dado nos últimos tempos. Vemos aí uma confirmação de que, na comunhão da Igreja, estamos a procurar seguir os caminhos que o Espírito de Deus nos sugere para os tempos que vivemos.

Têm sido muito fortes as emoções vividas durante a visita pastoral que efetuei a dois arciprestados, o de Cantanhede e o do Baixo Mondego, sobretudo por perceber que a Igreja está bem viva e operante. Foi ocasião para o encontro do pastor com o povo que lhe foi confiado, para que o conduza às nascentes da água viva, que brota do Senhor Jesus Cristo. Este ano pastoral continuarei pelos arciprestados da Figueira da Foz e de Pombal e nos três anos seguintes espero percorrer a outra parte da Diocese, ou seja, os arciprestados de Chão de Couce, Alto Mondego, Nordeste, Coimbra Norte, Coimbra Sul e Coimbra Urbana.

Registo com muito agrado o progresso espiritual e pastoral que se vê em muitas paróquias, onde sacerdotes e leigos se entregam com entusiasmo à causa do Evangelho e da edificação da Igreja. Assinalo com muito agrado a forte adesão que tiverama algumas iniciativas inseridas no contexto do Plano Pastoral Diocesano, como foram a peregrinação a Fátima, e a constituição de grupos para a leitura orante da Palavra de Deus (lectio divina) no Advento e na Quaresma.

Peço uma atenção muito especial do Povo de Deus para o conhecimento do Plano Pastoral da nossa Diocese, dos objetivos nele delineados, e para as ações que estão calendarizadas a nível diocesano.

A Igreja Universal, pela voz do Papa Francisco, pede-nos renovação e mudança de atitude pastoral, e nós, em toda a Diocese, procuraremos corresponder, sempre em clima de fraternidade, amizade e comunhão.

Uma vez que iremos trabalhar para sermos melhores discípulos de Jesus Cristo e que Nossa Senhora foi a primeira e a mais santa de todos eles, confio-lhe, juntamente com todos vós, a nossa solicitude em favor do crescimento das nossas comunidades de discípulos missionários.

 

Coimbra, 7 de agosto de 2014

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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