Celebrar a vida na dor e na morte :: Orientações pastorais

DIOCESE DE COIMBRA

CELEBRAR A VIDA NA DOR E NA MORTE
ORIENTAÇÕES PASTORAIS

PALAVRA DO BISPO

A Igreja é chamada a uma atenção contínua à pessoa humana em todas as suas alegrias e dores. Para ser fiel à sua vocação, precisa de refletir e atualizar permanentemente o modo como acompanha os fiéis, tendo em conta as grandes mudanças operadas na sociedade e na Igreja, que deram origem a uma atitude diferente face à vida, à dor, à morte e ao luto.

Frequentemente assistimos a uma crescente privatização de tudo o que respeita à doença e à morte, com um consequente afastamento das pessoas e da comunidade nesses momentos tão marcantes para todos. A comunidade cristã, precisamente por ser comunidade, há de estar presente de modo ativo e acompanhar esses passos decisivos da vida dos seus membros, manifestando solidariedade, comunhão e amor.

Quando as pessoas estão numa situação de maior debilidade é mais urgente uma presença animadora e consoladora da comunidade cristã. Trata-se de um imperativo da lei da caridade de Jesus, desenvolvida pelo Evangelho de Mateus e pela tradição cristã nas obras de misericórdia corporais e espirituais.

Toda a ação da Igreja deve estar marcada por um dinamismo e uma intenção evangelizadora, pois ela existe para anunciar o Evangelho da salvação de Jesus Cristo[1]. Significa que também a ação da comunidade junto dos doentes, dos idosos, das famílias em luto, deve ter uma intenção evangelizadora, embora no respeito total pelas opções de cada pessoa.

O Conselho Presbiteral da Diocese de Coimbra, consciente da necessidade que temos de melhorar o modo como acompanhamos as pessoas na doença, na morte e no luto, refletiu longamente sobre a realidade que temos e apresentou algumas linhas de ação pastoral julgadas oportunas.

Proponho, agora, a todo o Povo de Deus da Diocese o resultado desse trabalho e convido os presbíteros e diáconos, juntamente como os conselhos pastorais, as equipas de animação pastoral e outros agentes da ação pastoral, a refletirem atentamente sobre este texto e a encontrarem as formas mais adequadas para o concretizar.

Coimbra, 3 de julho de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

 

INTRODUÇÃO

«Sei que um dia vou morrer embora não saiba como, nem quando. Num certo lugar, bem no fundo de mim, sei disso. Sei que um dia terei de deixar os que me são mais queridos, a não ser que sejam eles a deixar-me antes. É esse saber mais profundo, mais íntimo, o que tenho de comum com todos os outros humanos. Por isso é que a morte de outrem me toca. Ela permite-me penetrar no âmago da única verdadeira questão: que sentido tem, então, a minha vida?»[2].

Os seres humanos são os únicos que enterram os seus mortos e a teologia vê nos ritos uma expressão dos valores de uma comunidade de crentes. A finalidade dos ritos cristãos não é apenas honrar os corpos, mas celebrar a memória do defunto e, principalmente, colocar o acontecimento da morte no horizonte da esperança cristã porque ninguém celebra a morte - celebramos a vida: a vida terrena e a vida eterna. A morte é o ‘tempo da passagem’, uma Páscoa, da terra da escravidão para a Terra Prometida.

É claro que os ritos assumem um significado mais profundo na medida em que os presentes os compreendem e participam neles. O desafio missionário está no saber interpretar a dor, os anseios e as dúvidas e em iluminar a escuridão da morte com a luz da fé. «Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há de chegar a todos, sem exceção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, ‘àqueles que não têm com que te retribuir’ (Lc 14, 14). (…) Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!»[3]

O Evangelho revela-nos com clareza a atitude de Jesus diante da doença e da morte: aproxima-se, enche-se de compaixão, chora, toca, anima e dá vida. Basta recordar os seus gestos e as suas palavras quando se encontra com o filho único da viúva de Naim, com a filha (única) de Jairo e com o seu amigo Lázaro (cf. Lc 7,11-17; Lc 8,49-55 e Jo 11,1-44). A comunidade cristã é desafiada a ‘continuar’ estes gestos e estas palavras do Senhor, é desafiada a sair da própria comodidade e a ter a coragem de levar a luz do Evangelho a todos os que vivem a dor e o sofrimento.

 

I. ACOMPANHAR E CELEBRAR NA DOR E NA MORTE

1. ACOMPANHAR A PESSOA DOENTE

A comunidade cristã não pode descurar o acompanhamento dos doentes e das suas famílias, especialmente os doentes que estão em fase terminal ou em situação de sofrimento prolongado. Esta atenção especial faz parte do múnus pastoral da comunidade, de modo especial dos sacerdotes[4].

Neste sentido, «a Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta arte do acompanhamento, para que todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã»[5].

«Os Evangelhos e sobretudo o sacramento da Unção mostram claramente a solicitude corporal e espiritual do Senhor para com os doentes. Instituído por Ele e promulgado na epístola de S. Tiago, logo se introduziu na Igreja o costume de o celebrar, por meio da unção e da oração dos presbíteros pelos doentes, recomendando-os ao Senhor padecente e glorificado para que Ele os alivie e salve (cf. Tg 5, 14-16) e ainda exortando-os a que se associem livremente à paixão e morte de Cristo (Rom 8, 17), e assim contribuam para o bem do povo de Deus»[6].

Por isso, devemos reconhecer e valorizar o muito que a comunidade cristã já faz, nomeadamente a visita regular aos doentes e a tantas pessoas que vivem a difícil experiência da solidão levando-lhes Cristo na sagrada comunhão, no sacramento da reconciliação, na unção dos doentes. Uma missão que conta com o empenho de muitos sacerdotes, ministros extraordinários da comunhão e tantos voluntários ligados a grupos paroquiais ou a movimentos. A estes pede-se que ajudem as famílias a reconhecer a importância e o valor salvífico destes gestos sacramentais para quem na debilidade, no sofrimento e na solidão pode encontrar no Senhor alívio e esperança.

Faça-se uma catequese, especialmente do sacramento da unção dos doentes, tanto individual como comunitária, para que este seja celebrado sem receios e com uma verdadeira compreensão cristã do mistério da doença e da morte. Frequentemente este sacramento ainda é visto como um pré-anuncio da morte – extrema unção – e, por isso, evitado ou adiado para os últimos momentos da vida, quando o próprio já não está consciente.

2. REZAR NA HORA DA MORTE

Quando as famílias são confrontadas com a notícia da morte de um ente querido, a dor deve ser iluminada com a esperança que só a oração pode dar. Importa que todos procurem criar um ambiente sereno e profundo que possa ajudar a viver este momento de dor. Neste sentido, a comunidade deve promover práticas de oração.

Assim, «é muito aconselhável que, segundo os costumes locais, na casa do defunto ou na casa mortuária, os amigos e familiares do defunto se reúnam, antes da celebração das Exéquias, para celebrar uma vigília de oração. Esta vigília ou celebração da Palavra de Deus, pode ser presidida por um ministro sagrado ou, na sua ausência, pode ser dirigida por um fiel leigo»[7]. Nesta vigília é «muito oportuno que se celebre, total ou parcialmente, a Liturgia das Horas»[8], podendo esta ser enriquecida com outros textos da Sagrada Escritura ou da Tradição da Igreja. «Em muitos lugares, durante a vigília (…), é costume rezar-se o terço ou o rosário»[9]. É bom que se conserve este oportuno e salutar ‘exercício de piedade cristã’[10]. 

Este momento de oração pode ser uma forma de ajudar a criar um ambiente de recolhimento e de profundidade espiritual evitando, deste modo, o frequente ruído e a conversa banal que, tantas vezes, cansa os familiares e não os ajuda a celebrar a fé.

3. CUIDAR DA CELEBRAÇÃO EXEQUIAL

Na preparação da celebração exequial procure-se, quanto possível, uma maior articulação entre aquele que irá presidir e a própria família. Para que tenha em conta, não só a pessoa do defunto e as circunstâncias da sua morte, mas também a dor dos seus familiares[11], esta articulação deve procurar uma maior envolvência da família e da comunidade na própria celebração exequial. 

Com efeito, «ao celebrar as exéquias dos seus irmãos, procurem os cristãos afirmar sem reservas a esperança na vida eterna (…), acolham de boa vontade tudo o que de bom encontrarem; mas o que de algum modo pareça contrário ao Evangelho, procurem transformá-lo, de modo que as exéquias celebradas pelos cristãos exprimam a fé pascal e manifestem o espírito verdadeiramente evangélico»[12].

Neste sentido, «lembrem-se também todos, especialmente os sacerdotes, de que, ao encomendarem a Deus os defuntos na liturgia exequial, têm o dever de reanimar nos presentes a esperança e reavivar a fé no mistério pascal e na ressurreição dos mortos; façam-no, porém, com delicadeza e com tacto, de modo que, ao exprimir o amor materno da Igreja e a consolação da fé, as suas palavras animem os crentes, mas não ofendam os tristes»[13].

O sacerdote, enquanto ministro da consolação[14], deve ter presente que a celebração, especialmente a eucaristia, é um momento privilegiado de evangelização quer para a família enlutada quer para todos os que estão presentes. Nestes momentos, muitos dos que andam mais afastados da prática cristã, regressam à comunidade e esperam uma palavra que toque o coração e possa reacender a fé em Cristo.

Que todas as celebrações exequiais sejam bem preparadas a fim de proporcionarem um ambiente sereno, profundo e adequado à natureza do mistério celebrado. Cuide-se especialmente das celebrações quando se trata de pessoas mais novas, de situações de morte inesperada ou de pessoas mais visivelmente intervenientes na vida da comunidade cristã.

4. ACOMPANHAR AS FAMÍLIAS ENLUTADAS

Acompanhar as famílias enlutadas é uma fase muito importante do todo este processo que requer sabedoria, presença e gestos concretos. Para reforçar esta atitude e dinamismo consideramos necessário estar atento a vários aspetos que possam ajudar os vivos a conviver com a perda de uma pessoa querida. É precisamente com essa finalidade que, de modo sucinto, seguindo de perto Arnaldo Pangrazzi[15], deixamos alguns elementos que nos podem ajudar nesta reflexão:

a. Familiarizar-se com todo o processo de luto através de leituras de artigos informativos, de conversas com pessoas especializadas e de diálogos com pessoas que já viveram situações semelhantes. Este conhecimento mais concreto permite acompanhar quem sofre com maior serenidade e com a consciência fundamental de que a própria presença significa apenas companhia na caminhada e não eliminação da dor.

b. Evitar frases feitas tão frequentes nestes momentos como ‘procure esquecer’, ‘foi melhor assim’, ‘ele está melhor que nós’, ‘foi vontade de Deus’, ‘só Deus tem os que mais ama’, ‘Deus levou-o’, ‘Deus precisava dele!’, ‘tem sorte, pois tem outros filhos’, ‘coloque uma pedra sobre o passado’, ‘seja forte diante das crianças’, ‘Deus gostava da tua mãe e levou-a para junto d’Ele’, ‘o vosso filho é a flor que desabrocha na primavera da eternidade’... Estas e outras frases feitas podem magoar a pessoa que tentamos consolar, porque não se pode com uma simples frase minimizar o sofrimento decorrente de uma perda nem evitar o vazio afetivo que fica depois da morte de uma pessoa querida. É precisamente nestes momentos que compreendemos que é mais importante saber o que não se deve dizer do que o que se há de dizer.

c. Dar espaço aos sentimentos e aos desabafos daquele que sofre sem julgar nem criticar. Um saber ouvir que não procura dar logo respostas a todas as questões levantadas, nem tem a preocupação de resolver todos os problemas sugerindo soluções prematuras. Uma relação de profunda empatia, que diz: ‘é natural que te sintas assim’ em vez de ‘não deves sentir-te assim’, ou ‘a perda do teu marido causa-te profunda tristeza’ em vez de ‘não fiques triste’, ou ainda ‘é duro recomeçar’ em vez de ‘tens que esquecer o que aconteceu’.

d. ‘Estar junto de’ através de uma palavra sincera, de um gesto simples, de um silêncio. É preciso valorizar esta presença, de tal modo, que aquele que sofreu a perda se sinta acolhido totalmente como é e na situação em que se encontra. No fundo, uma presença que compartilha a dor e o sofrimento de quem está em luto. Este contacto pode ser feito de várias maneiras: uma visita, um telefonema, uma carta, um e-mail, propor um passeio, convidar para tomar café... Na verdade, com frequência corre-se o risco de se concentrar toda a solidariedade humana no dia do funeral e, depois, quando precisamente o vazio se torna doloroso, essa solidariedade desaparece. Neste manter o contacto revestem-se de particular importância as datas especiais como o dia de aniversário e o natal.

e. Cultivar das recordações, através de fotografias e de momentos da vida familiar, dá sentido ao seu amor e, por isso, à dor da sua perda. Nestas fases iniciais do luto, a tendência é de olhar para trás e não para a frente, o que sendo bem orientado, permite encontrar a força que brota do passado para poder encarar o futuro. Quem quer ajudar deve estimular a fazer escolhas construtivas que superem os sentimentos de impotência e depressão em que muitos caem depois da morte de uma pessoa que amam. Aquele que é motivado a olhar em frente começa a crescer, assume a dor e integra-a, sem a evitar ou ignorar, na sua vida.

f. Respeitar a diversidade das reações. Há quem reaja a uma perda serenamente e há quem chore desoladamente; há quem sinta necessidade de visitar o túmulo todos os dias e quem não queira voltar ao local; há quem deseje companhia e quem queira ficar só; há quem fique a folhear o álbum de fotografias e quem não as queira ver mais... Quem quiser realmente ajudar não pode determinar o que para o outro é certo ou errado porque cada pessoa tem o seu ritmo e faz o seu percurso – desde que não se caia num ‘luto patológico’.

g. Ser um sinal se esperança que ajuda a reagir à dor sem colocar expectativas irreais, que ajuda a olhar para além do sofrimento sem o esquecer, que ajuda a investir a energia no futuro sem escamotear o passado. Ser sinal de esperança é educar para a esperança, transformando cada pequeno passo num estímulo para prosseguir.

h. Promover o envolvimento de toda a comunidade no acompanhamento de quem está de luto. Com efeito, o sofrimento de um membro interpela toda a comunidade que se deve mobilizar e tornar presente, principalmente a comunidade cristã. Desde logo, os vizinhos ou os que estão mais próximos afetivamente são desafiados a serem ‘bons samaritanos’ (cf. Lc 10,29-37), a compadecer-se e a cuidar, lutando assim contra a ‘globalização da indiferença’ (cf. EG 54).

 

II. ORIENTAÇÕES PASTORAIS

1. Que cada unidade pastoral procure anunciar a esperança cristã nos momentos de luto e de dor, desenvolvendo uma pastoral de acompanhamento aos doentes e às famílias enlutadas. Neste sentido, procure-se que, em cada paróquia ou unidade pastoral, haja grupos dedicados a esta missão (ministros da comunhão, visitadores dos doentes, Movimento da Mensagem de Fátima, Legião de Maria, grupos sócio caritativos, irmandades e outros).

2. Estes grupos poderão ser de grande ajuda à comunidade na reflexão sobre a concretização do evangelho da consolação e da esperança: propondo a celebração comunitária do sacramento da unção dos doentes; promovendo tempos de oração, antes e depois da morte; preparando materiais de apoio para os diferentes momentos.  

3. Os párocos e os grupos de acompanhamento promovam a cooperação com as capelanias hospitalares e outras instituições (lares, unidades de cuidados continuados e paliativos…), atendendo ao facto de hoje grande parte das pessoas viverem os últimos momentos da vida fora do seu ambiente familiar.

4. Na programação das exéquias procure-se que haja uma articulação harmoniosa entre todos os intervenientes: a família, o pároco e a agência funerária.

5. Proporcionem-se momentos de oração e de vigília durante o velório, respeitando sempre a vontade dos familiares, sem deixar de apresentar a oração como um encontro reconfortante com o Senhor ressuscitado.

6. O velório realiza-se na casa do defunto ou nas casas mortuárias. Não havendo casa mortuária pode realizar-se em capelas onde não se conserve o Santíssimo Sacramento. As casas mortuárias não devem ser designadas como capelas mortuárias uma vez que não são lugares de culto.

7. O levantamento do corpo, do local de velório para a igreja, seja feito pelo ministro ordenado, ou um ministro idóneo indicado pelo pároco, desde logo, os orientadores das celebrações das exéquias.

8. Nas celebrações exequiais, incentive-se uma maior participação da assembleia reunida nos vários ministérios litúrgicos (leitores, cantores e outros), valorizem-se os sinais litúrgicos (o círio pascal, a cruz, o Evangelho ou a Bíblia, o incenso e a água benta) e as procissões sejam dignificadas com a cruz e as lanternas que a acompanham bem como com as Irmandades, caso as haja.

9. Sempre que possível, seja um presbítero ou um diácono a presidir às celebrações fúnebres, admitindo-se que só extraordinariamente seja um ministro leigo designado pelo bispo diocesano.

10. Conserve-se, quanto possível, o costume de celebrar as exéquias com a eucaristia, memorial da páscoa de Cristo em que a Igreja eleva orações de sufrágio pelos defuntos.

11. As exéquias sejam celebradas na igreja paroquial, porque nela se nasce para a vida cristã, nela se alimenta a fé e dela se parte para a casa do Pai. Excecionalmente, dada a localização de alguns cemitérios, admite-se outro lugar de culto mais conveniente. Não se celebrem as exéquias nas casas mortuárias.

12. Valorize-se e recorde-se a dor do luto e a vivência da esperança nas celebrações da comunidade. Neste contexto, sempre que possível, mantenham-se as celebrações do 7º dia, do 30º dia ou ainda do aniversário, sendo estas sempre integradas no calendário habitual das celebrações da comunidade.

13. «A Igreja prefere que se conserve o costume tradicional de sepultar os corpos dos cristãos, porque com este gesto se imita melhor a sepultura do Senhor. Os fiéis têm, contudo, a liberdade de preferir a cremação do seu próprio corpo, sem que esta escolha impeça a celebração dos ritos cristãos»[16].

14. As cinzas do defunto devem ser conservadas no cemitério[17]. «Em caso algum a urna com as cinzas do defunto poderá levar-se de novo à igreja para a comemoração do aniversário ou noutras ocasiões»[18].

15. «Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adotadas razões de ordem higiénica, social ou económica a motivar a escolha da cremação»[19]. «No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das mesmas na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito»[20].

 

CONCLUSÃO

A dor da morte, para os cristãos, é iluminada pela esperança na ressurreição. De facto, o grande milagre que Deus fez não foi acabar com a nossa morte mas mostrar que a morte não tem a última palavra, não foi explicar o sofrimento mas mostrar como podemos lidar com ele. A verdade é que a fé não protege da dor, mas ajuda a enfrentá-la. A fé não preenche o vazio da perda de um ente querido mas diz que a morte não é o fim… porque o ‘amor é tão forte como a morte’ (cf. Ct 8,6).

 

Notas

[1] Cf. PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 27.

[2] Marie Hennezel, Diálogo com a morte, Lisboa 31999, 11.

[3] PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 48.

[4] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 26.

[5] PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 169.

[6] Ritual da Unção e Pastoral dos Doentes, nº 5.                                      

[7] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 39.

[8] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 41.

[9] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 42.

[10] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 42.

[11] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 19.

[12] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 2.

[13] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 18.

[14] Cf. Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 17.

[15] Cf. A. PANGRAZZI,Conviver com a perda de uma pessoa querida, Lisboa 1999, 147-158.

[16] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 149.

[17] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 5.

[18] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 152.

[19] Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 7.

[20] Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 8.


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