Dia da Marinha 2019 - Homilia de Dom Virgílio

DIA DA MARINHA
MISSA DO V DOMINGO DA PÁSCOA
IGREJA DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

A celebração do Dia da Marinha, aqui, na cidade de Coimbra, dá-nos a oportunidade de vir a um dos lugares mais significativos da génese da Nação que somos, alicerçada na fé e no amor à cruz de Jesus Cristo que, juntamente com a devoção a Maria nas suas mais belas invocações, sempre acompanhou os sonhos e as rotas de conhecer mais mundo.

Fazemos memória do passado, pois somos herdeiros de um património humano, religioso e cultural, que se fundem naquilo que nos define como cristãos, como portugueses, como instituições e como pessoas.

Somos agradecidos porque muitos nos precederam e, com a fortaleza da sua fé, o rasgo da sua sabedoria e a ousadia da sua entrega, nos abriram horizontes que podemos, ainda hoje, explorar e percorrer.

Desde a sua fundação, em 1131, por D. Telo, D. João Peculiar e S. Teotónio que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi lugar vocacionado para o silêncio do claustro, para a interioridade da liturgia, para o cultivo da fé, mas igualmente lugar de promoção da escola e do ensino, da escrita e da biblioteca, da investigação e da cultura.

Sendo pequena, a Nação Portuguesa nasceu alicerçada na complementaridade dos grandes pilares que projetam para longe qualquer povo: a fé, como abertura ao mistério de Deus que nos envolve; a razão como abertura ao mistério do que somos e fazemos; o engenho e a arte como possibilidade de passar do sonho à realização da obra, por grande ou pequena que seja. O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, juntamente com outros centros de vida monástica espalhados pelo país, a Escola da Catedral, na Sé Velha, e a Universidade, tiveram a imensa prerrogativa de ajudar a caldear a verdadeira síntese destes pilares da nossa identidade sedimentados ao longo de séculos como resultado da influência civilizacional grega e romana, encimada pela profunda matriz judaico-cristã.

Neste dia da memória e da gratidão, estamos certos de que a Marinha Portuguesa, com a sua longa história e os feitos realizados, encontra também o seu profundo distintivo e a grandeza da sua alma neste húmus lentamente elaborado pelos que nos precederam desde os alvores da nacionalidade e que, neste lugar que nos acolhe, ganham particular significado.

Sair, caminhar, peregrinar, viajar, fez sempre parte integrante da nossa condição humana e teve variadas configurações ao longo da história. Faz parte de nós a insatisfação, o querer ir mais longe, o dinamismo de dar e receber, a ânsia de conhecer e desvendar mistérios, a necessidade de comunicar e partilhar o que somos, o que pensamos e o que temos.

Os Apóstolos de Jesus, com o coração cheio de uma novidade portadora de esperança, puseram-se a caminho, pois não podiam reter para si algo que sentiam ser para todos. Por terra ou por mar, como narra o Livro dos Atos dos Apóstolos, partiam para realizar a obra sonhada e gratos pela ação que a graça de Deus lhes permitira realizar. Contaram à Igreja reunida o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé. Este empreendimento começou com muito pequenas dimensões, mas, porque ancorado numa imensa força interior, num espírito de entrega a toda a prova e, sobretudo porque era portador de esperança para muitos, alastrou e deixou as marcas que conhecemos em toda a terra.

Esta motivação e esta intencionalidade não foram alheias aos nossos antepassados que, inconformados e sonhadores, movidos pelo desejo de conhecer, de comunicar, de dar e receber, se puseram a caminho e se fizeram ao mar. O Evangelho, portador de esperança, chegou mais longe com a sua ação; deram continuidade à missão dos discípulos e também eles puderam contar tudo o que Deus fizera com eles: como abrira aos gentios a porta da fé e como se edificaram alicerces de esperança.

Na tradição judaico-cristã, o mar, o rio e as águas que podem ser lugar de morte, assumem de modo especial o significado da esperança e da vida: a passagem do Mar Vermelho, caminho de liberdade e de futuro para os Hebreus, a passagem do rio Jordão, que marca a entrada na Terra Prometida, terra onde corre leite e mel; a entrada na fonte do batismo, que nos faz nascer de novo como filhos e como irmãos com as portas abertas para o futuro da salvação.

É impossível ainda hoje falar do mar sem trazer à memória a onda de migrantes e refugiados que cruzam as águas do Mediterrâneo animados pelo sonho das condições de vida dignas, da liberdade e da paz. Diante de tantas razões facilmente arquitetadas para lhes fechar as portas do acolhimento e as janelas da esperança, tem de erguer-se o mandamento novo de Jesus, sinal maior do caminho feito pela civilização cristã: “amai-vos uns aos outros”. Não se pode matar o sonho a quem chega com fome e sede, doente, criança, jovem ou adulto, que experimentou na própria pele os horrores da violência, da guerra ou simplesmente da carência de horizontes de futuro feliz.

A experiência de cruzar os mares, bem caraterística dos portugueses, a par com a experiência das nossas migrações de diferentes épocas, há de fazer-nos compreender e dar resposta a tantos outros que, em situações porventura mais dramáticas, se aproximam dos portos da Europa e das fronteiras de países e continentes em busca de pão e de paz.

A voz do Papa Francisco, em nome do Evangelho e da humanidade tem-se feito ouvir a propósito das migrações, numa proclamação não unanimemente acolhida: “Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a olhá-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz” (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2018).

Caríssimos irmãos e irmãs, ser construtor de paz e promotor da esperança é vocação de toda a humanidade. É vocação dos que permanecem em terra e dos que têm a ousadia de cruzar os mares, é vocação nossa. O encontro, o diálogo, a permuta de dons, o encontro de culturas, o acolher e sentir-se acolhido, o respeito pela dignidade de todos, são os caminhos a percorrer. Numa palavra, o amor de Deus e o amor humano é a única realidade capaz de gerar “um novo céu e uma nova terra”, onde se enxuguem as lágrimas de todos os olhos, onde não haja morte, nem gemidos, nem dor, como referia o Livro do Apocalipse.

Que esta celebração da fé no Dia da Marinha, evocando aqueles que deram novos mundos ao mundo, nos inspire e fortaleça para ajudar as pessoas e os povos a abrir-se a novos horizontes de paz e de esperança.

Ampare-nos, Nossa Senhora, Rainha da Paz e Mãe da Santa Esperança.

Coimbra, 19 de maio de 2019
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra