Dia da Fundação da Universidade de Coimbra - Homilia de Dom Virgílio

DIA DA FUNDAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
II SEMANA DA QUARESMA – QUINTA FEIRA
MISSA NA CAPELA DE SÃO MIGUEL

Irmãos e irmãs!

No dia de aniversário da fundação da Universidade de Coimbra, damos graças a Deus por esta multissecular instituição. Votada ao desenvolvimento do conhecimento e da sabedoria, tem por missão promover o que de mais elevado carateriza a pessoa humana. O serviço que tem prestado a Portugal e ao mundo deve, por uma lado, ser reconhecido pela comunidade e, por outro, ser motivo de louvor a Deus, de quem procede todo o bem.

Como comunidade cristã, rezamos ao Senhor, nosso Deus, por toda a comunidade académica, por todos os seus projetos e planos, a fim de que tudo possa concorrer para o desenvolvimento e o progresso da comunidade humana, para o bem pessoal de cada um e para o maior bem de todos.

A leitura do Livro de Jeremias trazia à nossa consideração duas frases contrastantes, que pretendem ajudar-nos a alargar os horizontes e o sentido das nossas ações e da nossa vida em geral: “Maldito o homem que confia no homem e põe na carne a sua esperança”, e “Bendito o homem que confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança”.

Trata-se de duas formas diferentes de encarar a vida: encerrado nos horizontes humanos e terrenos, ou, porventura, abertos ao transcendente e ao divino. Trata-se de duas formas diferentes de enraizar a vida, de organizar interiormente as motivações para a viver e de ir continuamente fazendo caminho de resposta às inúmeras perguntas que não deixam de surgir. Podemos, de fato, ignorar as perguntas existenciais que diariamente nos provocam, podemos pretender encerrar o assunto com respostas decisivas ou podemos abrir-nos à esperança de ir colhendo elementos para uma resposta mais abrangente.

O caminho da fé, enquanto caminho aberto à esperança que pomos no Senhor, nosso Deus, oferece-nos um leque vasto de horizontes. Quem segue por este caminho, nunca encerra nenhum assunto, mas decide-se a viver da esperança, como planta frágil procura ancorar as suas raízes na água corrente a fim de que a folhagem bela da sua vida se mantenha sempre verde e não deixe de produzir os seus frutos, segundo a linguagem figurada da profeta Jeremias.

No fundo, estamos diante do desafio essencial de estruturação da própria vida, alicerçada no conhecimento, nos valores, na espiritualidade, na fé... mesmo que tudo isso seja um projeto contínuo, nunca encerrado. A família, a escola, a comunidade, a Igreja, as instituições – também a Universidade – têm por missão proporcionar meios adequados para que as crianças, os jovens, os adultos, construam o edifício da sua vida como uma verdadeira obra de arte, aberta à contemplação e à ação, ou seja, uma vida feliz e capaz de tornar felizes as outras vidas.

O texto do Evangelho segundo Lucas trazia-nos a questão bem mais palpável e sensível das atitudes de vida, que, em parte, decorrem dos fundamentos em que nos alicerçamos. Neste caso, os contrastes entre um homem rico e o pobre Lázaro, entre a riqueza e a pobreza, entre as obras humanas e as suas consequências positivas ou negativas, sublinham a importância dos fundamentos da vida das pessoas e das sociedades.

A parábola de Jesus, obra prima do seu ensino, traz-nos, além disso, um apelo veemente no sentido reconhecermos a responsabilidade que temos em tudo o que somos, dizemos e fazemos. A pessoa bem formada, que inclusivamente tem acesso ao conhecimento, que tem à disposição inúmeros meios humanos, materiais e espirituais para se edificar, tem o dever de agir como pessoa responsável nas inúmeras situações em que se vem a encontrar.

Estamos a viver um tempo marcado pela crise de responsabilidade, em que se tende a agir sem se considerar a oportunidade, a justiça ou o sentido ético da ação ou das omissões. Tornámo-nos uma sociedade infantilizada, em que todos reconhecem os efeitos das ações, mas não se encontra quem as assuma.

A pobreza e a riqueza, entendidas inicialmente num sentido realista, podem entender-se também num sentido figurado, para significar realidades como a justiça e a injustiça, o amor e o ódio, a paz e a violência, o respeito pela dignidade dos outros ou o seu atropelo... O Evangelho convida-nos a um coração aberto aos outros como caminho de encontro, como possibilidade de reconhecimento do seu valor e da sua dignidade, como única oportunidade de edificação da paz por meio do desenvolvimento e do progresso centrados na pessoa humana.

Enquanto instituição vocacionada para a formação das pessoa, particularmente dos jovens que terão nas suas mãos os rumos do futuro, a Universidade também tem a missão de proporcionar meios e formas adequados à construção de personalidades bem alicerçadas, eticamente fundadas, cheias de sentido de responsabilidade e abertas à promoção do bem integral de todos e de cada um.

Em nome da confiança e da esperança que pomos nos jovens, na sua capacidade de sonhar e realizar um futuro melhor, todos gostamos de os ver dar passos seguros no sentido de fundarem a sua vida em alicerces firmes, a par de uma excelente formação intelectual. Sinais desse sentido de responsabilidade será a dedicação generosa às atividades académicas, o envolvimento na vida da comunidade humana e na sociedade, a contínua e especial atenção aos outros, particularmente aos mais pobres, mas também os passos firmes no sentido de caminharem numa maior elevação das suas celebrações festivas, promovendo o respeito pelos outros, formas de diversão saudáveis, manifestações autênticas de alegria, com criatividade e juventude.

“Feliz o homem que pôs a sua esperança no Senhor”.

Que a fé cristã, que temos a alegria de acolher como o grande dom de Deus, nos conceda a graça de progredirmos na senda do progresso alicerçado em fundamentos sólidos, de caminharmos em verdadeira humanidade.

A Imaculada Conceição, nossa padroeira e Sede da Sabedoria, acompanhe os caminhos de todos os seus filhos, porventura pobres de recursos materiais, mas ricos de amor e de esperança.

Coimbra, 1 de março de 2018

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

 

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