Missa da Ceia do Senhor 2020 - Homilia de Dom Virgílio

MISSA DA CEIA DO SENHOR – 2020

Caríssimos irmãos e irmãs!

O Tríduo Pascal é o centro da nossa fé e da nossa vida. Entramos nele de uma forma diferente, sentindo duramente a impossibilidade de o poder celebrar fisicamente presentes na assembleia santa, mas não de forma menos real e profunda. Ao sacrifício de Cristo juntamos o sacrifício da nossa vida, da Igreja e de toda a humanidade, acrescido do facto de não poder comungar o Corpo e o Sangue do Senhor, mas estando intimamente unidos a Ele e à comunidade Cristã em espírito e em verdade.

Apesar de sermos poucos a participar nesta celebração, aqui na Sé Nova, sabemos pela nossa fé que é a Igreja de Cristo que aqui está presente na pessoa do bispo, de alguns sacerdotes e diáconos, consagrados e leigos. Aqui está o Povo de Deus que caminha na nossa Diocese de Coimbra, pois a nossa comunhão com Deus e com os outros, precisando da reunião presencial e visível da assembleia, não se reduz a ela. Esperamos que este jejum celebrativo, eucarístico e social vivido pelos fiéis desperte um novo ardor e um maior gosto por saborear a dimensão comunitária da vivência da fé.

Sentimo-nos a regressar às fontes da nossa história, quando se valorizou muito o lugar da Igreja doméstica e quando as pequenas comunidades se reuniam para a escuta do ensino dos Apóstolos, para a fracção do Pão e para a comunhão fraterna. Nessa altura os espaços eram pequenos para o dinamismo crescente da comunidade cristã por meio da Evangelização; hoje, os espaços são grandes para a reduzida dimensão dos que assumem celebrar e viver a fé; então, sentia-se de forma muito marcante a presença de Cristo morto e ressuscitado como a Boa Nova de Deus que salva a humanidade; talvez agora possamos estar a viver demasiado da dimensão social da cristandade e seja urgente enraizarmo-nos na comunhão com Cristo e com os irmãos que nasce do batismo recebido.

Poderia alguém tirar conclusões erradas e pretender justificar a opção hoje muito comum de viver uma fé cristã de forma individualista e sem a essencial dimensão comunitária. A conclusão deve ser outra: os laços que nos unem a Deus e aos irmãos são os laços do Espírito que dá vida e faz de nós um povo que acredita, que celebra, que escuta, que ama, que partilha e que vive em Igreja disponível para ser sal fermento e luz no meio do mundo.

A liturgia deste dia põe diante de nós três realidades que manifestam claramente as linhas que tecem o modo como Deus nos propõe que vivamos a fé cristã, em Igreja enviada ao mundo: o sacerdócio, a Eucaristia e a caridade.

Por meio do batismo na fé da Igreja, participamos na morte e ressurreição do Senhor, somos constituídos em Povo sacerdotal, que oferece a Deus a honra, a glória e o louvor por meio da sua vida: uns com os outros e uns pelos outros, em comunhão com Jesus Cristo, que nos eleva até ao Pai, na unidade do Espírito Santo.

O sacerdócio ministerial, que configura alguns homens com Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja, torna-se visivelmente um serviço a todo o Povo Santo, quando reúne a comunidade e anuncia a Palavra e abençoa a Pão e o Vinho, Corpo e Sangue de Cristo, o único e eterno Sacerdote.

Agradecemos a Deus que deu à Sua Igreja este sinal visível do seu desejo de congregar o Seu Povo e de manifestar a Sua vontade de nos salvar precisamente como Povo. O sacerdócio ministerial que constitui alguns como pastores unidos a Cristo, o Bom Pastor, dá-nos a certeza de que a fé não é uma questão individual nem algo que se possa acreditar ou viver somente no foro íntimo. Quando convoca a assembleia cristã, quando preside à Eucaristia e aos outros sacramentos, quando anima os fiéis por meio do anúncio da Palavra do Evangelho e quando incentiva à caridade em nome de Cristo, o sacerdote está a servir a causa da construção do Povo de Deus.

Quando na tarde daquele dia, que antecedeu a Sua paixão, Jesus se reuniu com os seus discípulos, partiu o Pão e deu o cálice a beber, estava a deixar-nos o alimento para a vida do Seu Povo. Depois de escutarem atentamente as suas palavras, “fazei isto em memória de Mim”, os cristãos nunca mais deixaram de celebrar os mistérios da fé pascal. Ainda hoje, sempre que celebramos a Eucaristia, estamos a dar continuidade ao Seu mandato – “fazei isto em memória de Mim” – e a proporcionar aos fiéis o alimento para a Vida Eterna.

Quanto mais débil se torna a fé cristã no coração dos batizados menos importância tem a celebração da Eucaristia e mais se afirma a possibilidade de uma vivência individual da mesma fé. Sem a celebração da Eucaristia perde-se Cristo Palavra e perde-se Cristo Pão, perde-se a presença real e fica-se com uma ideia bela, um sentimento íntimo, uma ética humanista ou um conjunto de linhas de ação para a vida.

Nesta Quinta-feira Santa, quando tantos cristãos se vêm privados da participação presencial na Eucaristia, somos convidados a reforçar o amor por Cristo Eucarístico, que nos convoca e reúne para partilharmos com Ele a alegria do Reino já inaugurado. Não temos outro momento tão marcante da nossa comunhão com Deus e com a humanidade como o da Eucaristia, pois ali ficamos unidos a Jesus que nela realizou o seu amor universal aos irmãos e a Sua plena sintonia com o coração e vontade do Pai.

A caridade de Deus manifestou-se aos homens por meio de Jesus Cristo, Seu Filho, oferecido por nós no sacrifício da cruz. Ali se revelou o rosto de Deus, que não pode deixar esquecido ou abandonado nenhum dos seus filhos.

A vocação de cada cristão consiste, acima de tudo, em seguir os passos de Jesus e em viver na caridade para com os irmãos. Nada mais contrário à fé cristã do que viver fechado aos outros, numa autocontemplação de si mesmo ou num intimismo individual, mesmo que isso aparentemente produza um sucedâneo da paz do coração.

O gesto de Jesus que lava os pés aos seus discípulos concretiza de modo admirável o mandamento novo do amor, que nos foi deixado como o nosso caminho: “assim como Eu fiz, fazei vós também”.

A caridade será sempre o sinal maior de que somos Povo de Deus e deve ter todas as concretizações que os tempos, lugares e situações requerem. Também a pandemia que aflige a humanidade é lugar de caridade já em ato e tem de continuar a suscitar formas adequadas de concretização. Onde quer que haja alguém que olha para o seu semelhante com caridade, aí já se encontram os sinais do amor de Deus e a força da graça que, por meio de Cristo, chegou à humanidade.

Irmãos e irmãs, agradeçamos ao Senhor de todo o coração, porque não esquece este Povo que é o Seu e porque nos dá a certeza de que permanece connosco, dando-nos ânimo e coragem para estarmos uns com os outros nesta barca comum, que quer que seja de salvação.

Coimbra, 09 de abril de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra