Missa do Dia da Universidade de Coimbra - Homilia de Dom Virgílio

I DOMINGO DA QUARESMA - 2020
MISSA DO DIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
CAPELA DE S. MIGUEL

Caríssimos irmãos e irmãs!

Damos, hoje, graças a Deus pelo dom que tem sido a Universidade de Coimbra, nos 730 anos da sua fundação. Agradecemos pela multidão imensa de homens e mulheres que, usando as suas capacidades e a sua dedicação, fizeram progredir o conhecimento, a ciência e a sabedoria para elevar o espírito humano e para construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais feliz.

A Universidade de Coimbra, além de uma realidade multisecular com um lugar ímpar no panorama do conhecimento em Portugal, é um símbolo da vocação ao desenvolvimento civilizacional como caraterística da pessoa humana. Em áreas como as letras, a teologia, a filosofia, o direito, a medicina, as ciências naturais, as tecnologias e as artes, tem ajudado a comunidade a elevar-se na procura do sentido para a vida e a encontrar melhores formas de realização em cada tempo da história.

Agradecemos a todos aqueles que, munidos de reta intenção e de amor ao seu semelhante, com verdadeiro espírito de serviço e desprovidos de interesses egoístas, puseram e põem a sua vida, a sua inteligência, os seus talentos e o seu trabalho ao serviço do bem comum. O trabalho intelectual, como qualquer outra modalidade de ação, sempre que realizado como caminho para a verdade, constitui um serviço ao próximo, a que podemos chamar caridade.

Faz-nos bem a todos, docentes e a alunos, comunidade académica em geral, interrogarmo-nos acerca do sentido mais profundo do trabalho intelectual, pois ele vai muito para além do desejo imediato de realização pessoal ou da busca de uma honesta sustentação. Somos convidados a ver para além das motivações óbvias e diretas da nossa condição corporal, a dar lugar às motivações espirituais, igualmente constitutivas da nossa identidade. Uma atividade verdadeiramente humana é aquela que aperfeiçoa constantemente a consciência sobre o sentido, a razão de ser, os métodos, a finalidade do que se faz, na fidelidade ao desejo inscrito em nós de buscar o bem de todos.

O Livro do Génesis, portador de uma sabedoria milenar, oferece-nos duas imagens relevantes, que lançam dois fundamentos essenciais para todas as civilizações e de todos os tempos: a da “árvore da vida” e a da “árvore da ciência do bem e do mal”. Ambas se encontram no meio do jardim e entre toda a espécie de árvores de frutos agradáveis à vista e bons para comer.

A primeira é a alusão à vida como dom e como tarefa a cuidar, a preservar, a engrandecer com o auxílio da inteligência e no respeito pela nossa condição de criaturas dignas e amadas pelo Criador. Toda e qualquer ação humana tem por vocação estar ao serviço da vida, prestar um serviço à vida, engrandecer a vida, desenvolver as melhores condições para que a vida de todos seja mais plena e mais feliz, dentro do quadro da natureza harmoniosa e bela, qual reflexo da bondade do Criador.

A segunda é uma alusão à dimensão ética de todo o agir humano. Árvore da ciência do bem e do mal, no sentido de que os atos humanos hão de servir para edificar, aperfeiçoar, desenvolver e elevar a nossa condição. As coisas mais simples e quotidianas ou as mais complexas e extraordinárias, tudo deve concorrer para o maior bem do ser humano e para a maior glória e Deus.

O texto do Evangelho de Mateus, as tentações de Jesus, traz-nos uma exemplificação viva do que significam as escolhas que fazemos no uso do grande dom da nossa liberdade. Nas três referências usadas - o pão para a boca, a confiança na proteção de Deus e dos seus Anjos, e a adoração – há uma forte ambiguidade, que exige adequado discernimento. O pão que mata a fome do corpo não é tudo na vida, a confiança nos Anjos de Deus não pode dispensar ninguém de assumir as suas responsabilidades pessoais, a adoração pode ter um endereço errado quando se desloca do Criador para as coisas criadas.

Todos nos confrontamos diariamente com estas ambiguidades nas escolhas que temos de fazer, tanto nas coisas pequenas como nas grandes. A própria liberdade tem um preço a pagar, que se chama responsabilidade e orientação para o bem e para a verdade, que ultrapassa todos os individualismos escravizantes.

O texto de Mateus, lido no início do tempo da Quaresma e contextualizado na preparação que Jesus faz para assumir a vontade do Pai e levar até ao fim a sua obra de amor, pretende iluminar-nos no caminho da totalidade da nossa vida de pessoas e de cristãos. Leva-nos a confrontarmo-nos sempre com a verdade, com a liberdade, com as motivações, os meios e os fins daquilo que fazemos e dos caminhos que trilhamos.

Tomamos consciência de que à nossa frente está sempre a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal. A liberdade, que constitui a nossa maior grandeza e dignidade, pode ser também a causa da nossa maior ruina pessoal e comunitária, pelo que impende sobre nós a responsabilidade, que lhe está sempre unida.

Quando procuramos os fundamentos do progresso humano e civilizacional, lá encontramos o reto uso da nossa liberdade; quando desejamos conhecer as causas de tantas injustiças, violências e degradações pessoais e sociais, quando buscamos a origem dos retrocessos humanos e civilizacionais, deparamo-nos sempre com o mau uso da nossa liberdade.

Jesus tem lugar na história por muitos motivos: primeiro por ser o Filho de Deus, que nos revelou por palavras e gestos quem é Deus e como é o Deus único e verdadeiro; segundo, por ser livre e por, conduzido pelo Espírito Santo, viver sempre na verdade e na caridade.

Que este tempo santo da Quaresma, símbolo do caminho da nossa vida, nos permita um verdadeiro encontro com a nossa liberdade, com as nossas escolhas, com as nossas motivações. Haverá lugar para reconhecer a graça de caminhos bem andados, mas haverá também lugar para reconhecer escravidões e pecados.

Os caminhos da conversão da inteligência, do coração e da vida estão sempre abertos diante de nós pelo Deus rico de misericórdia que Jesus nos dá a conhecer. Por meio da contemplação, do silêncio e da oração, unidos à partilha e à caridade a que este tempo nos convidam, purifiquemo-nos e abramo-nos à graça que por meio da fé nos há de habitar.

Para a Universidade de Coimbra pedimos a Deus o dom de grandes progressos académicos e que, com o serviço de todos os seus membros, seja cada vez mais um forte contributo para que edifiquemos uma sociedade mais justa, mais feliz e mais livre.

Coimbra, 1 de março de 2020
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra