Natal do Senhor - Homilia de Dom Virgílio

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR 2018
MISSA DO DIA

Caríssimos irmãos e irmãs!

“No princípio era o Verbo”.

Assim começa o Evangelho de S. João quando nos prepara para nos anunciar o natal de Jesus e afirma que Ele veio ao mundo.

Jesus é o nosso natal, é a presença de Deus no meio do seu povo, com a força da Sua palavra criadora, que acompanha todo o curso da história humana sem nunca nos deixar abandonados ou perdidos.

Jesus, a Palavra de Deus, é, para todo o que acredita uma presença amiga, uma palavra consoladora, um gesto de perdão e de amor, que se manifesta continuamente nos variados caminhos que percorremos.

No meio de tanta desorientação e de tantos caminhos e propostas cruzadas, nós precisamos de uma palavra firme, que toque o coração e a vida, que nos aponte a direção, que nos comprometa e que seja o fio condutor de todas as opções.

Neste sentido, Jesus é a Palavra de Deus, que se oferece como caminho da nossa vida. A Sagrada Escritura, inspirada pelo Espírito Santo e versão literária da Boa Nova de Deus, é companhia diária das famílias cristãs e da comunidade cristã. Tem de estar continuamente presente na nossa mão como leitura quotidiana, base da nossa oração e fonte da nossa conduta.

“A luz brilha nas trevas”.

A comunidade cristã de S. João conhece a luz de Jesus e a dificuldade que a humanidade tem de a ver, de a acolher e de a testemunhar no meio do mundo. A mesma dificuldade e, por vezes, rejeição, que a Igreja nascente conhece, é a aquela que conhecemos ainda hoje.

A luz veio até nós e não a recebemos. Além de uma referência à incredulidade presente em todos os tempos, ou seja, à dificuldade de acreditar, há nesta expressão também uma referência à dificuldade de moldar a vida a partir da fé. Neste caso sentimo-nos plenamente implicados todos nós que, professando a fé cristã, continuamos a agir orientados por outros princípios e por outras luzes.

O testemunho de uma vida na luz de Deus continua a ser a questão central da relação dos crentes e da comunidade eclesial com o mundo. Precisamos de uma fé firme e viva, precisamos de purificação e precisamos de renascer como filhos de Deus, disponíveis para incarnar em nós a vontade de Deus.

A nossas missão de cristãos que acreditam em Jesus o Verbo de Deus e a Luz de Deus consiste em levar ao mundo essa Palavra e essa Luz por meio das ações de evangelização e de catequese. Consiste igualmente em mostrar, na fidelidade e na santidade de vida, como viver a Boa Nova e estar na Luz de Jesus nos conduz à salvação de Deus.

“E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós”.

A presença de Jesus, a Palavra de Deus, o Filho único de Deus, na nossa carne, isto é na nossa condição, na nossa vida e na nossa humanidade, revoluciona plenamente os nossos sentimentos, os motivos da nossa esperança, as nossas seguranças, alegrias e dores.

A encarnação de Jesus como condição para a sua paixão morte na cruz, faz-nos peregrinar interiormente do mundo das ideias e das afirmações teóricas para o mundo da realidade de Deus próximo, presente, companhia, consolação. Quando temos a graça de saborear Jesus em nós e de nos deixarmos perder n’Ele, percebemos o que significa dizer que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. É a graça da fé que, muito mais do que uma ideia, se torna uma relação de comunhão profunda entre Deus e nós, nós e Deus, incluindo sempre os outros, os membros da comunidade humana, que formamos.

Se a doutrina sobre Deus pode ajudar a dar passos no sentido da abertura à fé, a relação com o Deus que se faz Homem no seio da Virgem Maria, por graça do Espírito Santo e como dom, arrasta para a relação interior com a pessoa de Jesus, o verdadeiro Amor de Deus ao nosso alcance.

Como cristãos temos esta nobre missão de ajudar as pessoas a abrirem-se a esta relação pessoal com Jesus, o dom de Deus do Natal e de todo o tempo.

Acreditar que o Verbo se fez carne, traz-nos ainda outra certeza consoladora: sentir que Deus assume toda a nossa pobreza, fragilidade e ânsia de plenitude. Se nos alegramos, Deus alegra-se connosco, se sofremos, Deus sofre connosco, pois assumiu tudo o que nós somos como realidade a consolar e a salvar. Como costumamos sintetizar, nada do que é humano é indiferente a este Deus que se fez Homem e partilha as grandezas e as misérias da nossa condição.

Nesta atitude de aproximação e participação em tudo o que somos, Jesus dá-nos a chave fundamental do agir humano na relação com o seu semelhante: assumir como nosso tudo o que se passa na existência e no coração dos outros. Desde as relações familiares até às relações sociais, económicas e políticas, com amores e ódios, justiças e injustiças, desenvolvimento e retrocessos, tudo nos diz respeito e ninguém pode demarcar-se, pois a solidariedade humana é de sempre e em tudo.

A encarnação de Jesus eleva ao mais alto nível a solidariedade, pois manifesta que ela antes de ser humana já é divina. O natal de Jesus é, neste sentido, um verdadeiro programa para toda a humanidade.

Nós, cristãos, sentimo-nos felizes por sermos portadores de tão feliz Palavra e de tão brilhante Luz.

Havemos de permitir que o Verbo habite em nós, daremos d’Ele um testemunho mais fiel  e seremos lugar de graça sobre graça para a Igreja e para o mundo. Ámen.

Coimbra, 25 de dezembro de 2018
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

 

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