Pedrogão Grande - I Aniversário dos Incêndios - Homilia de Dom Virgílio

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM B

PEDRÓGÃO GRANDE – I ANIVERSÁRIO DOS INCÊNDIOS

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Os acontecimentos de há um ano atrás estão bem gravados na memória de todo o povo português. A intensidade com que vivemos aqueles dias e a grandeza das emoções sentidas não permitem nem podem permitir que se esqueçam as pessoas que sofrem na sua própria carne a dor da separação de familiares, vizinhos ou desconhecidos, a perda dos seus bens mais preciosos ou a beleza da paisagem envolvente das suas casas e das suas vidas.

O mais surpreendente em tudo isto é que não morreu a esperança nestes homens e mulheres que viram a destruição à sua frente. Sentiram a morte tocar a sua família, experimentaram a noite bem escura e, de novo, se defrontaram com as questões mais duras, para as quais é difícil encontrar respostas portadoras de uma paz completa.

A proximidade e solidariedade dos outros, pessoas e instituições – no fundo, de todo um país - deram uma excelente ajuda, mas decisiva foi a força da fé em Deus, que estrutura e anima por dentro, que toca o lugar mais recôndito em que se decidem as motivações para continuar o caminho mesmo no meio das maiores razões para desistir.

Agradecemos, por isso, o testemunho de verdadeira fortaleza interior que têm dado a uma sociedade débil nas suas convicções e nas suas motivações; agradecemos a grandeza do espírito de serviço, a atenção aos outros, a coragem para enfrentar as situações difíceis e o gosto de viver.

A tragédia ensinou-nos muito sobre o que há a fazer em matérias como o urbanismo, o ordenamento do território, a florestação, os meios de defesa e combate, as comunicações, a fim de prevenirmos adequadamente situações futuras; ensinou-nos mais ainda o valor da pessoa humana em todas as situações, particularmente nas necessidades, o valor da solidariedade humana e material, o valor da proximidade expressa em gestos bem sentidos, visíveis e palpáveis, o valor dos abraços que podem não acrescentar um cêntimo à conta bancária, mas aquecem a alma e confortam abundantemente o coração.

Se a tragédia e as suas vítimas ficarão naturalmente inscritas na memória coletiva do nosso país, não podemos permitir que a grandeza de alma do povo português residente no território nacional ou ausente noutras paragens do mundo, seja omitida pelas mesmas páginas ou deixe de ser assinalada entre os nossos feitos gloriosos.

Dificilmente poderia encontrar-se maior sintonia de coração e melhor comunhão na solidariedade e no amor ao próximo, como se edificou à volta desta causa. Ninguém ficou de fora, todos nos comovemos com os nossos irmãos e irmãs caídos à beira do caminho e incarnámos, por isso, a parábola do bom Samaritano, uma das mais belas páginas do Evangelho. Se há sentimentos e valores que são universais e que devem ser assinalados, esta união de pessoas, de corações e de vontades, é, sem dúvida um deles, que tornou mais rico o povo que nós somos.

A celebração do aniversário que normalmente é marcado pelo tom da alegria e da festa, tem, neste caso, o sabor da dor, da tristeza e da saudade. Felizmente, tem também a força da esperança, bem alicerçada, própria de quem, a partir da fé sente que está nas mãos de Deus e em tom orante consegue repetir: “quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8). Neste sentido, a Missa que estamos a celebrar, e na qual pedimos a Deus o eterno descanso dos defuntos e a consolação dos viventes, acolhe também a ação de graças por tudo o que de bom podemos construir enquanto comunidade humana.

Elevemos, por isso, este hino de louvor ao Senhor, nosso Deus, e proclamemos a bondade e a fidelidade do Altíssimo, porque aprofundámos os laços da nossa humanidade, porque nos unimos mais enquanto portugueses e porque se manifestaram as raízes da nossa identidade de terra de cristãos.

A liturgia oferecia-nos hoje, por meio da sugestiva linguagem das parábolas, algumas perspetivas quanto ao modo como havemos de ajudar a construir o futuro das pessoas e das comunidades.

Fazendo uso de referências a elementos do mundo vegetal, como o ramo novo retirado dos ramos mais altos de um cedro frondoso, a semente lançada à terra, que produz a planta, a espiga e o trigo maduro, e ainda o grão de mostarda que, sendo a mais pequena de todas as sementes, cresce e dá origem à maior de todas as plantas da horta, anuncia a força da vida que há de crescer e dar bom fruto.

As referências bíblicas às árvores, aos jardins, aos lugares verdejantes e às águas cristalinas, surgem sempre para falar de vida abundante, com qualidade e com esperança de futuro. Contrastam com as referências ao deserto, terra inóspita, sem plantas e sem água, que prenuncia morte da vida e morte da esperança.

Diante da paisagem humana destroçada pelos incêndios e diante das cinzas a que ficou reduzida a nossa floresta, reaviva-se a urgência de cuidar da vida das pessoas e de cuidar do planeta bom e belo que o Criador nos deu como casa comum.

Todos sentimos o dever de trabalhar em favor de uma ecologia integral que respeite as legítimas aspirações das populações destas regiões interiores, que respeite o meio ambiente, que promova uma economia sustentável, que lhes possibilite o acesso a bens e serviços essenciais, a fim de encontrarem em pé de igualdade com os outros cidadãos as condições adequadas para uma vida feliz.

A parábola da pequena semente lançada à terra que dá origem a uma planta e acaba por dar bons frutos, fala-nos da importância dos pequenos gestos, que parecendo insignificantes, acabam por determinar muito daquilo que são os valores dominantes nas nossas comunidades humanas e nas nossas instituições.

Estamos diante do grande desígnio e da enorme missão de nos formarmos como pessoas conscientes, livres e responsáveis e de cooperarmos uns com os outros na tarefa de construir uma humanidade digna da sua condição.

Num mundo marcado por tantas apreensões e por densas nuvens quanto ao futuro, todos sentimos o dever de lançar à terra as boas sementes da verdade e do amor, os fundamentos de uma sociedade com um futuro de verdadeira justiça e de paz.

A nós, caríssimos irmãos e irmãs, enquanto povo de Deus agraciado com o dom da fé, cabe-nos participar ativamente nesta nobre missão de contribuir, à nossa maneira e com as nossas convicções, para a edificação de uma humanidade mais feliz e mais santa. Para além de nos envolvermos totalmente em todas as ações de solidariedade e caridade, procuraremos levar às comunidades a Palavra de Deus por meio das ações de evangelização e de aprofundamento da espiritualidade cristã, os melhores tesouros que Deus pôs nas nossas mãos.

O Senhor chama-nos a ser colaboradores da alegria e da esperança, fazendo germinar e frutificar as sementes do Reino de Deus depositadas no coração de cada pessoa criada à Sua imagem e semelhança.

A proposta de Jesus, sendo tremendamente difícil de concretizar, nunca pode ser para nós uma utopia, mas constituirá um desafio e um estímulo, que nos deixará sempre inquietos e desassossegados. Peçamos-lhe a graça de assumir com verdade e com responsabilidade o dom que pôs nas nossas mãos em favor de toda a humanidade.

Que a Virgem Santa Maria, Senhora das Dores e também Senhora da Alegria, nos ajude a seguir confiantes por entre as luzes e sombras do caminho, mas sempre animados pela santa esperança.

 

Pedrógão Grande, 2018.06.17

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra