Procissão de Regresso da Rainha Santa - Homilia de Dom Virgílio

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM B
PROCISSÃO COM A IMAGEM DA RAINHA SANTA ISABEL DE PORTUGAL
IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA – 2018.07.08

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Viemos a esta celebração atraídos pela figura da Rainha Santa Isabel, uma mulher, uma rainha e uma santa, que, no seu tempo e ao longo da nossa história seduziu multidões com o exemplo da sua palavra e da sua vida.

 A história deixou-nos a memória da sua vida marcada pelo abandono do espírito do mundo numa constante procura da fidelidade à fé em Deus, o testemunho da sua certeza da presença do Espírito Santo na vida do cristão como inspirador e guia da ação, a narração das suas preocupações em favor da paz e da justiça entre pessoas e povos, a notícia da sua caridade junto dos doentes e dos pobres como maior expressão do amor a Deus. Santa Isabel reúne, deste modo, na sua pessoa, nas suas opções de vida e na sua atitude, os mais elevados distintivos de todo o ser humano que, movido pela fé em Deus, trabalha pela justiça e pela paz, exercita a caridade como a maior de todas as virtudes e anuncia o Evangelho mais pelo testemunho do que pelas palavras.

A lenda deixou-nos o enternecedor milagre das rosas, que fala por si, pois proclama a beleza, o perfume e o encanto próprios de todos aqueles que transformam o pão, porventura duro da vida, nas rosas da caridade e da justiça. A lenda diz-nos que o amor transforma tudo e que mesmo as cabeças mais duras e os corações mais obstinados se podem abrir aos gestos proféticos que dizem a grandeza de uma vida. A lenda mostra ainda que os gestos e a vida são eloquentes a ponto de não precisarem de palavras para se explicar ou de se poder reduzir ao mínimo o discursos: “são rosas, senhor”. Diante do testemunho de caridade está tudo claro e está tudo dito.

A liturgia deste domingo oferecia-nos duas frases que nos incitam a um duplo movimento, que vos reproponho como duas atitudes a desenvolver como cristãos em processo de enraizamento na fé, tanto na Igreja como no mundo.

A Profecia de Ezequiel começava por dizer: “O Espírito entrou em mim e fez-me levantar”. Depois segue-se o teor da profecia, um convite à mudança de atitude de um povo revoltado contra Deus, de cabeça dura e obstinado em ofendê-l’O com as suas más ações. O texto conclui dizendo que a profecia pode ou não ser acolhida pelo povo, mas o gesto do profeta que, cheio do Espírito de Deus, se levanta no meio de todos, não pode ser ignorado, pois é um testemunho visível, que não se pode apagar.

O Evangelho segundo São Marcos começa por dizer que Jesus se dirigiu à sua terra e que começou a ensinar na sinagoga, diante da admiração dos seus conterrâneos. Trata-se de Jesus cheio do Espírito Santo e impelido a partir para fazer o anúncio da boa nova de Deus a toda a criatura. As suas palavras podiam não ter grande aceitação, pois os ouvintes conheciam a Sua identidade e não viam na sua família uma autoridade que lhe permitisse tal sabedoria. No entanto, os seus prodígios miraculosos ou, dito de outra forma, o seu gesto de curar alguns doentes, impondo-lhes as mãos, não puderam deixar de ser notórios aos olhos daquela gente. Esta página do Evangelho nem sequer cita uma palavra de Jesus, mas deixa bem claro o teor do seu ensino e torna-se bem notória a força da sua mensagem, simplesmente por meio dos seus gestos de caridade para com o próximo.

Podemos ainda acrescentar a atitude de Paulo, o homem convertido ao Senhor que, consciente das suas fraquezas, se confia totalmente à graça de Deus, na qual se manifesta todo o seu poder. Não fica parado diante dessa certeza de fé, mas levanta-se e parte em missão, disponível para dar a vida no anúncio do Evangelho recebido. É eloquente nas palavras, mas torna-se ainda mais eloquente no testemunho de vida, de modo que se torna o grande apóstolo dos gentios.

Irmãos e irmãs, olhando para a nossa cidade de Coimbra, sentimos que precisamos de acolher estes desafios proféticos da Sagrada Escritura com um entusiasmo maior. Enquanto cristãos, acreditamos que no meio das nossas fraquezas e adversidades temos uma missão a desempenhar nesta nossa cidade. Alicerçados na graça do Senhor, que nunca nos falta, e  munidos da humildade a que o Evangelho nos convida, havemos de propor de forma profética os caminhos da fé, da esperança e da caridade que nos vêm do Senhor que servimos.

Ao entrar em Ezequiel, o Espírito de Deus fê-lo levantar-se para levar palavras e gestos proféticos ao seu povo; em Paulo, a força da graça de Deus fê-lo sair da sua tranquilidade religiosa para ir pelo mundo anunciar a Boa Nova; Jesus dirigiu-se à sua terra, cheio da sabedoria das palavras e das obras libertadoras. Hoje recordamos especialmente a figura de Santa Isabel, que podia ter-se acomodado à rotina da corte, mas se levantou e se pôs num caminho diferente, o da entrega a Deus na oração para melhor se dar aos pobres na consolação e na caridade.

A Igreja de Coimbra é detentora de um potencial, de fé, de cultura e de espiritualidade ao qual não pode renunciar e que tem o dever de consciência de fazer crescer para pôr ao serviço de toda a comunidade.

Retomo hoje o apelo do Papa Francisco dirigido aos jovens cristãos nas Jornadas Mundiais da Juventude Cracóvia no sentido de saírem do sofá e serem para todos os jovens um sinal profético da fé em Jesus Cristo no meio de um mundo secularizado. Permito-me, nesse mesmo sentido dirigir às comunidades cristãs da cidade de Coimbra o mesmo veemente apelo: precisamos de deixar a comodidade da fé privada, da fé da tradição ou dos momentos festivos da religiosidade popular para passarmos a ser os cristãos alicerçados na fé comunitária, enraizada no Espírito de Deus, disponível para encarnar em todas as realidades a novidade do Evangelho.

As paróquias de Coimbra hão de criar projetos de evangelização que ajudem a passar de uma fé passiva a uma fé ativa na prática e no testemunho; hão de privilegiar a celebração festiva da fé, a novidade dos caminhos de acolhimento dos que andam à procura de paz interior, de esperança para viver ou simplesmente do pão para a boca; hão propor percursos fortes de silêncio, de oração, de adoração, de espiritualidade, de encontro com a Palavra de Deus, fazendo das muitas e belas igrejas da cidade lugares de encontro e de vida.

Os cristãos desta cidade hão de ser assíduos à celebração da Missa de domingo, hão de encher as nossas igrejas para louvar a Deus e buscarem o alimento espiritual para as suas vidas; os cristãos de Coimbra hão de estar na igreja para crescerem interiormente no amor a Deus, mas hão de estar igualmente nos lugares onde se jogam os valores conducentes da sociedade para, aí, naturalmente, fazerem germinar as sementes de amor, de paz e de justiça de que carecem; os cristãos de Coimbra hão de envolver-se nos areópagos da cultura, da política, da ação social, do desporto... para aí, como cristãos darem o seu contributo em favor de uma humanidade mais feliz, alicerçada na força transformadora do Evangelho.

As famílias cristãs de Coimbra não podem contentar-se com um vago sentimento de pertença à Igreja, mas levantam-se e põem-se a caminho para iniciar os seus filhos no conhecimento do amor de Deus; tomam a iniciativa de inscrever os seus filhos na catequese paroquial ou nas aulas de educação moral e religiosa católica; participam com eles na vida da comunidade cristã, seguros de que vale mais um pequeno exemplo do que mil palavras; propõem itinerários de aprofundamento da fé levando-os a tornarem-se membros dos movimentos e grupos juvenis; em casa e na vida social transmitem às crianças e jovens o sentido da atenção aos outros, da solidariedade, da caridade, da justiça e da verdade.

As poucas palavras e muitas obras da Rainha Santa Isabel devem continuar a ser para nós uma inspiração, que nos leve a passar ao compromisso e à ação. Alimentar a fé, crescer no Espírito, aprofundar os laços de pertença à Igreja, proclamar o Evangelho com novos métodos e novo ardor, dar um testemunho vivo da caridade para com os irmãos mais pobres, constituem o programa verdadeiramente transformador que nos cabe propor com alegria e com entusiasmo.

Que estas festividades de Santa Isabel de Portugal e a procissão que jubilosamente realizaremos daqui a pouco sejam um sinal da decisão que assumimos de renovar a nossa fé, e de rejuvenescer a nossa Igreja de Coimbra. Que o Espírito entrando em nós nos faça levantar para nos dirigirmos à nossa terra com a fé no coração, o Evangelho nos lábios, a caridade nas mãos como no regaço levou Santa Isabel o pão e as rosas.

 

Coimbra, 8 de julho de 2018
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

 

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