O desejo de servir a Diocese de Coimbra

Entrevista aos futuros diáconos

No próximo dia 28 de Junho, pelas 16 horas, serão ordenados na Sé Nova de Coimbra, pelo Sr. D. Virgílio Antunes, três novos diáconos em ordem ao presbiterado. O Correio de Coimbra, em parceria com a Centro TV, esteve à conversa com o Jorge Germano, natural da Paróquia de Nogueira do Cravo, actualmente ao serviço da Unidade Pastoral de Conímbriga; com o Nuno Fileno, natural da Paróquia de Almalaguês, actualmente ao serviço da Paróquia de Ceira e São João Baptista e ainda responsável pelo Coro Diocesano; e com o Pedro Simões, natural da paróquia de Barcouço e actualmente ao serviço da Paróquia de Pombal.

Correio de Coimbra – Antes de mais, uma palavra de agradecimento pela vossa disponibilidade, porque fazer esta entrevista em conjunto pressupõe alguma conciliação das vossas agendas. Daqui a poucos dias, vocês estarão aqui, na Sé Nova, prostrados diante da comunidade cristã, num gesto eloquente, que fala por si e que sublinha a necessária humildade diante de Deus e ao mesmo tempo evoca uma ponte, a ponte que vós pretendeis estabelecer entre Deus e os homens. Gostava de vos interpelar sobre as vossas motivações…, expectativas…, sonhos…, tendo como referência esse momento tão significativo das vossas vidas.

Jorge Germano - Sonhos e motivações… da grande felicidade e da grande realização! Não só pessoal, mas também comunitária, desta entrega, deste sinal de prostração. A minha felicidade pessoal mas também com a felicidade de todos aqueles de forma que irão estar presentes, mas que também não irão estar presentes e que me tem acompanhado e acompanham através da oração. É de facto a grande motivação e o grande sonho que me faz continuar dia após dia, a levantar-me e abrir os braços para estre grande trabalho nesta nossa diocese.

Pedro Simões -
Durante a caminhada que fiz em ordem ao sacerdócio olhei sempre para a figura do padre como aquele que serve e não aquele que é servido. Foi precisamente isso que me interpelou ao longo de toda a minha caminhada: porque não ser um Padre? E apercebi-me desse caminho que Deus me apontava através do testemunho do meu pároco, um padre que não só celebrava as eucaristias, mas que se preocupava em ajudar o próximo, o mais necessitado.

Nuno Fileno - A motivação principal e que vem do próprio Evangelho de Jesus é o Serviço. Penso que não poderia ser outra. Servir os outros. Servir a Igreja, Deus e a sociedade. O sonho é o sonho do Evangelho, é que Jesus e a Sua Palavra cheguem a todos e que o meu contributo possa permitir isso mesmo, apesar da minha fragilidade, tendo consciência de que eu não sou perfeito e de que a fragilidade fará parte também do ministério...

 

Correio de Coimbra - Mas para chegar a esse momento tão denso, houve decerto uma história. Uma história pessoal de encontro com o Deus e com a Igreja, através da mediação de múltiplos factores.
Muito sucintamente, que dois ou três marcos fundamentais e fundadores do vosso caminho vocacional apontariam?

Pedro Simões - Dois momentos. A minha catequista que me acompanhou durante os dez anos de percurso de catequese e depois o convite do meu pároco, de então, para me inserir no grupo de acólitos da paróquia.

Nuno Fileno - Os meus três momentos fundamentais estão relacionados com a família, com a dimensão da vida, pela qual todos nós nascemos e que no meu caso teve algumas particularidades e onde Deus se revelou. É forçoso falar da comunidade paroquial, da comunidade cristã, que me acompanhou desde dos primeiros passos da catequese, e onde me fui inserindo em vários grupos, na liturgia, na caridade, na catequese... E depois a liturgia e a música foi onde Deus se revelou e permitiu-me que também me encontrasse com Ele.

Jorge Germano - O primeiro momento marcante foi a minha relação com o meu pároco na altura, o Padre Rodolfo Leite, que esteve três anos na paróquia e me foi desafiando a participar no pré-seminário e a colocar a questão de ser padre. Depois, o segundo momento que mais mexeu comigo, foi o dia em que eu fui crismado, em que o Monsenhor Leal Pedrosa, na sua homilia, dizia que “a felicidade de cada um está ao nosso alcance, basta que cada um queira e que tenha vontade de a procurar”. De facto, nesse momento tive vontade de dizer que sim!: começar esta aventura, atirar-me de cabeça, sem reservas. Ainda um terceiro momento, este foi mais de confronto ao longo do percurso académico, que foi o acompanhamento que eu fiz com o Pe. Nuno Santos. Aí tive mesmo que tomar a decisão e ele ajudou-me a pensar, a reflectir e a tomar a decisão. 

 

Correio de Coimbra - No âmbito da vocação sacerdotal, a que cada um de vocês procura responder, o Celibato por amor do Reino dos Céus surge agora como um dom recebido e assumido. Quais as vossas disposições interiores na hora de acolher este dom que convida a ir mais além do que se vive aqui e agora, como uma profecia encarnada?

Jorge Germano - É o dia-a-dia das nossas vidas, sem anularmos, sem fugirmos, sem ignorarmos todas as tentações... É este sinal e é este sinal que eu pretendo viver. Viver todos os dias de serviço, de disponibilidade, de entrega de 24 horas por dia. Esta entrega faz confusão a muitas pessoas, mas eu costumo dizer-lhes que a minha família não é só o meu pai, a minha mãe e o meu irmão, mas que agora é cada comunidade, que eu conheço e que não conheço, particularmente a comunidade que sirvo actualmente – Condeixa, por quem rezo - porque estou com eles, caminho, sofro… É esta vivência, este entendimento, esta disponibilidade.

Pedro Simões - No meu percurso no Seminário, foi sempre uma questão amadurecida sobretudo nos momentos em que me encontrava com o meu director espiritual. Realmente, abraçar o celibato é uma entrega radical, desinteressada, gratuita que nós oferecemos da nossa vida à Igreja. Viver como o próprio Jesus viveu em castidade, em celibato. Claro que tem as suas encruzilhadas e existem sempre as tentações. Deus chama-nos a um coração indiviso, a um coração que não se prende só a este mundo mas que se prolonga até à eternidade. É ser chamado a viver já essa mesma eternidade no nosso mundo.

Nuno Fileno - Procurar amar à maneira de Deus, como Jesus amou, de uma forma total, de uma forma desprendida, amar mesmo a todos, é a melhor forma de poder viver o celibato como profecia do Reino dos Céus.

 

Correio de Coimbra - Provavelmente não vos tem faltado o apoio e encorajamento de tantos fiéis, mas cada um de vocês tem noção que é uma "provocação" a tantos e tantas que estão na periferia. Já se sentiram interpelados por uns e por outros? Como reagem?

Nuno Fileno - É frequente haver alguma surpresa por parte das pessoas, por esta opção de vida. Eu reajo naturalmente, contando a história da minha vocação, ainda que muitas vezes as pessoas tenham dificuldade em entender a própria vocação. As pessoas das comunidades por onde tenho passado apoiam-me e são muito generosas... Mas, sim, acaba por ser uma provocação! E vou elucidando as pessoas com a história da minha vocação, na perspectiva de que vejam isto à luz de Deus e não à luz humana.

Pedro Simões - No meu caso concreto tenho sentido muito mais interpelações de quem está dentro do que de quem está de fora. No entanto, sinto sempre esta vontade de esclarecer a questão da vocação sacerdotal, desmitificar um bocadinho, porque não é nenhum tabu. As pessoas precisam é de esclarecer e às vezes ficam paradas na superficialidade, não vêm para além. Limitam-se às opiniões deste mundo e não tem aquele alcance de eternidade, aquele alcance de Deus e da Igreja. Infelizmente.

Jorge Germano - Eu tenho consciência de que é uma provocação. Quando digo que acabei o curso do Seminário, me preparo para ser padre e que agora vou ser ordenado diácono... é sempre uma surpresa!, que leva a um diálogo com alguma naturalidade. É boa esta proximidade que vamos tendo com todos, com todas as pessoas, que nos conhecem ou não, mas que vão questionando abertamente e com simplicidade... Mesmo para os mais novos há este sentido de provocação - porque não? - e nós, os três, tivemos essa sorte, no nosso sexto ano de teologia, de poder visitar muitas paróquias da nossa diocese e irmos provocando vários jovens a participarem e a conhecerem o nosso projecto vocacional. Somos realmente sinais de provocação, sem dúvida.

 

Correio de Coimbra - É muito interessante considerar que dedicaram o vosso mestrado em Teologia a três figuras cimeiras da fé cristã, Santa Teresa de Jesus, o Beato Carlos de Foucauld e o Padre Dehon. Da "Conclusão" de cada um dos vossos trabalhos, pude recolher algumas ideias que gostava que pudessem comentar.

Fileno, concluíste assim o teu trabalho: "O padre Dehon e a sua obra constituem um permanente desafio para os nossos dias: (...) foi um homem que soube conciliar a vida espiritual com a acção pastoral, demonstrando assim que a espiritualidade implica sempre sair de si para ir ao encontro do outro. (...) Num tempo em que o sacerdócio ministerial corre o risco de perder a sua identidade, sobretudo devido à cultura dos nossos dias, que é marca de uma sociedade mais voltada para o imediato, o legado espiritual do padre Dehon constitui um guia actual para a vida dos sacerdotes."

O equilíbrio entre Marta e Maria é difícil... Como pensas que o ministério diaconal pode consegui-lo?

Nuno Fileno - Bem, o desafio é para o diácono, para o sacerdote, para os leigos; é sempre o mesmo: conciliar a espiritualidade, a vida espiritual com a vida pastoral. Eu penso que uma sem a outra corre o risco de não ser fecunda. Não é possível uma sem a outra. Uma pessoa que vive uma espiritualidade total sem considerar a vida pastoral corre o risco de uma espiritualidade desencarnada, fora do tempo, fora do mundo; e o contrário também não é bom. Alguém que se dedica inteiramente à pastoral sem reconhecer o próprio Deus que há-de estar por trás de tudo isso porque a obra não é nossa, mas sim de Deus, corre o mesmo risco. O desafio é esse: um equilíbrio difícil, mas necessário, entre a oração e a vida pastoral. E é esse que eu procurarei viver no meu ministério diaconal e presbiteral, se Deus quiser.

 

Germano, terminas assim o teu trabalho: "Torna-se curioso porque nos nossos dias falamos preocupadamente de Nova Evangelização e esquecemo-nos porventura do que é o essencial. Segundo Santa Teresa de Jesus, só podemos considerar a prática da Evangelização ou da Nova Evangelização se primeiramente se viver uma relação permanentemente com Cristo (...). No fundo o que nos é transmitido e que devemos transpor para o “aqui e agora” das nossas vidas, é que corremos o risco de ainda não sabermos orar verdadeiramente”. "Contemplativos na ação", no fundo, a mesma inquietação... Qual o lugar a dar à oração no ministério que irão receber?

Jorge Germano - Eu acho que não é só no ministério diaconal, mas para todos nós. A oração deve fazer parte central das nossas vidas de cristãos. É claro que nós, que vamos receber o ministério diaconal, devemos ter isso bem presente porque só de joelhos diante de Deus é que conseguiremos ultrapassar todos os dias as dificuldades, e viver as alegrias. Não é só pedir a Deus nos momentos de aflição, é também dar graças. Só nesta dimensão, só com este esforço... Ao falar de Santa Teresa e dos seus ensinamentos era esta a intenção, fazermos muitas coisas, mas rezando essas coisas... Rezarmos as nossas vidas. Eu sou capaz de rezar a minha vida todos os dias? A oração é central. Não só no nosso ministério de diácono, mas também na nossa vida de cristãos. É nessa linha que concluiu a minha tese de mestrado.

 

Pedro, assim concluis a tua tese de mestrado: "O beato Charles de Foucauld foi certamente um cristão que soube interpretar e proclamar o Evangelho utilizando a eloquência do silêncio, a força da fraqueza e a sabedoria da loucura da Cruz. (...) O encontro com Deus causou nele uma revolução tão grande que foi impelido a iniciar uma caminhada decisiva para a santidade – original, definitiva, sem olhar para trás. Ele continua a interpelar a humanidade ainda hoje, convidando-a a deixar a sua rigidez, as suas fronteiras tranquilizadoras ou os pequenos confortos espirituais, para responder aos inúmeros desafios que ele enfrentou."A missão brota deste encontro... Quais te parecem ser os maiores desafios colocados hoje ao vosso ministério?

Pedro Simões - Os maiores desafios colocados hoje ao nosso magistério são, por um lado, conciliar e preocupar-se com a formação permanente de quem está já dentro e, por outro lado, ter a audácia de ir à periferia e tentar buscar, sempre auxiliados e com a graça de Deus, aqueles que estão mais afastados. Os que se afastaram da Igreja e os que nunca ouviram falar do próprio Cristo. Tentar conciliar estas partes, ou seja, preocuparmo-nos com aqueles que estão cá dentro e ter a preocupação de trazermos mais crentes à Igreja, fiéis convictos.

 

Correio de Coimbra - Falámos de figuras do passado que ainda hoje nos falam, mas também podemos evocar outros mensageiros que hoje nos provocam. Em que medida, o exemplo e ensinamento do Papa Francisco interpela o ministério que estais prestes a receber?

Pedro Simões - A mim interpelou-me sobretudo no que diz respeito à linguagem. É um Papa muito mais acessível, não querendo com isso, desvalorizar o pontificado do Papa Bento XVI, muito pelo contrário. No entanto, o Papa Francisco é como a cereja em cima de um bolo acabado de confeccionar. Realmente a Igreja universal estava a precisar de um Papa que fosse um bocadinho mais acessível na linguagem, que chegasse a todos, ao pobre, ao rico e ao pecador. É aquilo que está a ser o pontificado do Papa Francisco.

Jorge Germano - Ajuda-nos a abrir as portas e a ir ter com as pessoas que estão mais afastadas. E, por certo, também com as pessoas que nos estão próximas. O sinal de proximidade e de simplicidade no dia-a-dia, como tantos gestos e atitudes que ele nos tem mostrado... Obviamente que há aqui uma continuidade do ciclo de Bento XVI para Francisco. Mas há também um sentido de renovar, de simplificar, de estar próximo. E é isso que, pelo menos a mim, tem cativado. Esta simplicidade de vida, este modelo de vida, a proximidade com as pessoas, o cuidado com a linguagem. Podemos dizer as coisas de uma forma muito mais simples, muito mais próxima para que ninguém se sinta excluído. O Papa tem-me ajudado muito na sua forma de estar, na sua forma de falar... Quando ele pede para rezarmos por ele e com ele... É um testemunho de vida que cada um de nós deve aprender e viver!

Nuno Fileno - O Papa Francisco é um homem de gestos fortes. É um homem que, pelo gesto e pelo toque, acaba por cativar toda a gente, todo o mundo, crentes e não crentes. Creio que isso é um desafio à proximidade. É um desafio do Papa Francisco à Igreja e ao mundo, sermos próximos uns dos outros, amarmo-nos de facto como irmãos, e não termos medo, como ele próprio disse, de sujarmos as mãos na fragilidade do outro, porque aí está Deus seguramente.

 

Correio de Coimbra - "Evangelho" e "Caridade" bem pode ser o resumo do ministério diaconal. Por sua vez, vocês escolheram como lema da vossa ordenação o pequeno versículo 22 do capítulo 9º da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios: "Fiz-me tudo para todos". Que pode a Igreja de Coimbra esperar de cada um de vocês?

Jorge Germano - A passagem bíblica resume logo. "Fiz-me tudo para todos". É estarmos disponíveis. É estar disponível para a Diocese de Coimbra, no que ela precisar e esperar de mim, na pessoa do Sr. D. Virgílio. É esta disponibilidade. É estar disponível 24 horas por dia para esta diocese. Foi este o desafio que eu aceitei quando disse o meu sim e quando o vou renovando todos os dias. É fazer-me tudo para todos! Fazer-me tudo para estar com todos! Para continuar a caminhar, próximo e igual a eles e não diferente.

Pedro Simões - Na linha daquilo que disse anteriormente em relação ao Papa Francisco, espero que o meu ministério também seja assim. Que o meu ministério esteja centrado não só no pobre, mas também no rico, e sobretudo no pecador. Este "fiz-me tudo para todos" foi realmente vivido assim por S. Paulo e assim também eu o espero viver como diácono e, se Deus quiser, depois como padre.

Nuno Fileno - É precisamente isso que S. Paulo diz na Carta aos Coríntios: estar próximo de todos. Eu penso que é um desafio muito grande, e di-lo o Papa Francisco precisamente, esse da proximidade que não tem fronteiras: pobres, ricos, periferias... É estar próximos de todos e penso que isso é fundamental no ministério. Eu penso que a Igreja de Coimbra poderá esperar de mim alguém que está a caminho, que não é perfeito, alguém que também tem muita fragilidade, que procura fazer caminho com a Igreja e nesse caminho servir a Deus e aos outros. É assim que eu penso o ministério e em concreto o ministério diaconal.

 

Agradecimento
Muito obrigado por esta entrevista! Fica do nosso lado o desafio de vos apoiarmos na oração. Obrigado!

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