Entrevista - Vigário para a Pastoral

“Sem pequenos grupos, a Igreja não se renova”

Definindo-se como “alguém que acredita”, o Pe Jorge da Silva Santos leva três anos de Vigário para a Pastoral na Diocese de Coimbra, onde imprimiu indelevelmente o seu entusiasmo e as suas convicções mais profundas, trazidas aqui, hoje, em entrevista, às portas da celebração do Dia da Igreja Diocesana (31 de maio).

Correio de Coimbra (C.C.) - Vai fazer em junho três anos que o Pe. Jorge foi nomeado, pelo Sr. Bispo, Vigário para a Pastoral. Quais foram as notas mais positivas da caminhada da Diocese nestes três anos?
Pe. Jorge da Silva Santos (J.S.S.) – Penso que a mais importante foi a definição de uma Visão para a Diocese. Isso deu-nos norteamento, orientação. Sabemos para onde queremos ir! Depois, naturalmente, vem a execução dessa visão através de um plano, que é o Plano Pastoral Diocesano que temos em curso.


C.C. - Essa Visão é…
J.S.S. –Alicerçados em Cristo, formamos comunidades de discípulos para o anúncio do Evangelho”. Embora sendo uma frase curta, tem um enorme alcance no conteúdo e na orientação que implica para a pastoral diocesana. Porém, é importante percebemos que não chega o Bispo, os que trabalham mais directamente com ele, e mesmo os párocos, terem esta Visão; é preciso partilhar a Visão com o maior número possível de pessoas para que todos entrem na mesma caminhada e as coisas, pouco a pouco, possam começar a mexer. Por isso, este ano fomos apresentar a Visão, e o Plano, a todos os arciprestados, e acho que foi muito positivo. Eu creio que neste momento, na Diocese, existe já a perceção de que tudo o que estamos a fazer, em todos os setores da pastoral, está integrado nesta Visão e encontra a sua unidade na mesma.

C.C. - E outras notas positivas…
J.S.S. – Penso que foi, e está a ser, muito importante a renovação das estruturas diocesanas, para as adaptar a esta nova visão evangelizadora. Começou-se pela redefinição dos arciprestados, que passaram a ser dez, dando-se maiores responsabilidade aos arciprestes, que são os seus grandes animadores pastorais, e que neste momento formam como que um senado que reúne com o Bispo duas vezes por trimestre e onde se partilha tudo o que acontece nos arciprestados. Também a criação dos Conselhos Pastorais de Arciprestado está a ser muito importante. Eu participo no de Coimbra, e gosto de ver os leigos a debater com os padres e os padres com os leigos, a dizerem todos o que pensam e a procurarem juntos o melhor caminho. Daqui, sublinharia um terceiro aspeto positivo: termos cada vez mais leigos corresponsáveis na vida da Igreja, a trabalhar conjuntamente com os padres não só na execução das coisas, mas também no seu pensamento, no discernimento dos caminhos a seguir.

C.C. – As diretrizes centrais, do Bispo com as suas Equipas, partem, na sua elaboração, da vida das comunidades e conseguem, depois, na sua execução, permeá-las?
J.S.S. – A Visão e o Plano nasceram de uma reflexão muito aprofundada em várias instâncias, que refletem a vida da diocese. Na execução, penso que há vários indicadores muito positivos:  há o trabalho desenvolvido no Conselho Pastoral Diocesano, muito assente na execução do Plano; a participação muito ativa e esclarecida de leigos nos Conselhos Pastorais de Arciprestado; a participação de um grande número de leigos nas Jornadas de Formação Permanente, em janeiro; a caminhada que se está a fazer no lançamento da catequese de adultos. E também nas paróquias. Naturalmente acreditamos que quanto mais as pessoas participam ativamente na elaboração do plano, mais depois irão trabalhar para o executar nas comunidades onde estão inseridas, e assim as permear.
Mas tudo isto não se torna logo visível. Leva tempo, muito tempo! Uma visão missionária, como dizia Dom Dominique Rey (que já esteve entre nós), gira em torno de 5 “p”: tem que ser uma paixão que nos mobiliza, tem que assentar num projeto, num plano; exige uma parceria, isto é, que seja partilhada por todas as pessoas possíveis; exige também paciência, perseverança. Isto não vai lá num ano ou em três anos. É preciso mesmo muita perseverança, sempre com aquela paixão que já referi; e depois, o último “p”, a prece, ou, mais simplesmente, a oração. Aqui não estamos numa empresa, mas na Igreja de Cristo. Sabemos que Ele está connosco e que Ele é que é o mestre e nós discípulos. Daí a necessidade de nos colocarmos diante dele em adoração e escuta e esperar d’Ele os frutos.

C.C. – E que caminhos se podem adivinhar para o futuro?
J.S.S. – Eu penso que temos que permanecer fiéis a esta visão, que consiste no primeiro anúncio, em edificar uma Igreja missionária fruto do encontro pessoal com Jesus Cristo e em ajudar os cristãos a alicerçarem-se n’Ele numa fé adulta. Isso exige catequese de adultos, exige que as pessoas façam experiência de comunhão e de Igreja em pequenos grupos. Penso que temos que ser fiéis a isto, a uma Igreja que se enraíze através de pequenos grupos que aprendam a trabalhar em conjunto e vivam relações de comunhão.

C.C. – Permita-me duas objeções. Primeira: Isso não será uma opção pastoral mais para Coimbra ou para a beira-mar?! No interior, as paróquias nem têm agentes suficientes para a pastoral tradicional…
J.S.S. – É sempre possível formar grupos onde as pessoas reflictam a fé, sejam mais velhos ou mais novos. Todos precisam de conhecer melhor o Senhor e alicerçar a sua vida n’Ele. Sem pequenos grupos, a Igreja fica massificada e não se renova. Jesus falava às multidões…, mas, em particular, tudo explicava aos discípulos. Ele importava-se, fundamentalmente, em formar discípulos que, por sua vez, fossem capazes de formar outros, porque era esse o futuro para a Igreja.

C.C. – Segunda: não corremos o risco de esfarelar a vida comunitária em grupos?
J.S.S. – Não. Eu acho é que deixa de haver verdadeira vida comunitária se não houver grupos que experimentem e aprofundem a fé dando testemunho dela. São eles que tornam a comunidade mais viva, muito mais dinâmica. Eu vejo isso aqui, na minha própria paróquia, em que há muitos grupos e o rosto da própria comunidade se renova exatamente por causa da existência desses pequenos grupos. Com os grupos pequenos a comunidade cresceu, e não só em número, mas também na experiência do que é ser Igreja, exatamente pela força que vem de tanta gente que está em pequenos grupos, onde fazem um caminho de renovação. Se conseguirmos incentivar na Diocese que se criem vários pequenos grupos nas paróquias, nomeadamente grupos de catequese de adultos, isso irá ter uma grande influência na mudança do rosto das paróquias e consequentemente da diocese.

C.C. - Nessa mudança de rosto há, com certeza, emperramentos. Pode identificar alguns?
J.S.S. – O primeiro emperramento é sempre o nosso pecado, o nosso orgulho. Depois, as nossas resistências à mudança, a dificuldade que temos em aceitar o novo, as rotinas. Como diz o Papa, é preciso que as coisas mudem, não podemos continuar a fazer aquilo que sempre fizemos. Mas isso é difícil, porque fazer o mesmo que sempre fizemos dá-nos segurança, enquanto que encetar caminhos novos exige que saiamos da nossa zona de conforto. Mas as dificuldades são também oportunidades; elas fazem com que nós reflitamos com mais exigência o trabalho, que o reajustemos…Tornam-nos também mais humildes. Fazem-nos voltar para o Senhor, pois quando uma coisa vai bem e começamos a ter sucesso esquecemo-nos que é d’Ele que vem a fecundidade. E depois, haverá sempre aqueles que são, digamos assim, locomotiva, que vão à frente e puxam, e aqueles que depois, à medida que veem os resultados, vão aderindo.

C.C. – O Pe. Jorge é reconhecido na Diocese, e em Portugal, como um introdutor de novidade, por exemplo os cursos alpha, as células de evangelização. Podemos também evocar a sua ligação à comunidade Emanuel, ao renovamento carismático. Não corre o risco de ser visto como um “apaixonado”, a quem falta a densidade da consolidação pastoral?
J
.S.S. – Esse risco existe. Aliás, não só o risco, porque já tenho ouvido algumas vezes, efetivamente, essa crítica. Mas ninguém é perfeito e quando o Bispo me convidou para este serviço, eu disse-lhe logo que era visto como «carismático» e isso podia ser um obstáculo. Ele respondeu-me que já lho tinham dito e portanto conhecia os riscos. Mas também entendo que aquilo que pode ser um limite para alguns pode ser também uma riqueza. Porque, de facto, eu sou assim. Um dia encontrei o Senhor num encontro do Renovamento Carismático e isso mudou a minha vida. Acredito que isso pode acontecer com outros e transformar também as suas vidas e sou testemunha de que isso acontece todos os dias. Por isso é que insisto, talvez demais, na importância do primeiro anúncio. Além disso o facto de ter sido fundador da Comunidade Emanuel em Portugal e seu responsável durante muitos anos, fez-me sair muitas vezes do país e permitiu-me ver a Igreja a incarnar-se em experiências diferentes noutros contextos e noutras culturas, e isso ajudou-me a relativizar muito as coisas, a perceber que há outros modos possíveis de fazer, que a gente pode experimentar de outra forma… Eu não inventei nada. Tudo o que trouxe foram coisas que eu vi a acontecer noutros países, e que experimentei aqui porque acreditei que poderiam dar fruto. Por exemplo, conheci o Alpha na Igreja anglicana de Londres; cheguei a Febres e experimentei. E vi que deu fruto! E agora vejo frutos de renovação e crescimento em muitas paróquias da diocese e do país. Por isso acredito que os cursos alpha podem ajudar a renovar a nossa Igreja, também a Igreja diocesana.

C.C. - Igreja diocesana que celebramos, muito festivamente, no último domingo deste mês. Que significado tem celebrar a Igreja diocesana
J.S.S. – Eu espero essa celebração como um grande dia, porque acho que é muito importante os cristãos encontrarem-se. Os cristãos fazem a experiência de Igreja normalmente na paróquia, que é a expressão mais básica de Igreja, mas que não é a Igreja inteira. A expressão mais completa, digamos assim, da Igreja é a diocese. Ora aos cristãos faz falta, e faz bem, encontrarem-se não só na sua paróquia, mas também numa experiência de comunhão mais alargada, no âmbito diocesano, onde está o Bispo, o presbitério reunido, as outras paróquias, as comunidades religiosas, os movimentos. Isto ajuda os cristãos a fazerem esta experiência de se sentirem Igreja, a aprofundarem este “sentido de pertença” que está dentro dos objetivos do Plano Pastoral. Doutros encontros que tivemos, como as peregrinações diocesanas a Fátima, ouvi esse testemunho de algumas pessoas. Recordo um email que dizia: “Sr. Padre, foi uma bela experiência de diocesanidade”; outro que dizia: “senti-me orgulhosa por pertencer a esta Diocese”. Gostaria muito que pudéssemos agora ter no Dia da Igreja Diocesana milhares de pessoas, para estarmos juntos e testemunharmos juntos, na praça pública, a nossa alegria de sermos cristãos na Igreja de Coimbra.

C.C. – Que Igreja Diocesana sonha?
J.S.S. – Sonho uma Igreja com dinamismo missionário fruto do encontro pessoal com o Senhor. Uma igreja que cresce por dentro e por fora. Costumo dizer que o crescimento faz parte dos genes da Igreja desde o início. A Igreja é um Corpo vivo que, se não o impedirmos, só pode crescer. Sonho uma Igreja com paróquias vivas, dinâmicas, e que evangelizem com o testemunho da Palavra e da vida dando testemunho de uma fé adulta pois uma fé que não se torne adulta, isto é alicerçada no seguimento de Jesus que comporta a cruz, não se aguenta no mundo de hoje. Daí a importância da formação de discípulos missionários segundo a Visão do Documento da Aparecida retomado oficialmente pelo Papa Francisco na sua Exortação apostólica. Daí a importância para nós da catequese de adultos que pretende isto mesmo. Esta é para mim a resposta a quase todos os problemas da Igreja; A família, os jovens, as vocações e outros. Temos de ir fazendo alguma coisa nestes campos é certo, mas enquanto as pessoas não se tornarem verdadeiros discípulos do Senhor a quem querem seguir na sua vida, não teremos famílias segundo o projecto de Deus. 

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