Abertura do Sínodo 2021 2023 - Homilia de Dom Virgílio

MISSA DE ABERTURA DO SÍNODO NA DIOCESE DE COIMBRA
“POR UMA IGREJA SINODAL: COMUNHÃO, PARTICIPAÇÃO, MISSÃO”
XXIX Domingo do Tempo Comum B – Sé Velha

Caríssimos irmãos e irmãs!

O Evangelho agora proclamado dá-nos o sentido fundamental da caminhada sinodal que nos é proposta e que agora iniciamos solenemente na comunhão da Igreja Católica e de todas as suas comunidades locais dispersas pelo mundo. O pedido de Tiago e João, seus discípulos, corresponde à visão antiga e mundana que está bem longe da novidade trazida pelo Mestre a quem agora se dirigem.

“Queremos que nos faças o que te vamos pedir”. Pela fé vão, porém, vão eles mesmos criar a disponibilidade interior para fazerem o que Deus lhes pedir. Da tentativa de submeter Jesus à sua vontade, perversão da verdadeira fé e religião, tornar-se-ão discípulos que acolhem o amor, a palavra, o testemunho do Mestre para percorrerem com Ele todos os caminhos da sua vida.

“Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda”. Aqueles seguidores de Jesus continuavam dentro da lógica da busca de poder e muito distantes da lógica da vida como um serviço, que Jesus lhes anuncia. Quando pedem, “que nos sentemos”, demonstram, a indisponibilidade para se porem ao caminho ou um forte desejo de se instalarem na glória do poder.

A expressão usada por Jesus para provocar a mudança de mentalidade e propor o caminho de conversão de todos os discípulos à Boa Nova é muito forte e sem rodeios: “não deve ser assim entre vós”.

Caríssimos irmãos e irmãs! Vemos neste diálogo de Jesus com os seus discípulos o anúncio de Jesus que nos propõe caminhos de conversão e de mudança, a nós que, como cristãos e como Igreja, também nos sentimos discípulos e seguidores de Jesus. A declaração do Mestre, “não deve ser assim entre vós”, vem diretamente ao nosso encontro nesta fase da vida da Igreja que somos no séc. XXI e na nossa Diocese de Coimbra.

Diante deste amoroso apelo de Jesus, poderíamos ficar-nos por elencar um conjunto de problemas existentes no mundo, as dificuldades por que passa a sociedade humana ou até os desencontros evidentes entre o modo de pensar e sentir das sociedades secularizadas e da comunidade crente.

A iluminação do Espírito Santo leva-nos a ver que este momento da nossa história e da história da nossa Igreja nos quer levar para outro lado: quer conduzir-nos pelas vias apertadas e estreitas, mas as únicas verdadeiramente cristãs, da conversão evangélica à pessoa, à mensagem e à vida de Jesus Cristo.

A iluminação do Espírito Santo leva-nos a ver este momento como um dom de Deus para o tempo presente que reconhecemos ser particularmente crítico, em consequência da divisão e desagregação internas e da forte oposição externa.

A Epístola aos Hebreus oferecia-nos a chave de sinodalidade que a Igreja nos propõe, ao dizer: “Vamos confiantes ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”.

“Vamos” é um convite a pormo-nos juntos, como Igreja, a caminho; “confiantes”, configura o modo como havemos de avançar, centrados n’Aquele que nos guia e nos anima interiormente para vencermos as resistências internas, tanto pessoais como comunitárias e estruturais; “ao trono da graça”, como diz a Escritura, indica-nos a meta, que é Cristo, Aquele que faz caminho connosco; “a fim de alcançarmos misericórdia”, aponta-nos o coração de Deus, que é amor e misericórdia, como o núcleo central da revelação e da Boa Nova que todos precisamos de escutar e conhecer; a referência ao “auxílio oportuno” remete-nos para a presença de Deus e para a força do Espírito que nos permite ultrapassar as seguranças humanas e reconhecer que a obra que somos chamados a realizar não é nossa, pois somos simples servidores, mas do Senhor.

Neste momento histórico da vida da Igreja Peregrina de Deus, proponho-vos, caríssimos irmãos e irmãs, três atitudes que havemos de incarnar nas nossas comunidades: que sejamos Igreja em caminho, que ora, anuncia e testemunha.

A dimensão orante é imprescindível para nós, porque manifesta a centralidade de Deus na nossa vida, nos faz crescer na graça do encontro com Ele, faz crescer em nós a disponibilidade do coração para escutar a sua voz, e nos concede o dom do Espírito Santo como iluminação divina para o nosso agir.

A Igreja em caminho de conversão e mudança é a Igreja que se põe à escuta da voz de Deus que lhe fala na Divina Revelação, que progride na comunhão de amor com Deus e com os irmãos, que suplica auxílio e dá graças e louvores na assembleia reunida. A Igreja Comunhão é a que está unida na oração com Maria e os Apóstolos, na celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, nos momentos de louvor e adoração, no silêncio contemplativo do dia a dia, na leitura espiritual da Palavra da Escritura. Se Jesus, o Filho, para manter a comunhão com o Pai, estava em sintonia de coração e vontade com Ele por meio da oração, a sua Igreja pode e deve assumir real e visivelmente, em cada uma das suas comunidades e grupos, a mesma via.

A Igreja sinodal é a que anuncia enquanto caminha e caminha enquanto anuncia o Evangelho da salvação para dentro de si mesma, aos que já deram o passo no sentido do seguimento de Jesus, e para fora, à humanidade não crente, mas igualmente carente de Deus e do seu amor.

Interpretando os sinais de urgência de evangelização nas presentes circunstâncias em que vivemos, o Papa Francisco convida-nos à “suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas!” (EG, 10, cita EM, 75). Trata-se de percorrermos os caminhos da comunhão eclesial decididos a participar da sua missão evangelizadora, mas também das suas alegrias e dos seus sofrimentos.

Abrem-se-nos, hoje, novas vias de anúncio do Evangelho de Jesus Cristo se estivermos fortalecidos pela fé, se progredirmos na unidade e na comunhão e se nos abrirmos à criatividade pastoral que continuamente se revela entre nós.

A Igreja sinodal é a que testemunha o seu amor a Deus e à humanidade enquanto peregrina em todos e cada um dos lugares por onde passa e onde se realiza. Este testemunho tem dois contornos que se deduzem dos textos bíblicos que escutámos: o serviço e a santidade.

O testemunho fiel e verdadeiro exige que a Igreja assuma a condição de serva, à maneira de Jesus Cristo, que veio para ser o servo de todos. Como pessoas e instituições eclesiais temos pela frente o grande desafio de nos desinstalarmos, de prescindirmos livremente de inúmeras prisões que nos impedem de dar ao mundo sinais da salvação de Deus.

A santidade de vida, que é ao mesmo tempo um caminho e um horizonte, resume a condição fundamental para o testemunho cristão. Esta santidade é a vocação de todo o cristão e pode entender-se de forma rejuvenescida, como propõe o Papa Francisco, quando diz: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante” (GetE, 7).

Caríssimos irmãos e irmãs! Não queremos que este sínodo seja apenas um momento de reflexão para oferecer algumas ideias à Igreja acerca da sua renovação e conversão. Queremos que seja um modo de ser da nossa comunidade diocesana, de todas as suas estruturas e de todos os seus membros, que aceitam pôr-se no caminho da comunhão, participação e missão.

Vamos cheios de confiança ao trono da graça, alcançaremos a misericórdia e o auxílio de Deus. Acompanha-nos a proteção da Virgem Santa Maria.

Coimbra, 17 de outubro de 2021
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

 

 

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