Procissão Rainha Santa - Homilia de Dom Virgílio

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (C)
MISSA DO DIA DA PROCISSÃO DA RAINHA SANTA – IGREJA DE SANTA CRUZ – 2022

Caríssimos irmãos e irmãs!

Os santos são Evangelho atualizado e vivido com uma alegria e determinação, que fazem deles testemunhas perenes de fidelidade à fé em Deus e de amor ao próximo para todos os devotos. Assim acontece com Santa Isabel de Portugal, que hoje veneramos de modo especial na cidade de Coimbra, como assim acontece com os outros santos que têm uma ligação estreita com esta Igreja de Santa Cruz: São Teotónio, os Mártires de Marrocos e Santo António. Poderíamos ainda recordar outros santos que tiveram uma relação forte com Coimbra: São José de Anchieta, da Companhia de Jesus, que passou por aqui em tempos de formaçãoa fim de estudar filosofia no Real Colégio das Artes e Humanidades e que se tornou um grande homem na fé, na cultura e em humanidade; mas também os mártires do Brasil, do Japão e da China, alguns naturais de Coimbra ou formados cultural e espiritualmente em Coimbra.

Outras figuras há, que já entraram no coração de Coimbra pelo seu testemunho de fé e de caridade, apesar de não terem sido canonizadas. Refiro-me aos servos de Deus, Padre Américo e Irmã Lúcia. Se Deus quiser, haveremos um dia de poder apresentá-los também publicamente à nossa cidade e à nossa diocese de Coimbra, como figuras inspiradoras capazes de nos ajudarem a elevar o nosso espírito individual e coletivo para a edificação de uma comunidade mais feliz porque mais santa.

Precisamos efetivamente de elevar o nosso espírito e o nosso ânimo, tanto na Igreja como nas diferentes instituições da sociedade civil; precisamos de olhar para nós, pessoas e instituições, e de olhar para a nossa terra de uma forma entusiasta e feliz. Não podemos repousar à sombra das glórias do passado nem sucumbir face às dificuldades do presente.

A mudança de atitude interior, para fortalecer a vontade e a mudança de sentir comunitário para projetar caminhos de futuro orientados para o progresso harmonioso e respeitador da pessoa humana, é uma urgência. Gostamos da nossa terra e havemos de o dizer; amamos as nossas gentes e havemos de trabalhar incansavelmente por elas; temos honra nas nossas instituições e havemos de dignificá-las e pô-las ao serviço do bem, como nos recomendava o Evangelho quando dizia: “trata bem dele”.

Os santos de Coimbra, inscritos ou não nas páginas das hagiografias locais ou universais, amaram esta terra e estas gentes, movidos pela fé em Deus e pela caridade para com o próximo, ajudaram a construir um futuro promissor, e agora testemunham ainda a força dessa determinação e alegria de unir e de servir que nos podem levar muito mais longe nas realizações humanas, tanto materiais como espirituais.

Pensamos, neste momento histórico, na Igreja Diocesana, motivada para aprofundar a sua missão de anunciar o Evangelho e oferecer possibilidades de encontro feliz com a fé cristã e com o Deus que é a fonte de toda a esperança; pensamos também na sociedade conimbricense com todas as suas vertentes – cultural, económica, política, social – determinada a progredir no desenvolvimento integral a que o Papa Paulo VI, na Populorum progressio, se referiu como o novo nome da paz.

Celebrar Santa Isabel de Portugal e celebrar os santos de Coimbra, todos bem enraizados na fé, na cultura, em humanidade, é para nós compromisso assumido com o presente e com o futuro, com a terra e com as gentes, no respeito pela autonomia e pela liberdade de todos, pessoas e instituições, mas sempre animados e fiéis cooperadores uns dos outros. Inspirados por Santa Isabel, entendemos melhor que a fraternidade que nos une e o amor infundido em nós se manifestam na atenção dedicada a cada pessoa que se cruza connosco e se realizam igualmente no serviço que prestamos em favor da edificação da sociedade a que pertencemos.

 

A página do Evangelho segundo São Lucas, agora proclamada, traz à nossa reflexão o centro da vida de qualquer pessoa e o âmago da vida do cristão: o amor a Deus e o amor aos irmãos. Bastaria este texto da Escritura, que expressa plenamente a proposta de Jesus Cristo aos seus discípulos e à humanidade, para nos impulsionar a segui-l’O e a acolher a Sua mensagem. Precisamos de palavras e testemunhos fortes para nos convertermos e mudarmos o mundo, e encontramo-los no Evangelho como em nenhum outro lugar.

A pedagogia de Jesus e do Seu Evangelho levam-nos a fazer uma verdadeira peregrinação interior que nos faz passar da centralidade de nós mesmos à centralidade dos outros. Esse é o caminho de Deus, que não se fecha em si mesmo a guardar o seu nome e a sua santidade no Céu, mas desce e vem à procura de todo aquele que está na terra, que vem à nossa procura para nos fazer alcançar a vida eterna.

Segundo a parábola do Bom Samaritano, o doutor da Lei, centrado na sua pessoa e no seu desejo de alcançar a vida eterna, é conduzido na peregrinação interior que o leva a centrar-se num homem que jaz meio morto. Acaba por compreender que mais do que procurar encontrar a sua vida eterna é importante ser o próximo de um homem, de qualquer pessoa privada da força da vida, ignorado e afastado do acesso aos bens materiais e espirituais que lhe cabem simplesmente por ser uma criatura.

O doutor da Lei faz um percurso interior que o leva a passar da pergunta “quem é o meu próximo” para a pergunta “de quem é que eu sou e devo ser próximo”. Ao longo da peregrinação vai compreendendo cada vez melhor que procurar a sua vida eterna é muito pouco e que procurar a vida dos outros é a grande resposta de amor inscrita no seu coração, é a plenitude da Lei.

Esta mensagem central do Evangelho é revolucionária, porque nos faz evoluir rapidamente no modo como nos situamos na relação uns com os outros, como somos pessoas cristãs na Igreja e na sociedade. De um ponto de vista pessoal, somos para os outros, como enfatizou o Papa Francisco na Exortação Apostólica “Cristo Vive” (nº 258), apontando aos jovens o cerne da sua vocação. De um ponto de vista comunitário e institucional, as instituições de matriz confessional cristã ou mesmo as instituições laicas iluminadas pela tradição cultural judeo-cristã, são para os outros, são para a sociedade.

A pergunta que havemos de ter sempre presente, pessoas e instituições, é a que flui da conclusão da parábola de Jesus: de quem é que eu sou próximo? Quando nos fechamos a tentar preservar o bom nome, o poder, o bem pessoal ou institucional, deixamos muita gente caída à beira do caminho. O amor refletido na vida pessoal, social e institucional deixa muitas sequelas, não garante sempre a melhor popularidade, põe frequentemente em causa o bom nome a que se tem direito, por vezes cria fortes constrangimentos financeiros, mas é fonte de vida, constitui a revolução evangélica a que somos chamados.

Santa Isabel de Portugal assumiu fazer parte dessa revolução evangélica e cristã hoje proclamada na liturgia que celebramos. Foi muito além da consideração da sua pessoa e das instituições a que pertencia, foi verdadeiramente próxima de Deus, que amou, e dos outros que serviu. É a nossa padroeira e honramo-la com um culto que é acima de tudo compromisso pessoal, eclesial e social.

Santa Isabel de Portugal, rogai por nós!

Coimbra, 10 de julho de 2022
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

Oral

Genç

Milf

Masaj

Film

xhamster