As lições de Kamala Harris

As lições de Kamala Harris

Liliana Marques Pimentel
Comissão Diocesana de Justiça e Paz

No passado dia 5 de novembro de 2024 tiveram lugar as eleições mais importantes do mundo e talvez das últimas décadas. Sim, não é só por serem os Estados Unidos da América, gigante político, económico e cultural. É também por estar em causa a eleição de Donald Trump, cada vez mais radical no ataque aos imigrantes e aos seus adversários.

Independentemente do resultado eleitoral, devemos refletir sobre a campanha que Kamala Harris fez e as lições que isso possa trazer para a nossa própria política. A candidatura de Kamala teve uma importância maior para além da política americana, teve uma importância internacional e para a política de uma forma geral.

A candidatura de Kamala Harris representou essencialmente uma candidatura da diversidade e um marco no que diz respeito à representatividade, e abre as portas para que outras mulheres se sintam incentivadas a conquistar lugares na política.

Tal como ela própria referiu, quando foi eleita para o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos, “Eu posso ser a primeira mulher neste cargo, mas não serei a última. Porque cada garotinha que está assistindo esta noite vê que este é um país de possibilidades!”

Acredito que a sua candidatura permitiu que todas as mulheres, independentemente da sua cor da pele e das suas posições político-partidárias, se sentiram de certa forma representadas.

A ausência de mulheres na política é uma questão que precisa ser discutida, pois reflete não uma falta de desejo dessas mulheres em ocupar espaços na política institucional, mas explicita uma divisão desigual do trabalho doméstico e dos cuidados com os filhos, assim como um machismo que faz com que, mesmo quando se candidatem, não sejam eleitas. Esse cenário é ainda mais violento quando falamos das meninas negras, preteridas em relação às meninas brancas e aprisionadas num modelo de hipersexualização dos seus corpos, uma vez que a ausência de mulheres negras na política decorre principalmente do machismo e do racismo.

Nesta eleição, as coisas correram de forma diferente. Em cidade após cidade, a advogada afro-asiática conseguia superar desconfianças e recordes de mobilização nos seus comícios, com uma mensagem fortemente assente no apelo a determinadas bases eleitorais, como as mulheres ou os hispânicos. Nos últimos dias, os peritos em sondagens passaram a prever vitórias de Harris em estados tipicamente republicanos, corrigindo as previsões anteriores e o seu viés pro-Trump.

No que é essencial, a mensagem, esta candidatura teve uma abordagem diferente. Por detrás do riso de Kamala está uma mulher que, enfrentando uma poderosa marca de desinformação e um perigoso dogma de liberalismo, assumiu com coragem a defesa da IVG, a legalização da canábis e a utilização de regulação económica no lugar de mais discriminação negativa e impostos redistributivos.

Uma eleição é, obviamente muita coisa. Uma vitória dos Democratas ou dos Republicanos não quer dizer que a mensagem chegue, dentro da bolha ou seja com quem for. A grande questão, porém, está longe de ser essa. Está em saber se a coragem de assumir posições políticas ainda vale mais pessoas nos comícios e nas urnas do que o velho truque da dramatização e do discurso de ódio. No final do dia, é a saúde da democracia que está em risco.

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