“NUNCA TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS”
Daniela Sofia Neto
Comissão Diocesana Justiça e Paz
Nos últimos anos, Portugal viveu verdadeiras tragédias em torno dos incêndios. Ainda recordados das imagens devastadoras do incêndio em Pedrógão Grande, em 2017, e dos incêndios que marcaram o mês Outubro desse mesmo ano, esta semana foi vivida de novo sob uma nuvem de fumo e imagens que nos desolam a todos. As paisagens verdes que outrora cobriam o território nacional estão constantemente ameaçadas por chamas que consomem milhares de hectares de florestas, matas e até mesmo zonas de habitação. O impacto destes incêndios é assolador: vidas ceifadas, fauna e flora dizimadas e ecossistemas destruídos.
Num discurso proferido por Churchill em agosto de 1940 acerca dos esforços da Royal Air Force durante a Segunda Guerra Mundial contra as forças de Hitler para a invasão de território britânico, “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”, frase que dá título a este artigo, reconheceu o valor e a dívida de uma nação inteira perante aqueles que estavam na linha da frente e que, assumindo os riscos das suas próprias vidas, contribuíram para a preservação de milhares. Hoje, 80 anos depois, vivemos uma guerra completamente diferente. Desta vez, e uma vez mais, as chamas irrompem por todo o lado, ceifando vidas, e destruindo bens e, em lugar do céu da Inglaterra, é o nosso país que chora.
Os poucos, desta vez, são os Bombeiros de Portugal que, num esforço abnegado, dão o melhor de si sem pensar em si, arriscando as suas vidas para salvar milhares. Abrem mão do seu bem estar para, arriscando a vida, se dedicarem a salvar gentes que não conhecem, trabalhando horas e horas sob imensa pressão, sem ao menos saber quando isso vai acabar. E, assim como os pilotos ingleses eram abatidos e voltavam para o combate, também os nossos bombeiros não desistem do seu combate e voltam sempre para a frente de batalha, porque eles sabem que são essenciais nesta guerra.
Esta semana acordamos sob uma nuvem cinzenta, num céu que podia ser do azul mais belo e o olfato a captar o fumo não deixou ninguém despercebido. Em Coimbra, vimos o fogo instalar-se às portas da cidade, com clarões e imagens que tão depressa não esqueceremos. Não se esquece também a sensação de impotência para quem assiste a esta crueldade, para quem vê o fogo aproximar e para quem nada consegue fazer pelos seus e pelos que estão cercados pelas chamas em zonas de perigo, muitas vezes sem meios de contacto. No meio desta devastação, há aqueles que estão na linha da frente para proteger o país – os bombeiros, verdadeiros “Soldados da Paz”, que arriscam as suas próprias vidas para combater incêndios de proporções colossais. A esses “tão poucos”, nunca “devemos tanto”.
Este é um tema que tem estado na ordem do dia da Comissão Diocesana Justiça e Paz, apelando à Encíclica Laudato Si’, escrita pelo Santo Papa Francisco, para nos chamar à atenção para a necessidade de cuidar da “Casa Comum”. Esta encíclica convida-nos a priorizar a proteção do meio ambiente, reconhecendo a coragem e sacrifício incansável por estes “tão poucos” que lutam para preservar o que ainda resta da nossa herança natural e guiados por um senso de dever que transcende o individualismo.
“Tantos” devem, de facto, “tanto” a “tão poucos”, mas esta dívida não pode ser paga apenas com agradecimentos e reconhecimentos. É preciso ir além. É preciso despertar uma nova consciência ambiental, que promova a preservação da Terra para as gerações futuras, tal como propõe a Encíclica Laudato Si’.
A Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra solidariza-se com todos os que estão a ser afetados dramaticamente pelos incêndios e particularmente pelas famílias enlutadas que, de forma trágica, perderam os seus entes queridos. O momento é de darmos as mãos para combater esta tragédia dos fogos que, ano após ano, destroem o nosso património, o ambiente e também infelizmente vidas humanas. E, por isso, a nossa solidariedade e a nossa oração para ultrapassarmos estes momentos tão difíceis para tantas famílias, para tantos bombeiros e para o país.






