A Laudato Si e a Doutrina Social da Igreja

A Laudato Si e a Doutrina Social da Igreja

Idalino Simões

De 1 de setembro até ao dia 4 de outubro celebramos o «tempo da Criação», um tempo de reflexão sobre a criação com o lema «Sementes de Paz e de Esperança» conforme tinha anunciado o Papa Francisco e o Papa Leão XIV confirmou pela mensagem de 30 de junho do corrente ano. Nos 10 anos da Laudato Si, nos 800 do Cântico das Criaturas de Francisco de Assis e nos cinco anos da Fratelli Tutti penso que será importante olhar os contributos inovadores desta Encíclica para a renovação da Doutrina Social da Igreja. Num tempo de emergência climática é um bom exercício revisitar este notável e surpreendente documento do Papa Francisco e perceber como ele, alargando a noção de bem comum ao cuidado da Criação, alarga o campo da justiça a uma zona pouco visitado pelas Igrejas. Naturalmente havia já pronunciamentos significativos sobre a o cuidado da Criação, dum modo especial João XXIII, João Paulo II e Bento XVI. A publicação da Laudato Si em 24 de maio surpreende porque é uma proposta dirigida não apenas à Igreja, mas «a toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integrado» (LS13).

Inserindo esta carta Encíclica no magistério social da Igreja, o Papa Francisco abre um novo capítulo da Doutrina Social da Igreja, identificando a «relação íntima entre os pobres e a fragilidade do Planeta» (LS 16), afirmando que a violência presente no coração humano é visível nos sintomas de doença que a natureza revela. Na sequência dos grandes documentos da DSI o Papa Francisco insere a questão climática como componente indispensável do bem comum: «A ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador da ética social. É o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto a grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (LS 156). Na sequência desta afirmação seguem, naturalmente duas outras constatações:

  1. «Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres. Esta opção implica tirar as consequências do destino comum dos bens daa terra…(LS 158)
  2. A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. As crises económicas internacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o desconhecimento de um destino comum, do qual não poderão ser excluídos aqueles que virão de nós… (LS 159).

Com a referência a estes dois aspetos, entre outros sublinhados no capítulo sobre a ecologia integral na Laudato Si, destaca-se que o cuidado da casa comum não é apenas uma questão ambiental, mas um grande desafio sobre a vida e a justiça social e ‘todos os aspetos da crise social’ que vivemos, como se afirma no nº 139: «Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos oprimidos e, simultaneamente, cuidar da natureza».

Se a esta carta encíclica juntarmos as cartas e mensagens aos Movimentos Populares temos a grande contribuição do Papa Francisco para a renovação e atualização da Doutrina Social da Igreja. Termino com as palavras de Leão XIV que termina assim a sua mensagem para o «Tempo da Criação»: «A encíclica Laudato Si acompanha a Igreja católica e muitas pessoas de boa vontade desde há dez anos: que ela continue a inspirar-nos e que a ecologia integral seja cada vez mais escolhida e partilhada como caminho a seguir».

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