A vida não manda mensagem
Isabel Maia
Economista, docente do Ensino Superior
(Comissão Diocesana Justiça e Paz)
Há dias que começam brilhantes e terminam negros, com a notícia de que, para alguém, esse dia não chegou ao fim. A vida parece que sai de mansinho, não se despede e, por seu lado, a morte não se anuncia, apenas se impõe!
Parece que é como uma frase interrompida, um instante de um beijo que nos deixa sem fôlego ou uma selfie em gravação lenta e zás… num instante, um cabo solta-nos da vida e tudo se desfaz.
Depois soam as sirenes, as notificações, os telemóveis não atendem…enquanto outros filmam friamente, sem filtros e noticiam a dor e o sofrimento em folhetins, aparentemente irreais, de famílias desfeitas: “o bébé que fica sem família”, “o casal que morre abraçado”, “a colisão, em grande velocidade, contra o prédio na última curva”. Fica aquela cadeira vazia, o número aparece no visor e não toca, o sabor nos lábios de um beijo adiado ou o sonho de um colo que nunca mais se terá.
Na exaustão dos nossos dias acreditamos, planeamos, agendamos, prometemos, sonhamos: “para a semana ligo-te”, “em outubro fazemos aquela tertúlia”, “não respondo a mensagens, depois falarei”, quando sabemos que um segundo basta.
O tempo, que julgamos ser nosso aliado, rapidamente se torna traidor. Esse tempo, o que nos obriga a olhar para a nossa vulnerabilidade, num tempo em que tudo nos convida à ilusão de total controlo.
Lisboa, Coimbra, Figueira, como tantas outras cidades, são feitas de rostos que partilham mortes repentinas por acidentes absurdos, tragédias evitáveis ou outros “cabos” que nos deixam de ligar. Mas é assim e continuamos, com esta fé cega de que temos todo o tempo do mundo.
Se pensarmos bem, a maior lição não é contrairmos e ter medo, mas antes ter urgência. Não é ter uma rotina acelerada que nos anestesia a alma, mas ter a urgência de viver com presença, de fazer e de dizer agora, já! É a urgência de não deixarmos para depois os gestos que nos definem hoje. Por isso, não adiemos o beijo, o pedido de desculpa, o encontro, a nossa vida.
E não podemos temer a morte, para honrar e celebrar a vida.
Inevitavelmente, na presença da morte surge a pergunta que não se ousa fazer em voz alta, mas que arde por dentro: Onde estava Deus?
Não é uma questão teológica, mas visceral.
É mais um grito no recato do silêncio de quem crê, mas sofre. É uma questão de quem aprendeu desde criança que Deus é Amor e que em cada mensagem nos disseram que “não nos abandonará jamais”.
Mas então, porquê?
A resposta não vem como um raio de luz, ou seja, uma explicação lógica. Talvez venha num gesto humano, num choro partilhado ou num terço apertado entre os dedos. Mas, mesmo sem aparente resposta, o importante é que não nos sintamos sós. Quando se sente que dor é acolhida com amor, também pode ser oração.
Para nós, católicos, estas perguntas não são um sinal de dúvida, mas antes o nosso lado mais humano de estar diante do Mistério. Exatamente porque a nossa fé não nos anestesia e, por isso, não pode ser um escudo contra a dor, mas antes um aconchego e até um chamamento para continuar a crer e até mais, mesmo quando todos gritam o contrário.
E tantas vezes ouvimos, no meio da tragédia: “Foi a vontade de Deus”. Será? Ou antes poderemos perceber que Deus não é o autor da morte, mas o companheiro silencioso na dor dos que ficam? A dor não se explica, partilha-se.
Esse nosso Deus — que chorou por Lázaro, o que se deixou crucificar — não é indiferente ao sofrimento.
Deus não está nas causas do acidente, da morte, da tragédia, mas nas mãos dos que amparam: no vizinho que bate à porta com uma sopa, naquele abraço que sustém ou mesmo no silêncio que consola.
A vida não manda mensagem, nem ninguém nos prepara para a última curva.