Acolher a graça do perdão – Exortação Pastoral sobre o Sacramento da Reconciliação

Acolher a graça do perdão

Exortação Pastoral sobre o Sacramento da Reconciliação

A paz nasce de corações reconciliados

Vivemos um tempo marcado por profundas divisões. Em muitas partes do mundo, a guerra continua a ferir povos inteiros, enquanto nas nossas sociedades crescem polarizações que separam famílias, comunidades e nações. As diferenças de opinião transformam-se facilmente em confrontos, o diálogo dá lugar à desconfiança e a cultura do encontro parece, por vezes, ceder perante a lógica do conflito. E nós próprios, pessoalmente, quantas vezes nos sentimos também divididos por dentro, fraturados, carecidos de um abraço reconciliador com a vida, com os outros, com Deus…

A Palavra de Deus recorda-nos que a verdadeira paz nasce de corações reconciliados. A apóstolo Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios, deixa-nos uma forte exortação, que nasce da consciência da renovação pascal que a graça de Deus opera na vida de quem a acolhe: «Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo, confiou-nos o ministério da reconciliação. Em nome de Cristo, suplicamos-vos: reconciliai-vos com Deus.» (2 Cor 5, 18. 20). É no acolhimento da graça divina, que sempre nos liberta das amarras do mal e nos reintegra como filhos amados, que encontramos a força necessária para sermos no mundo alegres construtores de uma nova fraternidade.

Por isso, neste mundo que tantas vezes responde ao conflito com mais conflito, torna-se cada vez mais urgente redescobrir o valor da reconciliação — não como um ideal distante, mas como um caminho concreto para reconstruir relações feridas e restaurar a esperança. E a Igreja, fiel à missão recebida de Cristo, é chamada a ser sinal e instrumento de reconciliação e de paz. O Senhor, que nos confiou o ministério da reconciliação, convida-nos a superar as barreiras da divisão e a dar lugar à escuta e ao perdão, fundamentais para a abertura ao diálogo, que gera encontro e consolida a paz.

Escrevo esta Exortação Pastoral no contexto deste tempo de Quaresma que a Igreja nos proporciona, acolhendo os numerosos apelos de Deus à reconciliação, contidos na Sagrada Escritura, e os sinais dos tempos, que clamam hoje por uma renovada cultura da “paz, desarmada e desarmante”, como recorda o Papa Leão XIV. A presente Exortação Pastoral tem como propósito convidar os fiéis e todas as pessoas de boa vontade a redescobrir a profundidade espiritual e eclesial do Sacramento da Penitência, que nos faz regressar à comunhão com Deus e com os irmãos.

Que o acolhimento da graça sacramental possa tornar-se fonte de renovação interior e impulso para reconstruir relações nas nossas famílias e comunidades. Só assim poderemos testemunhar, no meio das divisões do nosso tempo, que a misericórdia de Deus é atuante e eficaz, pois continua a abrir caminhos novos de esperança e de paz, recriando o mundo e os corações a partir da Páscoa de Jesus Salvador, nossa vida e reconciliação.

O amor misericordioso de Deus

No exercício do seu ministério público, Jesus revelou à humanidade o coração misericordioso do Pai que O enviou, não para condenar o mundo, mas para o salvar. Ao anunciar o Evangelho, no encontro com os homens e mulheres seus irmãos, Jesus foi curando as doenças, expulsando os demónios e perdoando os pecados, sinal de que tinha chegado o Reino de Deus. Em toda a sua ação revelou que há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. No seu mistério pascal, Cristo reconciliou com Deus toda a humanidade e instituiu o Sacramento da Penitência, dando à Igreja, de modo especial aos apóstolos e aos seus sucessores, o poder de perdoar os pecados.

A Igreja, enviada por Cristo, com a força do Espírito Santo, nunca mais deixou de chamar ao arrependimento e à conversão aqueles que, pela sua fragilidade, após o batismo, caíram no pecado, reconciliando-os com Deus.

O perdão de Deus na liturgia da Igreja

A forma como o perdão de Deus foi sendo celebrado e experimentado dentro da Igreja adquiriu diferentes expressões ao longo dos séculos: da penitência pública, passando pela penitência tarifada, até à confissão auricular. Nas suas diferentes modalidades, a consciência do pecado, o arrependimento, o desejo de conversão, a confissão dos pecados e a mediação da Igreja, foram realidades constantes do Sacramento da Reconciliação.

A consciência de que o pecado pessoal de um só membro da comunidade tinha implicações na vida da Igreja como um todo, traduziu-se na necessidade da mediação sacerdotal para a reconciliação dos penitentes, fosse diretamente pela presença episcopal, como aconteceu nos primórdios da Igreja, fosse pela presença de um seu delegado, o presbítero, a partir da Idade Média.

A realidade atual, fruto da multissecular sabedoria da Igreja e da sua disciplina sacramental, continua a propor aos fiéis a experiência da celebração do amor misericordioso de Deus que nunca desiste da sua criatura, esperando, dia após dia, o regresso de cada um dos seus filhos para os poder abraçar.

O Sacramento da Penitência na atualidade

O Ritual da Penitência, reformado após o Concílio Vaticano II, de acordo com os princípios da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, é um instrumento muito útil para a pastoral da misericórdia que todos somos chamados a viver, quer como pastores, quer como fiéis leigos. O conhecimento do Ritual permite descobrir a grandeza do amor misericordioso de Deus, a beleza do sacramento pelo qual somos absolvidos do nosso pecado e a riqueza da liturgia da Igreja, pela qual somos mergulhados no mistério pascal de Cristo.

O Ritual atual, na Tradição da Igreja, quer realçar a centralidade da pessoa, apresentando o sacramento da penitência, não só como perdão dos pecados graves, mas também como caminho de crescimento espiritual e de santidade, como configuração da vida dos fiéis com Cristo e como meio para viver cada vez melhor a graça do batismo.

A reforma do Ritual teve em conta a dimensão celebrativa da liturgia, a participação ativa dos fiéis e a importância da Palavra de Deus, que deve ser anunciada àquele que se aproxima do perdão de Deus; a fórmula sacramental foi ampliada com uma anamnese trinitária e eclesial, evidenciando o perdão como ação de Deus Trindade, dentro da comunidade cristã; houve também a preocupação de realçar essa dimensão eclesial, propondo orientações específicas para as celebrações comunitárias do Sacramento. Esse perdão amoroso de Deus pode e deve celebrar-se em qualquer tempo ou dia, mas o tempo da Quaresma, dado o seu carácter penitencial, é o mais apropriado para celebrar o sacramento (Cf. Ritual da Penitência, 13).

As várias formas da celebração do Sacramento

O atual Ritual da Penitência, aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa, em 1996, apresenta diversas formas de celebrar o sacramento: a celebração da reconciliação de um só penitente; a celebração da reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição individual; e a celebração da reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição geral.


A primeira forma prevista no Ritual
, deve, tanto quanto possível, manifestar o acolhimento do penitente, pôr em evidência a importância da Palavra de Deus, a confissão dos pecados, a aceitação da penitência, a absolvição com a fórmula ritual, e a ação de graças pelo dom do perdão. Seria útil, tanto quanto possível, valorizar na celebração individual do sacramento da penitência, cada um destes passos, para que a mesma não se reduza à dimensão do pecado, mas se abra à graça de Deus, que gera no coração do penitente o louvor e a gratidão pela vida nova recebida.


A segunda forma prevista
, o acolhimento da misericórdia de Deus no contexto de uma celebração penitencial comunitária, põe em evidência o seu carácter eclesial e realça a dimensão litúrgica da penitência. Neste caso, o sacramento realiza-se numa celebração da Palavra, pela qual o Senhor, rico de amor e misericórdia, convida à mudança de vida.

Nesta segunda versão, todos os momentos são comunitários, exceto o momento sacramental, que deve manter o seu carácter pessoal, havendo um espaço para a confissão individual dos pecados e para a absolvição de cada penitente.

Neste caso, o rito prevê, após a homilia, um tempo de exame de consciência, a proclamação de uma fórmula comunitária de confissão, uma litania (oração universal ou cântico) que evidencie a contrição de todos os presentes e a oração do Pai-Nosso, que nunca se deve omitir.

Após o Pai-Nosso, quem desejar aproxima-se de um sacerdote para confessar os pecados, rezar o ato de contrição, acolher a penitência e receber a absolvição sacramental. Para que este momento não seja demasiado longo e não se perca a dimensão comunitária, é útil que se organize uma procissão de penitentes. Cada penitente, de pé junto do sacerdote, confessa os seus pecados com clareza e objetividade, diz o ato de contrição, acolhe a penitência, ajoelha-se e recebe a absolvição do sacerdote. Evite-se neste momento tudo o que se assemelhe a direção espiritual que deve acontecer noutra ocasião. Após a absolvição de cada um dos penitentes, todos juntos, terminam a celebração proclamando as maravilhas do Senhor.


A terceira forma do Sacramento da Penitência
, absolvição simultânea a vários penitentes sem confissão individual prévia, “não pode dar-se de modo geral, a não ser que: esteja iminente o perigo de morte, e não haja tempo para um ou mais sacerdotes poderem ouvir a confissão de cada um dos penitentes; haja necessidade grave, isto é, quando, dado o número de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados da graça sacramental e da sagrada comunhão. Não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes” (Cf. Ritual da Penitência, 31).

Esta terceira possibilidade está sujeita sempre à autorização do Bispo Diocesano, de acordo com as normas fixadas em conformidade com a Conferência Episcopal.

Acolher o perdão de Deus

Num mundo ferido e dilacerado por divisões e discórdias, a Igreja é chamada a ser lugar de esperança e presença de Deus, que nos cura, cuida de cada um de nós e derrama abundantemente a sua misericórdia.

Convido, por isso, todos os que exercem qualquer ação pastoral e catequética a formarem as comunidades, desde a infância, para a beleza do perdão misericordioso de Deus, para a celebração regular do Sacramento da Reconciliação e para a necessidade de o integrar no caminho da santidade, iniciado no batismo.

Exorto, de modo especial, os sacerdotes da nossa Diocese a disponibilizarem tempo para a celebração da penitência, com horários adequados, em que os fiéis saibam que alguém está disponível para os escutar e ser instrumento do perdão de Deus.

Por fim, convido todos os fiéis da nossa Diocese a celebrarem com regularidade o Sacramento da Reconciliação, reconhecendo que, através deste sinal da graça, Deus reconstrói em nós a vida divina que recebemos no batismo e que o pecado vai obscurecendo.

Que todos nós, pela liturgia da penitência, sintamos o amor de Deus Pai, que sempre nos espera e que, no nosso regresso, nos abraça, nos restitui a dignidade de filhos e faz festa por termos voltado sãos e salvos.

Coimbra, 19 de março de 2026
+ Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra


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