ALMOÇO/DEBATE COM O NÚCLEO DE COIMBRA DA ACEGE – PAVILHÃO EUROPA – COIMBRA

  1. INTRODUÇÃO

Caríssimos amigos!

Quero, em primeiro lugar, agradecer a possibilidade de estar presente neste almoço/debate, promovido pelo Núcleo de Coimbra da ACEGE. Para além do gosto de estar convosco, venho para manifestar o meu desejo de ver esta Associação crescer e ajudar a sociedade a desenvolver um sério trabalho de reflexão acerca das muitas realidades temporais que a ocupam.

Há um pensamento cristão compendiado na Doutrina Social da Igreja e noutros documentos do Magistério Eclesial que precisam de ser conhecido, enquanto contributo para a construção de uma sociedade onde se respeite acima de tudo o ser humano, imagem e semelhança de Deus e coroa da Criação.

Gostaria de vos oferecer uma breve reflexão sobre a problemática da economia dominada pelo mercado e o contributo trazido pela perspetiva cristã ao propor uma economia baseada no dom. Entre os muitos indicadores dos quais podia partir, decidi olhar para a mudança notória no que respeita aos modelos de laços e relações sociais, fruto da sobrevalorização do mercado, do lucro e do capital.

 

  1. RICOS, MAS DESUMANOS – A TIRANIA DO MERCADO

A crise económica e financeira veio relançar a reflexão sobre a atitude do homem face à vida, face ao universo e face aos outros.

Criámos um mundo inabitável, que cava a sua própria ruina e não vemos forma de sair dele. Não existe outro planeta para onde possamos fugir, nem outro mundo em que possamos habitar; não há outra humanidade diferente desta se não formos capazes de a construir.

Somos hoje vítimas da tirania do mercado, onde as ideologias, tanto comunitaristas como liberalistas nascem das mesmas regras e da mesma sobrevalorização do capital e do mercado, apesar de terem sinais diferentes e proporem soluções diversas.

É falsa, porque utópica, a ideia de que a própria refundação da ordem mundial com base no desenvolvimento económico dos grandes países emergentes, como a Índia, a China ou o Brasil, trará uma mudança sustentável ao mundo. Os sintomas são evidentes: crescem as desigualdades sociais, surge uma nova classe mundial, constituída pelos chamados híper ricos ao lado dos extremamente pobres, continua a destruição ecológica do planeta, surge o fenómeno dos sem terra e da repressão das minorias étnicas, desvalorizam-se as identidades.

Tornou-se uma urgência a reflexão sobre o desenvolvimento económico e social que respeite a pessoa humana e que seja, ao mesmo tempo, consciente da fragilidade da criação e do caráter limitado dos recursos disponíveis. De forma consciente, as transações monetárias perderam todo o sentido da proporção do valor das transações reais; tudo se mede e programa em função do puro proveito, de tal modo que qualquer proposta de desenvolvimento marcada pela dimensão social é discretamente adiada pelos líderes políticos e económicos.

A nossa sociedade carateriza-se pelo enfraquecimento dos laços sociais, cuja génese vem, em parte, do paradigma económico dominante. A pessoa humana não vale por si mesma nem é respeitada por si mesma, mas acaba por ser relegada para um plano inferior, sempre que os valores económicos se “impõem”. Esta preponderância do “homo aeconomicus” em detrimento do “homo socialis” está na origem de muitos males sociais que povoam os grandes blocos informativos dos meios de comunicação social e, ao mesmo tempo, constituem matéria imprescindível de todas as campanhas eleitorais, pois prestam-se às mais sugestivas promessas da demagogia política. Questões como os baixos índices de escolaridade, faltas de civismo, problemas de solidão, abandono de crianças ou idosos, suicídios, pessoas sem abrigo, contam-se entre os problemas sociais mais graves, fruto do paradigma económico ocidental.

Ao mesmo tempo que criámos o problema, procurámos, pelo menos mitigá-lo, propondo soluções a que se vem chamando “delegação de meios”, que podem ser tanto de âmbito público como privado, estatais ou associativos. De fato, as iniciativas e meios de solidariedade e assistência tanto para crianças como para idosos, por exemplo, profissionalizaram-se, os laços sociais foram delegados em profissionais de vários ramos. Chamamos hoje sociedades de progresso àquelas que foram capazes de resolver razoavelmente estes problemas, pois são, todas elas, sociedades de abundância e que valorizam de forma desmesurada a dimensão económica em detrimento dos fatores humanos.

Somos, hoje, uma sociedade de serviços, e sobretudo de serviços à pessoa humana, sendo este um dos sectores que mais possibilidades de emprego oferece. Aquelas tarefas que pertenciam naturalmente à comunidade, como é o caso de cuidar das crianças e idosos, foram entregues a outras entidades que não a família ou a comunidade humana natural, foram delegadas no Estado ou nas associações de solidariedade. As relações interpessoais foram delegadas para o âmbito profissional e, gradualmente mudou-se de paradigma: a uma relação interpessoal gratuita, fundada sobre o dom, sobre o amor ou sobre a partilha, sucedeu uma relação impessoal, profissionalizada e paga.

Os laços sociais naturais, gratuitos, comunitários e familiares, foram substituídos por transações de bens materiais e imateriais, ou seja, por serviços e por solidariedade, que se tornou mercadoria. Estamos diante de uma das piores consequências da implementação do economicismo a todo o custo, que em nome do proveito e do lucro se levanta contra o próprio homem.

Ao perder-se a dimensão gratuita das relações interpessoais, entra-se num vazio de humanidade, de afetos e de familiaridade, e entra-se na lógica do tudo se compra, tudo se vende e, portanto das trocas comerciais, que cavam cada vez mais funda a ruina da humanidade.

A riqueza e o desenvolvimento económico, por muito grande que sejam, não resolvem os problemas da relação pessoal, essencial ao ser humano, antes parecem agravá-lo. Pode salvar-se a economia, mas arruína-se a pessoa e a sociedade.

Esta mesma realidade é magistralmente expressa pelo Papa João Paulo II na sua Encíclica Redemptor Hominis, nº 107: “O desenvolvimento económico, conjuntamente com tudo aquilo que faz parte do seu modo próprio e adequado de funcionar, tem de ser constantemente programado e realizado dentro de uma perspectiva de desenvolvimento universal e solidário dos homens tomados singularmente e dos povos, conforme recordava de maneira convincente o meu Predecessor Paulo VI na Encíclica Populorum Progressio. Sem isso, a simples categoria do «progresso económico» torna-se uma categoria superior, que passa a subordinar o conjunto da existência humana às suas exigências parciais, sufoca o homem, desagrega as sociedades e acaba por desenvolver-se nas suas próprias tensões e nos seus mesmos excessos”.

 

 

2. MUDANÇA DE PARADIGMA – A ECONOMIA DO DOM

O cristianismo, não sendo uma doutrina de análise económica, nem um conservadorismo reaccionário que se oponha ao desenvolvimento, ao progresso tecnológico ou às regras do mercado, é, sem dúvida, uma contra cultura, porventura a única contra cultura capaz de fornecer um paradigma novo e revolucionário ao propor uma civilização que privilegia os laços gratuitos em detrimento dos bens transacionados e pagos.

O paradigma cristão, a que podemos chamar economia do dom, é magistralmente oferecido pela figura de Cristo na cruz, que estende os seus braços sobre a terra e liga o humano ao divino. Ele incarna a identidade mais profunda do homem, que só tem sentido enquanto dom de si.

Enquanto religião do dom o cristianismo é portador de uma absoluta e única novidade: estabelece uma relação entre Deus e os homens por meio da incarnação, entrada na nossa humanidade para nos elevar à sua divindade.

O mistério pascal da sua morte e ressurreição, o sacrifício redentor, é a realidade que exprime esta novidade. Ao oferecer a sua vida para salvar os homens, Jesus ultrapassa toda a lógica da política e da economia, para nos oferecer a lógica da antropologia e da teologia, ou seja, para nos centrar na realidade mais profunda do homem e de Deus: a economia do dom.

A sua oferta em sacrifício livre na cruz está para além da lógica mercantil do comprar e do vender. Trata-se da oferta de si mesmo como meio de resgate do que está perdido, sem nada receber em troca. Inaugura uma nova modalidade de ser e um tempo novo de agir.

Resgatar é dar; é o próprio Deus que se dá para que nós possamos ser. Trata-se do “admirável comércio” cantado pelos Padres da Igreja, quando dizem por meio de Santo Agostinho, na Cidade de Deus: “Jesus Cristo, homem, quis participar da nossa humanidade para nos tornar participantes da sua divindade”.

O mesmo Santo Agostinho, num dos seus sermões pascais evoca esta realidade da troca de dons entre Deus e o homem e dos homens entre si, usando a linguagem do contexto pascal e eucarístico. Fala aos neo-batizados que participam pela primeira vez na eucaristia e na comunhão, o sinal sacramental desse dom: “Não é a massa composta por muitos grãos de trigo? Esses grãos, antes de serem transformados em pão, estavam separados uns dos outros; a água serviu para os unir depois de terem sido moídos. Pois se o trigo não for moído, e se a farinha não é embebida de água, nunca teremos pão. Do mesmo modo… a água do batismo veio embeber-vos, de tal modo que vos tornastes uma espécie de massa espiritual… O Espírito Santo descerá no dia do Pentecostes… como o fogo depois da água, e tornar-vos-eis um pão sagrado, o corpo de Jesus Cristo”.

Este é o dom gratuito, ou seja, o amor, a mais admirável partilha ou o mais admirável comércio: pela Eucaristia, o Corpo de Cristo oferece-se pelo homem; o homem torna-se, pelo batismo, o Corpo de Cristo. Ali nasce um movimento infinito de dom, que envolve o homem numa espiral infinitamente aberta a novo dom.

A partir de Jesus Cristo, que se dá e resgata a humanidade perdida, o cristianismo inaugura uma era nova e um novo paradigma, quando nos convida a oferecermo-nos sem limites, sem esperar retribuição, mas abrindo-nos humildemente a um possível retorno que ultrapassa infinitamente o dom de nós mesmos.

O sacrifício da Missa atualiza de forma sacramental esse dom absoluto de Jesus Cristo, que nos convida a atualizarmos o dom de nós mesmos. No fundo, cria e atualiza uma realidade de laços espirituais, que são mais profundos do que os próprios laços sociais, e que constituem a única possibilidade de união e comunhão entre nós.

Neste sentido, o cristianismo tem algo de fundamental a dar ao mundo, enquanto portador de uma perspetiva única, alicerçada nos laços de amor existentes entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, com consequências a todos os níveis. O cristianismo, não sendo uma garantia da ordem pública, nem uma rede de solidariedade, nem uma doutrina comunitarista, oferece um modelo único de atitude existencial que transforma o homem decaído e fechado sobre si mesmo em homem agraciado e aberto ao dom de si mesmo.

“O pão eucarístico constitui, em todas as dimensões, o símbolo eficaz e real de uma múltipla doação: doação do Deus trino as si mesmo, enquanto permuta entre o Pai, o Filho e o espírito; doação de Deus ao ser humano, enquanto permuta entre Criador e criatura; doação de vida por parte de Deus, que supera a morte; doação da vida de cada ser humano ao outro; doação de sentido último ao mundo e à vida, precisamente enquanto constitui entrega de cada um ao outro e de todos a Deus, origem primeira e última de tudo e de todos” (JOÃO MANUEL DUQUE, O excesso de dom, Alcalá, 2004).

O Papa Bento XVI chama a atenção para esta realidade fundamental, ao dizer: A caridade na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilarista da existência. O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência” (Caritas in veritate, 34).

Mais adiante afirma: “A actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política. Por isso, tenha-se presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico — ao qual competiria apenas produzir riqueza — do agir político, cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição” (Caritas in veritate, 36).

“O grande desafio que temos diante de nós — resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade” (Caritas in veritate, 36).

 

3. CONCLUSÃO – ANO DA FÉ

Estamos no Ano da Fé, proclamado pelo Papa Bento XVI. Trata-se de um tempo de graça para se entrar em profundidade no mistério da fé professada, celebrada, rezada e vivida, como afirma a Porta Fidei.

Tudo o que é humano interessa ao homem crente e acerca de tudo a sua fé tem uma palavra a dizer e uma proposta a fazer, que nasce da novidade do Evangelho. Cada pessoa e cada comunidade precisa de retirar as consequências da sua fé para a sua vida e em todas as suas dimensões, incluída a economia.

O cristão tem um papel único na sociedade e no mundo, que deve assumir corajosamente, a partir da sua alegria de crer e do seu entusiasmo de testemunhar a fé, bem enraizada na vida.

A única via hoje aberta ao cristianismo e à Igreja é a da proposta ativa, que inclui sempre uma leitura crítica da realidade, pois não se pode conformar com este mundo. A proposta ousada, séria, consequente e assumida é a única arma da Igreja.

Tendo-se tornado uma realidade periférica – e não minoritária – o grande desafio feito ao cristão neste tempo consiste em ser ele mesmo, manter a sua identidade, pensar por si mesmo, pois isso torna-se um sinal e uma força de testemunho.

Como disse a Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, “a Igreja não está ligada a nenhuma forma particular de cultura, nem a qualquer sistema político, económico ou social”. Assume, no entanto, em todas as épocas, a missão de os evangelizar a todos, por meio da apresentação da sua proposta, assumindo o risco de ser contra cultural.

Concluo citando JEAN-PIERRE DENIS, no seu livro Pourquoi le christianisme fait scandale (Seuil, Paris, 2010), que nos provoca e incita a ocupar o lugar que nos cabe a partir da fé cristã: “O cristão contra-cultural é um rebelde soft, não um ideólogo. Uma alternativa, não um terrorista. Um cidadão crítico, não um inimigo da república. Cada vez mais, o desafio será o de oferecer uma objeção de consciência interpelativa e uma adesão sem falha nem rancor à vida da cidade. Sem isso, da periferia da cultura em que se encontra… o cristianismo será cedo ou tarde… relegado para o vazio do espaço e para o silêncio infinito pavoroso das civilizações desaparecidas” (p. 338).

 

Coimbra, 29 de Novembro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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