As consequências políticas do cristianismo
Manuel Castelo Branco
Comissão Diocesana Justiça e Paz
O cristianismo não é politicamente neutro. A máxima evangélica do amor incondicional ao outro implica, necessariamente, no domínio das relações privadas e na esfera do poder público, a rejeição de mecanismos, de práticas e de estruturas opressivos, injustos, brutais e totais.
O cristianismo é, em absoluto, incompatível com regimes políticos ditatoriais e totalitários. O que não significa a justificação automática das políticas públicas dos estados democráticos.
A democracia social contemporânea, ela própria fundada nas ideias de autogoverno, de subsidiariedade e de solicitude com a pessoa frágil, é largamente tributária do pensamento social cristão, fonte primária da cristalização normativa dos catálogos dos direitos humanos e da afirmação da radical igualdade que vincula todos os viventes, em todos os tempos e lugares.
Nesta medida, a título de exemplo, afastam-se da cosmovisão cristã políticas públicas que legitimem as novas vestes da escravatura laboral, por normatividades de precaridade na duração do vínculo, por flexibilidades arbitrárias na definição dos tempos e dos locais de trabalho, por remunerações abaixo da linha da linha de água da vida materialmente decente.
Como se afastam da cosmovisão cristã sistemas fiscais que são fardo insuportável para quem ganha a vida com o suor do seu rosto, e, ao mesmo tempo, tropical brisa suave para quem desfruta da dolce vita do capitalismo de casino em seletivos paraísos de cuidada construção legal.
Como se afastam, de modo radical e insuprível, do amor ao outro evangélico todas as políticas públicas de apartheid, novíssimas concretizações da Unmenschlichkeit (inumanidade) da alteridade, pretexto e mote de todos os genocídios.
Para o cristianismo, não havendo grego nem judeu, não há gentios.
Porque somos todos gentios.