“Entre São Pedro e São Paulo… e Instagram e Santo Digital”

“Entre São Pedro e São Paulo… e Instagram e Santo Digital”

Madalena Abreu
CDJP

O novo ano letivo começou, trazendo consigo os velhos debates que insistem em inquietar-nos e dividir-nos. Redes sociais e inteligência artificial: bênção ou maldição? A questão é complexa e os impactos que provoca deixam frequentemente a sensação de que “é definitivo, nada há a fazer”. Uns veem nestas ferramentas oportunidades inéditas de partilha, aprendizagem e democratização do saber; outros temem que abram caminho a um mundo mais fragmentado, superficial e desumanizado.

Curiosamente, quando se discute a sua utilização, o ónus da culpa recai quase sempre sobre os mais jovens. São eles os acusados de dependência do ecrã, de confundir o real com o digital, de se deixarem aprisionar pelas ilusões dos algoritmos. Mas será justo colocar sobre os ombros de uma geração inteira o peso de uma transformação que é estrutural, atravessando escolas, empresas, famílias, paróquias e até governos?

Este é um tema de fricção profunda, capaz de dividir opiniões e alimentar discussões inflamadas, tantas vezes contaminadas por preconceitos. Há semanas, dei por mim a pensar neste drama contemporâneo à luz do confronto entre São Pedro e São Paulo: um em defesa da prudência e da tradição, o outro aberto ao risco e ao novo. O paralelo é fértil, porque também nas redes sociais e na inteligência artificial convivem estas duas forças – a cautela e a ousadia.

Eis, então, a verdadeira provocação: como acolher estes novos meios? Como separar o trigo do joio? Não será esta igualmente uma oportunidade para a “Igreja em saída”, tão sonhada pelo Papa Francisco? Se o Evangelho deve ser anunciado em todas as periferias, porque não também nas redes sociais e na inteligência artificial? São territórios a evangelizar, lugares de encontro, mas igualmente de discernimento.

Virar costas e demonizar a tecnologia seria uma ilusão. A história mostra que o medo raramente constrói. O que edifica é o uso responsável, crítico e criativo. O desafio maior não está em proibir, mas em educar. Educar para o silêncio e para a escuta, tanto quanto para a partilha e para a participação.

Este novo ano letivo é, por isso, também um ensaio de futuro. Nas escolas e universidades não se formam apenas profissionais, mas cidadãos capazes de decidir o lugar que a tecnologia ocupará nas suas vidas. Cabe-nos acompanhar os jovens – não apenas julgá-los – ajudando-os a transformar sombra em luz, ruído em sabedoria, excesso em responsabilidade.

E a Igreja oferece-nos, neste momento, um sinal inspirador: o primeiro santo da geração millennial. São Carlo Acutis, canonizado a 7 de setembro, foi um adolescente que soube usar a tecnologia como espaço de fé e de serviço. Criou sites paroquiais, lançou projetos de voluntariado, divulgou a oração do Rosário online. Um verdadeiro santo digital.

Nas palavras de Dom Sorrentino, bispo de Assis, Carlo Acutis é “o rosto de uma Igreja amorosa e acolhedora” e a prova de que a santidade pode morar ao nosso lado. Talvez seja este o sinal de que as instituições católicas devem preparar-se – não apenas para criticar, mas para formar especialistas em inteligência artificial que a usem com responsabilidade.

Que este ano letivo seja, pois, iluminado pela esperança, pela alegria e por uma nova pedagogia da responsabilidade – capaz de unir fé, tecnologia e humanidade.

 

 

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